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‘O Esquadrão Suicida’: a diferença que um artigo e animais em quantidades exageradas podem trazer

O filme dirigido por James Gunn consagra-se como um dos melhores filmes do estúdio com comicidade duvidável e violência explícita (exatamente tudo que desejávamos!)

CINÉFILOS
19 ago 2021 | Por Rian E. Damasceno (rian.enrique@usp.br)

Para início de conversa, O Esquadrão Suicida (The Suicide Squad, 2021) de James Gunn não é uma continuação ou um reboot do filme com o mesmo nome só que sem artigo de 2016 dirigido por David Ayer. É uma segunda tentativa. Por isso, segue a mesma premissa: um grupo de vilões presos são chamados para participar da Força Tarefa X a comando do governo estadunidense a fim de diminuírem suas penas e, caso tentem fugir, suas cabeças são explodidas. Só que dessa vez, diferente de 2016, o filme é incrivelmente bom. 

James Gunn assumiu a direção do filme após ser demitido pela Disney por ter tuítes expostos fazendo piadas sobre estupro, pedofilia e holocausto. Quando ficaram sabendo de sua contratação pela DC, os representantes da Marvel o contrataram novamente para Guardiões da Galáxia 3, pois produziu o primeiro e o segundo. Mas isso não o impediu de dirigir um dos mais bem avaliados filmes da DC atualmente.

O longa não perde tempo explicando como funciona o grupo comandado por Amanda Waller (Viola Davis), já pressupõe que o telespectador entenda por causa do filme que o antecede. Então nos 15 primeiros minutos é mostrado as características que marcarão as próximas 2 horas: piadas ruins, personagens desequilibrados, cores explosivas  e muito, muito, muito sangue. Ou seja, totalmente brega. A própria obra se intitula assim. Porém, acredito que há uma diferença entre filmes bregas e filmes bregas-geniais, e esse, certamente, é o segundo.

Os personagens que fazem parte do esquadrão são Sanguinário (Idris Elba), um atirador impecável coagido a entrar no grupo para proteger sua filha Tyla (Storm Reid); Pacificador (John Cena), um mercenário que acredita que a paz deve ser alcançada independente dos meios — falaremos disso daqui alguns caracteres; Tubarão-Rei, ou Nanaue para os íntimos, um híbrido homem-peixe forte, engraçado e fundamental para o filme, além de ser dublado por Sylvester Stallone; Caça-Ratos II (Daniela Melchior), uma portuguesa sentimental controladora de ratos; e, por incrível que pareça, Bolinha (David Dastmalchian), um cara vestido de bolinhas coloridas que dispara bolinhas coloridas.

Além deles, temos a volta de Rick Flag, Capitão Bumerangue e nossa querida Arlequina do primeiro filme, interpretados respectivamente por Joel Kinnaman, Jai Courtney e Margot Robbie. 

Dentre os coadjuvantes, destacam-se O Pensador, interpretado por Peter Capaldi, e a brasileira Alice Braga como uma líder da resistência rebelde. Outros personagens como Sábio, Blackguard, Mongal e Doninha são essenciais, mas de modo inesperado. Prefiro não comentar.

 

Em meio a destroços de uma cidade com vários prédios, os membros de O Esquadrão Suicida encaram algo à frente.

As cenas no país latino foram gravadas no Panamá (Da esquerda para a direita: Arlequina, Caça Ratos II, Sanguinário, Tubarão-Rei e Bolinhas). [Imagem: Reprodução/Warner Bros. Pictures]

A obra possui ótimas piadas e poucas são um alívio cômico forçado, mesmo com a estranha obsessão de James Gunn por genitálias. Isso coopera para que as atuações e as características dos personagens se conectem de forma divertida e fujam da recente depressão que cerca filmes de heróis atualmente. Para ser honesto, o esquadrão suicida é um grupo de desajustados bem mais interessante que o Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985).

Apesar de ser um filme de anti-heróis, o roteiro não se afasta da fórmula tediosa de filmes de heróis comuns, porém traz alguns elementos novos. A equipe é convocada para ir a um país latino fictício, onde a personagem de Alice Braga mora, que está passando por um golpe de Estado que destituiu o presidente que era ligado aos Estados Unidos. Lá, eles precisam derrotar um “cientista maluco”, O Pensador, que possui uma arma com um nome autoexplicativo que pode destruir o mundo, o projeto Estrela-do-Mar.

Porém Amanda Waller manipula os membros da equipe sem nenhum pingo de empatia e não conta a verdadeira missão para todos. Nesse momento, o Pacificador e seu anseio pela paz independente de tudo entra em jogo e, por trás de sua inocência e gracinhas, representa as ações militares e imperialismo dos EUA em outros países. Esse aspecto chama muita atenção no longa e destaca-se por lembrar a série The Boys, que critica a sociedade norte-americana por meio de super-heróis.

Gunn expõe de modo interessante esses atos norte-americanos, principalmente com uma fala de Alice após uma competição de tiros entre o Pacificador e o Sanguinário. Mas a representação do povo latino e das intervenções estadunidenses são problemáticas. Os latinos são estereotipados e sexualizados enquanto as ações militares são suavizadas e, assim, a ideia de superioridade dos EUA é mantida. 

Para piorar, os ouvidos mais atentos conseguem ouvir uma música da mamacita Karol Conká no meio do longa.

Extremamente problemático.

A obra é bem colorida, característica herdada do passado de Gunn em Guardiões da Galáxia, e as cenas de ação são em sua maioria armadas e, infelizmente, com pouca luta mão-a-mão. Dentre elas, a mais marcante é a de Harley Quinn ao tentar fugir de seu cárcere no país latino. Nossa querida Arlequina não é sexualizada, como no filme de Ayer, e se manteve como o coração do longa. James Gunn parece ter tomado notas de Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey (and the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn), 2020), pois consegue fazer uma exploração fantástica do subjetivo e surrealismo da personagem, assim como a diretora Cathy Yan.

 

Arlequina, com nariz ensanguentado e mechas vermelhas e azuis no cabelo, usando um vestido vermelho, aparece apontando uma arma.

Harley Quinn/Arlequina é destaque no filme da DC, novamente. [Imagem: Reprodução/Warner Bros. Pictures]

Além das atuações de Viola Davis e Margot Robbie, a de Idris Elba, como sempre, também é destaque favorável. Diferente de John Cena, que me dava um mal estar toda vez que aparecia na tela, e nesse filme há elementos muito mais nojentos.

Os efeitos especiais e a violência explícita são pontos altos do longa. Cenas como um homem-peixe partindo um ser humano no meio às vezes é tudo que precisamos de um filme. Esse gore assemelha-se com as artes e ideias dos quadrinhos, assim como outros elementos, tal qual as armas de Sanguinários, mas, depois de certo momento, parecem apenas toscos, pedantes e mal feitos. Apesar de legal, esses aspectos foram usados exageradamente. Assim, como os ratos da Caça Ratos II.

O filme tem elementos muito experimentais, como as geniais legendas artísticas para anunciar um novo ato e a chatíssima cena de luta vista por um capacete. Pois, pelo passado do esquadrão suicida, James Gunn não teve medo de arriscar, como também manteve as ideias já funcionais da Marvel. A combinação acabou em um ótimo uso de uma segunda chance e reescreveu aquilo que antes era uma humilhação. Acho que agora todos nós podemos apagar o Jared Leto como Coringa de nossas mentes.

Nota do Cinéfilo: 4 de 5, Muito Bom!

 

O Esquadrão Suicida já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer legendado:

*Imagem da capa: Divulgação/Warner Bros. Pictures

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