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O fim das guerras?
SCI-FI
06 nov 2019 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

O livro Guerra sem fim (The forever war), de Joe Haldeman, publicado pela Editora Aleph em 2019, parece, a princípio, apenas mais um livro comum de ficção científica: quase destruição da Terra, viagem interestelar, alienígenas, guerra, morte. Mas, após a leitura das primeiras páginas, podemos perceber que também possui a qualidade das boas obras desse gênero. Apesar do uso de clichês literários, é possível transmitir um senso de verossimilhança, gerando reflexão sobre a existência de guerras na história da humanidade.

Imagem: Danilo Moliterno / Audiovisual – Jornalismo Júnior

A presença de capítulos curtos confere dinamicidade à obra e facilita o fluxo de leitura. O livro é dividido em quatro partes, cada uma correspondente ao cargo ocupado pelo protagonista William Mandella, que ascende de posição no decorrer da guerra. Essa divisão é importante para compreendermos a evolução do conflito e de Mandella, que, como toda pessoa que presencia uma guerra, tem suas concepções transformadas.

Guerra sem fim se baseou na experiência do autor durante a Guerra do Vietnã, na qual teve que lutar como soldado. A partir disso, ele conseguiu traçar analogias com a sociedade contemporânea, utilizando a ficção científica como parábola, analogia com o mundo real. Tais analogias provocam em quem lê reflexão sobre os valores modernos, e posterior contestação a estes. Alguns pontos chamaram atenção durante a leitura e merecem destaque.

Primeiramente, observei um detalhe ainda presente nas guerras atuais: as fake news. No livro elas ocorrem por meio da propaganda, que distorce a imagem do inimigo, tentando torná-la o mais “cruel” possível, para que os soldados não pensem duas vezes ao terem que matá-lo. Isso gera também a incompreensão do adversário, o que impossibilita a comunicação e simplesmente prolonga a guerra.

“Nós simplesmente os arrebentamos e matamos. Assim foi o nosso primeiro encontro  entre a humanidade e outra espécie inteligente. (…) O que teria acontecido se tivéssemos nos sentado e tentado nos comunicar?”

A falta de tentativa de diálogo entre os dois lados tem, muitas vezes, interesse econômico. No caso dessa ficção, a FENU, Força Exploradora das Nações Unidas, tem um comércio muito lucrativo com o Exército de Elite criado em 1996, do qual Mandella participa. É por meio desse exército que foi possível desenvolver tecnologias militares e conquistar diferentes planetas.

Em segundo lugar, os avanços tecnológicos da ficção me fazem pensar até que medida a intervenção tecnológica é benéfica. Um caso observado é a destruição do planeta. A exploração dos recursos naturais tornou a Terra quase inabitável, o que resultou, por exemplo, em guerras por alimentos, como a Guerra de Racionamento de Alimentos, ocorrida em 2007. Junto com o desemprego de mais da metade da população, o planeta ficou insustentável. Diante disso, foi necessário desenvolver uma medida de controle de natalidade. A política adotada foi a padronização dos seres humanos como homossexuais, para evitar a reprodução natural. Isso me leva ao terceiro ponto.

Quando a sociedade do futuro padroniza a homossexualidade, a heterossexualidade é tratada como tabu. Mas Mandella, por ser do passado (o que foi possibilitado pelos saltos colapsares, que serão abordados em breve), não consegue aceitar o novo costume e, inclusive, torna-se “excluído” dos demais soldados devido a sua heterossexualidade. Tudo isso me faz pensar em como a heteronormatividade é um fator cultural, de modo que a homofobia só pode ser combatida com a educação e o conhecimento da realidade LGBT+.

Por último, o livro trata de saltos colapsares. Mas o que eles são? Eles seriam basicamente consequência da dilatação temporal, de modo que o tempo se passa diferente no espaço. Assim, como o tempo passou mais devagar no espaço, onde Mandella esteve, ele pôde presenciar toda a guerra, que, para o tempo terrestre, durou mais de um milênio. Isso o fez presenciar a evolução da humanidade, com mudanças nos costumes, na linguagem e na economia – com a crise de alimentos, a moeda que passou a ser adotada universalmente foi a caloria.

Essa observação histórica do protagonista também o fez enxergar o potencial de destruição das armas, além da regeneração de membros perdidos e a clonagem humana a partir de um ser considerado perfeito, o qual se tornou molde para uma nova civilização

A narrativa nos mostra que todas as guerras, apesar de suas particularidades, são iguais. Elas surgem da perda do princípio de alteridade, ou seja, baseia-se na incapacidade humana em compreender o outro para, então, estabelecer um diálogo e resolver os conflitos de maneira a prejudicar os lados da menor maneira possível. Isso se evidencia no final do livro: “Aquela guerra, que durara 1143 anos, começara por motivos equivocados e continuou apenas porque as duas raças não conseguiam se comunicar. Uma vez que conseguiram conversar, a primeira pergunta foi: ‘Porque você começou este negócio?’, e a resposta foi: ‘Eu?’” 

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