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O Gênio e o Louco e a magia das palavras
CINÉFILOS
06 maio 2019 | Por Cinéfilos

Por Maria Luísa Bassan
malugomesdesa@hotmail.com

Há algumas obras que trazem fascínio só de imaginar o seu processo de desenvolvimento. O Oxford English Dictionary é um desses trabalhos que até hoje chamam a atenção, não só pelo seu rico conteúdo, mas também pela história por trás dele, retratada no filme O Gênio e o Louco (The Professor And The Madman, 2019).

No ano de 1857, James Murray (Mel Gibson), um professor autodidata, é surpreendido com uma proposta da Universidade de Oxford para desenvolver o mais completo dicionário da língua inglesa. O processo de pesquisa tinha um caráter complexo: ele não levava em conta somente a definição das palavras, mas sua estrutura fonética, origens, variações e usos ao longo do conteúdo publicado em língua inglesa até aquele momento. Não importava se aquele verbete era de aplicação acadêmica, técnica ou cotidiana, se era amplamente conhecido ou havia caído em desuso; entender que a língua é viva, e, portanto, mutável de acordo com a cultura dos povos falantes, era essencial para o êxito do trabalho.

Murray, dotado de profundo conhecimento de línguas além da inglesa e com um enorme apreço pela filologia – estudo científico de uma língua através de seus documentos escritos –, percebe que o trabalho não iria progredir se ficasse restrito às paredes da Universidade. Então, com anúncios em jornais, bibliotecas e panfletos, ele convoca a participação de todo e qualquer falante da língua inglesa, pedindo para essas pessoas que se disponibilizassem como voluntários procurarem em livros publicados em inglês palavras cujas aplicações chamassem a atenção, a fim de investigar quando ela apareceu pela primeira vez, e se o sentido havia mudado ao longo dos séculos. A pesquisa não estava apresentando resultados satisfatórios, até que William C. Minor (Sean Penn), um médico aposentado do Exército estadunidense condenado a cumprir pena em um manicômio para criminosos depois de cometer um homicídio, se candidata como voluntário, e sua contribuição muda completamente o progresso do trabalho.

Gibson e Penn expõem, através de seus personagens, a magia que as palavras podem trazer na vida de uma pessoa. O primeiro, no papel de professor, mostra o encantamento que as palavras possuem para aqueles que já as conhece, e a vontade de fazer com que mais pessoas sejam deslumbradas por elas. Já o segundo vê nas palavras a sua única maneira de manter-se minimamente lúcido, mergulhando na leitura e pesquisa de forma a sentir-se útil para a sociedade e se redimir de seu crime. As palavras são o ponto de ligação entre eles, que passam a tecer uma amizade sensível, mesmo com tantas diferenças.

William e James, respectivamente, constroem uma amizade profunda ao compartilharem do mesmo apreço pela magia das palavras [Imagem: Copyright Imagem Filmes]

Vale destacar, em especial, o trabalho de Sean Penn no papel de William, ao interpretá-lo com delicadeza, não reduzindo o personagem às suas condições mentais, mas dando voz à visão de mundo e sentimentos do médico aposentado de modo a mostrá-lo, acima de tudo, como ser humano, capaz de se redimir e encontrar um sossego para seus tormentos. A relação que William constrói com Eliza Merrett (Natalie Dormer), viúva do homem que ele matou, parece um pouco forçada no começo, mas ao longo do filme é possível entendê-la como peça essencial para a sua redenção.

Além disso, a fotografia do longa também contribui para a construção da atmosfera sensível do filme. Os flashbacks, além de serem bem feitos e identificados, tornando  a narrativa coesa, auxiliam no entendimento da história de William e o aproximam do espectador. As cenas em ambientes abertos são muito bonitas, e nota-se o cuidado do diretor em usar a luz do sol como elemento de composição da cena.

Em certos momentos da trama, o desenvolvimento do Dicionário Oxford parece ficar em segundo plano; o ponto central do filme passa a ser o modo como as palavras mudam a vida das pessoas, seja em diálogos, livros, bilhetes e até mesmo em momentos nos quais elas não se fazem necessárias. Estar disposto a compreendê-las em sua natureza viva é o primeiro passo para saber usá-las.

O Gênio e o Louco tem estreia prevista para o dia 18 de abril no país. Assista ao trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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