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Netflix: ‘O Grande Passo’ – “Quem é o rei de Mumbai?”
CINÉFILOS
24 set 2020 | Por Aldrey Olegario (aldreyolegario@usp.br)

Iniciar o filme com uma das composições de O Quebra-Nozes talvez seja um dos indicativos do tema de O Grande Passo (Yeh Ballet, 2020): ballet. O longa é um drama bibliográfico original da Índia dirigido pela roteirista indiana Sooni Taraporevala, vencedora do Prêmio Lillian Gish de Mulheres no Cinema, pelo roteiro de Salaam Bombay! (1988)  — indicado ao Oscar —, e do prêmio Osella de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Veneza (1990), pelo roteiro de Mississippi Masala (1991).

O Grande Passo, distribuído pela Netflix, narra a história de Nishu (Manish Chauhan) e Asif (Achintya Bose), dois jovens das periferias de Mumbai, Índia, que  têm seus caminhos cruzados pelo ballet e vêem nessa modalidade de dança uma forma de mudarem a própria vida e a da família.

O longa é baseado na história real de Manish Chauhan — que interpreta a si mesmo no filme dando vida ao personagem Nishu — e Amiruddin Shah. Os dois garotos foram notados na Índia pelo professor de dança Yehuda Maor, representado pelo personagem Saul Aaron (Julian Sands).

Produzido em Mumbai, em idioma hindi, com vários elementos da cultura indiana e com uma trilha sonora original, própria e característica, o longa faz parte do gênero de filmes de Bollywood. As músicas se destacam por marcarem de forma precisa os diferentes momentos do filme, pois contribuem com a narrativa não apenas conferindo emoção à cena pela parte instrumental, mas também por meio das letras.

A expressividade das coreografias, de Shiamak Davar, Cindy Claes e Vitthal Patil, são pontos alto do filme, seja no hip-hop ou no ballet. Nesse sentido, cabe destacar a performance dos dois atores. Embora apenas Manish seja bailarino clássico profissional, Achintya também impressiona em suas coreografias desse gênero. Fora o ballet, ambos demonstram ritmo e sincronismo em outros estilos de dança.

A perspectiva que o longa adota para falar do ballet, sobretudo nos momentos em que os personagens principais decidem por eles mesmos entrar de uma vez por todas nesse universo, mostra o trabalho árduo e disciplinado dos bailarinos. É através desses momentos que o público consegue ter uma noção do processo anterior ao espetáculo final.

[Imagem: Reprodução/Netflix]

Apesar de ter como tema central a dança, o filme perpassa por várias outras questões, as quais nos são mostradas, na maioria das vezes, por meio de contrastes. A desigualdade social, por exemplo, pode ser percebida  mais facilmente ao analisar as adversidades entre Nishu e Neena (Sasha Shetty). A questão religiosa, por sua vez, é marcada pela segmentação hindu-muçulmana, através dos dilemas entre Asif — muçulmano — e Aasha (Mekhola Bose) — hindu — e dos atritos entre Asif e seu tio, também muçulmano.

Um dos aspectos narrativos que pode dar abertura a críticas já foi percebido em filmes como Green Book: O Guia (Green Book, 2018), Histórias Cruzadas (The Help, 2011) e Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009): a figura do personagem branco como encarregado e determinante para o bom desfecho da história de outro personagem não branco. Em O Grande Passo, esse papel fica a cargo de Saul, o professor antipático que descobre os dois jovens talentosos das periferias de Mumbai e o lançam para a carreira próspera no exterior, e que, por vezes, se mostra desrespeitoso e intolerante.

Em um dos momentos mais emblemáticos do filme, o seguinte trecho da música O Moray Jiya — que foi produzida para o filme —, do produtor musical Rishi Rich, corrobora com a construção da cena em que essa ideia do papel determinante de Saul se faz mais evidente:

“Todos os sonhos viram pó aqui

Ah, meu coração

Não perca a coragem

Todos os sonhos se transformam em ruína

Você não queima sozinho

Milhões queimam nesta cidade”

Como mencionado anteriormente, foi ao som do ballet de Piotr Ilitch Tchaikovsky que o longa marcou seu início e através deste também é marcado seu fim. Nos espetáculos de O Quebra-Nozes das companhias de ballet, o Pas de Deux (“passo à dois”) da composição de Tchaikovsky dá ritmo ao adagio (uma das partes da coreografia) do último dueto de bailarinos. O pas de deux em questão é o grand pas de deux (“grande passo à dois”) do segundo ato, interpretado pela personagem da Fada Açucarada e por seu Príncipe.

Vadim Muntagirov como Príncipe e Marianela Nuñez como Fada Açucarada em O Quebra-Nozes (2018). [Imagem: Reprodução/The Royal Ballet]

Nesse momento, é possível traçar um paralelo entre o espetáculo e o filme de Taraporevala envolvendo não só o tema ballet, mas também a trilha sonora. O que acontece é que em ambos os casos temos um dueto que define explicitamente O Grande Passo e, em ambos os casos, o Pas de Deux de Tchaikovsky se destaca como um elemento que conduz à finalização cronológica da narrativa.

Ao usar o mesmo recurso para demarcar o início e o fim do longa, é passada a sensação de um ciclo, no qual o começo e o final se delimitam e não ficam abertos à interpretação do público.

O filme já está disponível para todos os assinantes da Netflix. Confira o trailer:

*Capa [Imagem: Divulgação/Netflix]

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