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O herói nos tempos de Ultimato

Quem são os nossos heróis, e como nos relacionamos e somos representados por eles?

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20 maio 2019 | Por Camila Paim (camilapaimf@usp.br)

Você podia estar indo para a aula, no intervalo lanchando, ou na correria do trabalho. Mas na terça-feira, dia 2 de abril, o site da ingresso.com parou. Em uma hora, Vingadores: Ultimato conseguiu vender o que Guerra Infinita levou um dia inteiro para fazer. Atingindo o segundo lugar de maior bilheteria mundial, o filme com duração de 3 horas atraiu o público que acompanha a saga desde o primeiro Homem de Ferro, lançado em 2008.

Chorei, me arrepiei e, claro, ri muito.

Nas últimas cenas, despedi-me de meus heróis. Mesmo sabendo que não haveria os clássicos pós-créditos, não queria sair da sala de cinema, pois significava o fim da série com a qual tanto vibrei por mais de 10 anos. Antes que você me entenda mal, não, eu não sou a fã da Marvel que conhece todas as HQs, nem assisto aos vídeos analisando cada minuto. No entanto, acompanhar os filmes assim que saem com o mesmo grupo de amigos e comemorar juntos cada batalha vencida já estava virando tradição. Os dias de estreia atraem grandes fãs e eles são muito animados.

Além disso, acompanhei fielmente com um pouco de sofrimento as séries da Netflix em parceria com a Marvel. Apesar de não gostar muito de algumas adaptações, tenho 80% delas assistidas. Sempre fui muito atraída pela forma como os heróis se apresentam e seus poderes e personalidades evoluem. Tudo está sempre mudando para melhor ou pior e ver essas transformações foi grande parte da minha adolescência.

E justamente por não entender de onde vem esse fascínio tão grande por super-heróis, e por querer conhecer suas origens e seus criadores, fui atrás de alguns pesquisadores que entendessem mais sobre o Marvel Cinematic Universe (MCU para os íntimos).

Agora, depois de assistir a tantas viagens no tempo (oops, spoiler), vamos começar a nossa.

 

Como surgiram os quadrinhos de heróis?

As primeiras histórias em quadrinhos HQs que surgiram não eram sobre heróis. Eram voltadas ao público infantil e não trabalhavam com histórias muito aprofundadas. Rodrigo Pedroso é professor de história e tem mestrado na Universidade de São Paulo (USP), sobre quadrinhos do Capitão América na época do 11 de setembro de 2001, data do atentado ao World Trade Center. Em uma entrevista com mais cara de diálogo, consegui fazer um panorama histórico do que acontecia na época do surgimento dos heróis que conhecemos até hoje.

Rodrigo Pedroso, professor de história com pesquisa na área [Imagem: Arquivo pessoal]

A Era de Ouro dos Quadrinhos: final da década de 30 até a metade de 40

O primeiro super-herói de destaque é o Super-Homem, de 1938. Apesar de já existirem alguns outros, o Superman surgiu com tanta força e diferentes poderes que ganhou o posto.  No ano seguinte, é criado o Batman, com a missão de ser um “rival” nas vendas das HQs. Inicialmente, as revistas não tinham uma narrativa muito aprofundada. Cada edição vinha com várias histórias simples, que seguiam um padrão: um herói, um vilão (bandido) e um confronto. Tudo se resolvia ali mesmo.

Em 1941, a Marvel apresenta o Capitão América, o primeiro Vingador. A data não passou batida. A criação do homem patriota americano, que daria a vida pelo país lutando, é um dos maiores mecanismos de propaganda nacionalista de guerra que tem-se documentado. Prova disso é a capa da primeira HQ do Capitão América, em plena Segunda Guerra Mundial.

Capa da 1ª revista do Capitão América, em que ele aparece dando uma surra em um suposto Hitler, e há vários soldados nazistas em combate [Imagem: Reprodução]

Em entrevista com Celbi Pegoraro, doutorado em Ciências da Comunicação pela USP sob orientação de Waldomiro Vergueiro, grande nome na pesquisa de HQs, ele falou mais sobre a questão propagandista nessas revistas. Pegoraro ressalta que a Marvel não foi a única a utilizar seus personagens para merchandising. “O Super-Homem, uma espécie de imigrante embora de outro planeta que vive aventuras dentro do contexto político da década de 1930 e 1940 ajudou a vender o american way of life.” Além disso, ele cita que Batman, Lanterna Verde e outros também tinham narrativas associadas ao estímulo para o americano comprar o bônus de guerra, títulos públicos vendidos pelo governo para bancar os gastos.

Mas, já pelo nome e história, fica muito claro que o Capitão América é quem melhor encarna a imagem da propaganda. “O jovem e frágil Steve Rogers é convidado a participar de um programa secreto para se tornar um super soldado. Ele se torna a representação da perfeição humana e assim ajuda os EUA na guerra e, ao mesmo tempo no projeto para que a população americana apoie os esforços.”, argumenta Celbi.

 

Era de Prata: final de 40 até meados de 60

Com o fim da Segunda Guerra, a venda de quadrinhos entrou em crise. Hiroshima e Nagasaki diminuíram bastante a ideia de super-poder que qualquer herói pudesse ter. Só quem vendia bem era a tríade Super-Homem, Batman e Mulher Maravilha. Em 1954, o psiquiatra moralista Frederich Wertham escreveu um alerta sobre como as famosas revistas podiam estar transformando jovens em pessoas mais violentas. A Comic Code Authority (CCA) foi criada pelas editoras de revistas e durou quase 50 anos. Proibia a representação gráfica de sangue, violência e insinuações sexuais, visto que aquilo estaria causando um aumento na delinquência juvenil. Passou-se a exigir um selo na capa e a seguir a regulamentação de cores, temas e palavras adequadas. Só em 2001, a Marvel abandonou o Código, e desmoralizado, foi caindo no esquecimento.

Selo da CCA [Imagem: Reprodução]

Com a CCA, a corrida espacial e a bomba atômica, os quadrinhos passaram a abordar temas científicos e de avanços tecnológicos. Nesse período, surgem as ligas de heróis: a DC Comics com a Liga da Justiça em 1960, e depois a Marvel, visto o sucesso da rival, com o Quarteto Fantástico em 1961.

Também é nesse período que são criados o Homem de Ferro e o Thor, que é uma exceção de seu tempo, visto que tem uma origem muito mais mitológica.

 

Era de Bronze: meados de 60 até 1985

A partir dos anos 60, as histórias passam a ser mais elaboradas, com problemas mais complexos, que levam mais de uma edição para serem resolvidos, iniciando uma ideia de sequência. O que antes eram várias histórias por revista, agora passa a ser uma única com continuidade em outras revistas.

Em 1963, a Marvel lança a primeira edição de Vingadores. E, por mais surpreendente que pareça, quem fazia parte do grupo eram o Homem de Ferro, o Thor, o Hulk e o Homem-Formiga e a Vespa.

Eram tempos de Guerra do Vietnã e vários outros conflitos no mundo, ao mesmo tempo em que movimentos emergiam, como o dos Panteras Negras.

Nessa época, vemos Stan Lee, futuro presidente da Marvel, como o grande mentor e criador de personagens, sem produzir heróis tão fantasiosos. Ele fica reconhecido por ganhar mais espaço na editora por volta dos anos 60 e por seus heróis mais humanizados. Quando perguntei a Rodrigo Pedroso sobre Stan Lee, disse que “ele tinha boas sacadas”. O Homem-Aranha também aparece como a representação estereotipada do menino nerd que sofria bullying na escola.  

 

O que provoca esse fascínio por heróis e pela Marvel?

O mais novo filme Vingadores: Ultimato alcançou o segundo lugar na bilheteria mundial. Para se ter uma noção, essa lista abriga produções como Avatar (primeiro lugar) e Titanic (terceiro lugar), além de alguns da sequência Star Wars. No entanto, não é a primeira vez que a Marvel aparece na lista. Entre os 10 primeiros, a franquia ocupa metade dos lugares.

Posição Filme (Ano) Bilheteria (US$)
1 Avatar (2009) 2 787 965 087
2 Vingadores: Ultimato (2019) 2 614 805 870
3 Titanic (1997) 2 187 463 944
4 Star Wars: O Despertar da Força (2015) 2 068 223 624
5 Vingadores: Guerra Infinita (2018) 2 048 359 754
6 Jurassic World (2015) 1 671 713 208
7 Vingadores: Os Vingadores (2012) 1 518 812 988
8 Velozes e Furiosos 7 (2015) 1 516 045 911
9 Vingadores: Era de Ultron (2015) 1 405 403 694
10 Pantera Negra (2018) 1 346 913 161

 

Mas o que tanto atrai as pessoas? Personagens bem construídos? Cenas pós-créditos cativantes? Ou o charme do Chris Evans?

Fui atrás de alguém que pudesse explicar esse vício por heróis e pelos filmes da Marvel. Encontrei Daniel Vitorello, professor de filosofia e psicanalista graduado na Pontifícia Universidade Católica (PUC).

Daniel Vitorello, professor e psicanalista [Imagem: Arquivo pessoal]

Perguntei a Vitorello como ele enxergava esse fascínio por heróis e ele me levou a outra viagem no tempo. “O homem, desde a Antiguidade, já recorre a ‘superpoderosos’. Na mitologia, você tem os deuses, os heróis. No cristianismo, tem Deus”, explica. Aristóteles define a ideia da catarse no teatro (do grego, kátharsis, “purificação”) como uma forma de terapia educativa, onde o personagem tem que passar de uma fase boa, para uma infeliz. Dessa maneira, a plateia enfrentaria sentimentos de piedade e tristeza e conseguiria tornar suas emoções puras.

Trazida para os dias de hoje, a figura do herói se torna muito atraente, devido à sua falta de limitações e fraquezas. Comentei com o professor sobre a relação de crianças com essa imagem, ao que ele me contou que muitas vezes “a criança se sente desamparada e percebe que o pai e a mãe não são tão poderosos como ela espera, então recorre a outro, mais potente”. Assim como no crescimento e desenvolvimento, buscamos os heróis em um espectro de um “super-eu”, o eu ideal. “A imagem do herói serve muito bem como uma tela para projetarmos nele nossas expectativas, anseios, sair do cotidiano.” afirma.   

Ao relacionar com sua linha de pesquisa, aprofundou a questão do reconhecimento humano no herói. O que ocorre, segundo o professor, é que nesse jogo de espelhos com heróis e nós mesmos, acabamos liberando nossos prazeres por meio de cenas. Ele explica: “No psiquismo, não importa se você realiza suas vontades em atos, na prática, ou pela imagem. Você sonhar já é uma forma de satisfação assim como, vendo uma cena em um filme, você realiza seus desejos pela tela de cinema.”

Com isso, entende-se como o consumo da imagem criticado pela Escola de Frankfurt como forma de massificação da cultura é utilizado nos cinemas. “O que vende no cinema popular é agressividade e sexualidade/erotismo, tabus que aparecem nas telas para realização”, analisa Vitorello. Uma outra perspectiva abordada é a de Nelson Rodrigues. O pai da dramaturgia moderna brasileira concordava que o personagem do teatro serve para projetarmos nele toda a nossa maldade. Em paralelo, os próprios anti-heróis, como Deadpool, também servem como forma de identificação.

Justamente por os heróis terem perfis próprios e um histórico estruturado ao longo de tantos anos, fica claro que eles estão longe de serem perfeitos, e isso possibilita ainda mais a proximidade deles com o público. “Os heróis caem como uma luva, são o personagem perfeito”, conclui.

Algumas das mulheres principais da Marvel [Imagem: Digital Spy/Marvel Studios]

A representatividade nas HQs de heróis

Encontrei Natália Sierpinski. Ela é formada em Educomunicação pela USP e pesquisou sobre representatividade feminina em HQs, além de ser uma das autoras do blog Garotas Nerds.

Natalia Sierpinski em oficina no Núcleo de Comunicação e Educação [Imagem: Arquivo pessoal]

Perguntei sua visão de representatividade nos quadrinhos, ao que ela respondeu: “quando vamos pensar nas HQs é importante refletir sobre o momento histórico em que estavam para compreender qual era o público alvo e também como era feita a produção. Hoje, antes de mudar o consumo das HQs, mudou também a concepção do que é ser nerd”. Isso remete à Era de Bronze, em que a representatividade graças aos movimentos começou a surgir por interesse. Ela retoma que a ascensão das HQs de super heróis nos Estados Unidos esteve muito atrelada à uma ideologia de vitória da guerra, com a figura do Capitão América como um dos possíveis exemplos.

Os X-Men são considerados um dos principais grupos criados em que havia preocupação com a representatividade, durante a Era de Prata. “Eles são uns dos menos piores, mas o meu estudo mostra que ainda é muito sexista” afirma Sierpinski.

O site Graphic Policy coleta dados, por meio de curtidas do Facebook, em relação ao gênero e etnia dos leitores de HQs nos Estados Unidos. Em outubro de 2018, dos leitores assíduos, em torno de 53,42% eram mulheres e 45,21% eram homens.

Além disso, no mesmo mês, a quantidade de leitores hispânicos era em torno de 14 milhões e, de afro-americanos, 13 milhões. Logo, o estereótipo de que apenas homens brancos acompanham quadrinhos não é real e é importante que a Marvel continue investindo em representatividade do seu público.

 

 

 

T’Challa, o Pantera Negra, em cena do filme [Imagem: Reprodução]

Guerreiras de Wakanda em cena de batalha  [Imagem: Reprodução]

Entrei em contato com o professor Nobu Chinen, doutorado em Ciências da Comunicação pela USP com foco na representatividade negra nos quadrinhos, que me encaminhou um artigo seu sobre o Pantera Negra. Esse personagem foi criado em 1966, por Stan Lee e Jack Kirby, durante os movimentos que propunham o fim da segregação racial nos EUA.

O Pantera Negra, chamado T’Challa, nunca teve um verdadeiro super-poder. Ele era dotado de inteligência para criação de equipamentos tecnológicos e muita força. Além disso, ele apresenta uma relação mística com sua cultura e mora em um reino com muito vibranium, um mineral raro que permitiu um desenvolvimento surpreendente para sua nação. Dessa maneira, T’Challa se destacou de outras representações dos povos africanos até aquela época, como Tarzan. Em 1972, seis anos depois, a Marvel cria o Luke Cage, que na época tinha cabelo black power, tiara e camisa aberta no peito.

Contrastando com os quadrinhos, o filme Pantera Negra teve quase todo seu elenco e equipe de produção formados de afrodescendentes. Outra curiosidade é que o nome do personagem foi pensado antes do movimento dos Panteras Negras e por um tempo a Marvel chamou-o de Black Leopard “Leopardo Negro”, em tradução livre para não haver confusão.

 

Qual o segredo do sucesso do MCU?

Quando questionados, Celbi Pegoraro e Rodrigo Pedroso, concordaram que o investimento da Disney e da Marvel tem feito toda a diferença.  “Se você comparar com a DC, parece que está faltando algo [na DC]”, disse Pedroso. A qualidade de roteiro, efeitos especiais, fazem com que os filmes da Marvel tenham muito sucesso.

Pôster de comemoração dos dez anos da Marvel [Imagem: Marvel/Reprodução]


Celbi Pegoraro abordou o marketing e a equipe de Kevin Feige, produtor cinematográfico americano e presidente da Marvel Studios. “O cinema em geral vive um período de depressão criativa com poucas produções originais. O foco acaba sendo investir nas fórmulas testadas e nos remakes.” e cita como exemplo Star Wars e animações como Aladdin e O Rei Leão.

Pedroso também constata que “quem vê os filmes não necessariamente é fã dos quadrinhos, eles conseguiram criar uma nova linhagem de fãs, com toda a sacada de cenas pós-créditos e a ligação de todos os pontos do quebra-cabeça”.

Inclusive, os filmes atuais vêm influenciando os quadrinhos. “Eles estão relançando também as HQs que contam as histórias dos filmes atuais, lançadas inicialmente nos anos 90”, conta Pedroso. Para finalizar, Celbi diz que chegamos ao fim de um ciclo. “Temos de aguardar para ver como a Disney irá estruturar a próxima safra de seus filmes do selo Marvel”.

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