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O Homem que Viu o Infinito: tanto matemático como religioso
CINÉFILOS
23 set 2016 | Por Jornalismo Júnior

por Aline Melo
alinemartimmelo@gmail.com

“Oh, o efeito esperado. Vamos, não se sinta intimidado.
O grande conhecimento vem muitas vezes dos lugares mais humildes”
John Littlewood no filme O homem que viu o Infinito.

Você sabia que Madras é derivado de Mada-rajya, que significa “Reino dos Estúpidos”? E que foi justamente em Madras, Índia, que nasceu Srinivasa Aiyangar Ramanujan (1887–1920), um dos mais influentes gênios matemáticos do século XX? O filme O Homem que Viu o Infinito (The Man Who Knew Infinity, 2016) com realização e argumento de Matt Brown, traz a comovente história do homem que era “amigo próximo de cada número inteiro”.

Com uma atuação impecável, o ator Dev Patel, também protagonista do longa Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2009), dá nova vida ao matemático. O filme se inicia retratando sua vida de privações, em que o personagem procura publicar suas descobertas ou ao menos conseguir um emprego para, enfim, poder morar com sua esposa, Januki. Apesar de gostar mais de números do que da maioria das pessoas, ela é apresentada como a exceção à regra. Por isso, quando recorre ao famoso professor de Cambridge, Godfrey Harold Hardy, para publicar suas descobertas, apenas duas coisas lhe causam receio: deixar sua esposa para ir à Inglaterra e contrariar sua religião ao atravessar os oceanos.

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Hardy, interpretado por Jeremy Irons, é um homem cético e talentoso, que abrirá as portas do “pequeno manicômio de matemáticos” a Ramanujan. Apesar de encantado por suas fórmulas e descobertas, obriga o jovem a estudar para provar cada uma de suas novas teorias. Acusado de quebrar-lhe o espírito pelo amigo próximo Bertrand Russel, terá ainda o devido reconhecimento como o maior incentivador e parceiro de Ramanujan. G.H.Hardy viria a considerá-lo como o mais próximo de uma “associação romântica” em vida, posto que sua vida sempre fora a matemática.

Com a consciência de que fórmulas não são inventadas, mas estão por aí para serem descobertas e provadas por nós, a fim de revelar os padrões escondidos em cada coisa do mundo, como ao observar uma pintura imaginando suas cores, Ramanujan poderia ser comparado a Euler e Jacobi em seu amor pela forma. Contudo, a naturalidade única com que encontrava essas fórmulas ainda é tida como um milagre.

O filme faz um trabalho incrível justamente nesse ponto: entrelaçar dois temas impopulares e aparentemente inconciliáveis, matemática e fé. Não passam sequer cinco minutos do longa sem que a crença do protagonista seja representada ou sua intuição questionada. “Não acreditar em Deus é não acreditar em mim, porque cada expressão matemática que crio é a síntese do pensamento de Deus”. Mesmo Hardy, autoproclamado ateu, chega a colocar “Quem somos nós para questionar Ramanujan? E mais, Deus?”.

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Esses elementos dispostos dessa forma já comporiam uma bela trama, aclamada pela crítica, mas há ainda um terceiro fator que cria alguns dos conflitos mais duros e emocionantes: o roteiro não nos permite esquecer que Ramanujan era um indiano no meio de britânicos. Mais do que inveja a sua inexplicável capacidade, primeiramente, era sua cor de pele que não era aceita. Era inadmissível para os conservadores e hipócritas teóricos daquele século que um dia viesse a figurar naquelas honrosas paredes uma face escura.

Como a maioria dos filmes baseados em fatos verídicos, O Homem que Viu o Infinito faz refletir. Além disso, se encantar pela fotografia, capaz aqui de trazer aquilo de mais estético da cultura indiana. Se emocionar e se apaixonar não pelos números, mas pelo mais digno retrato da paixão desses gênios.

Assista ao trailer:

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