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O Jogo da Morte – O time vermelho nunca morrerá
ARQUIBANCADA
18 ago 2020 | Por Guilherme Caldas (guilhermecaldas@usp.br)

Em 9 de agosto de 1942, em meio à Segunda Guerra Mundial e à dominação nazista em Kiev, um time da capital ucraniana desafiou as ordens do terceiro Reich e venceu uma equipe formada por soldados alemães, sofrendo depois as terríveis consequências de seu ato de rebeldia. Exemplo do futebol como forma de resistência, exploramos os acontecimentos em torno da mítica partida que ficou conhecida como “Jogo da Morte”.

A formação do FC Start

Na madrugada de 23 de junho de 1941, a população de Kiev foi acordada pelos assustadores estrondos que se aproximavam à cidade. Os sons, que foram a princípio confundidos com trovoadas, eram os primeiros sinais da chegada dos nazistas e da Segunda Guerra Mundial à Ucrânia. 

Apesar do esforço e luta do povo ucraniano, em menos de três meses, o país, parte da União Soviética, estava tomado pelos nazistas. A vida como conheciam havia acabado. Subjugados, os cidadãos de Kiev foram logo apresentados ao terror do Terceiro Reich. Na época, oficiais nazistas prenderam milhares de pessoas e mataram, em pouco tempo, mais de 33 mil judeus residentes da cidade a partir de execuções em massa realizadas em praça pública.

A fim de instaurar um clima de normalidade em meio ao terror de sua dominação, que já durava quase um ano, os nazistas decidiram promover uma temporada de partidas de exibição entre equipes amadoras da região.

Recém-empregados numa padaria por Joseph Kordik, um amante de futebol que os incentivou a retomar o esporte, alguns ex-jogadores do Dínamo e do Lokomotiv, equipes protagonistas do futebol ucraniano antes da guerra, decidiram formar um time. Contando com o goleiro Trusevich, o atacante Kuzmenko e o jovem zagueiro Klimenko, as estrelas treinadas por Sviridovsky, nascia assim o FC Start.

O caminho até o Jogo da Morte

O campeonato realizado pelos alemães teve início em 9 de junho de 1942 e, desde o início, o FC Start foi avassalador. Mesmo numa época em que partidas cheias de gols eram comuns, os jogos da equipe ucraniana chamavam a atenção do público pelos placares elásticos, alguns com nove ou mais gols do time. Em seu livro Futebol e Guerra, o pesquisador Andy Dougan afirma: “O que o FC Start tinha contra si era o cansaço e a fome que o trabalho lhes implicava”. E, mesmo com esses problemas, o time era esmagador.

Jogadores do Jogo da Morte

O elenco do FC Start, usando camisas escuras na foto [Imagem: Reprodução]

Alçados a heróis nacionais, os jogadores do FC Start eram o orgulho de seu país que, devastado pela chegada dos nazistas, tinha no futebol uma última fagulha de patriotismo. Era natural que os alemães buscassem acabar com isso, e a melhor maneira de sufocar o nacionalismo trazido pelo futebol era criar uma equipe alemã capaz de derrotar o time que dava esse orgulho aos ucranianos.

Assim, após o fim da temporada de jogos de exibição, em que o FC Start havia se saído invencível, somando um incrível placar de 47 gols marcados contra apenas 8 sofridos, um novo time foi inscrito na competição. O próximo adversário do Start era o Flakelf.

Formado por soldados nazistas e jogadores profissionais membros do exército, o Flakelf era considerado invencível por seus “inventores” e era certo para os alemães que a equipe daria o fim necessário aos ucranianos que haviam dominado a temporada até então.

Em campo, porém, a superioridade na qual os nazistas apostaram se mostrou bem menor do que o esperado: sem grandes dificuldades, o Start ganhou a partida por 5 a 1, humilhando os “invencíveis” alemães.

Esse resultado incomodou muito os germânicos e, no dia seguinte ao jogo, diversos cartazes anunciando a revanche surgiram espalhados por Kiev. Três dias depois, no domingo às cinco da tarde, no então estádio Zenit, os times voltariam a se enfrentar.

O Jogo da Morte

Cartaz do Jogo da Morte

Cartaz do jogo [Imagem: Reprodução]

Assim como perder o segundo jogo era inadmissível para os alemães, o Start também não estava nada disposto a abrir mão da vitória. Mesmo cansados pelo pouco tempo de recuperação entre as duas partidas, os atletas ucranianos sabiam de sua qualidade e iriam com toda a força para o jogo. Para nenhum dos lados perder era uma opção.

Ao contrário da primeira partida que, realizada no meio da semana, atraiu menos pessoas, o maior público da temporada se reuniu para assistir à revanche. O clima era de tensão, com policiais armados cercando o gramado e outros com cães treinados ameaçando os torcedores a fim de manter a ordem durante o jogo. 

A tensão não se limitou ao público. Pouco antes do início da partida, no vestiário do FC Start, entrou um homem. Vestindo o uniforme da SS, braço armado do partido nazista, anunciou que seria o árbitro da partida e orientou, educadamente, os jogadores a seguirem as regras e a cumprimentarem os adversários à maneira alemã. 

Apesar da calma com que se dirigiu a eles, ficou claro para os jogadores do Start o que lhes esperava. Além dos alemães querendo a vitória, os ucranianos teriam de enfrentar também um juiz que apitaria em favor do Flakelf. Compreenderam também o que significava o cumprimento à maneira alemã: teriam de saudar os adversários com um “Heil Hitler” – cumprimento conhecido por reverenciar o líder nazista.

O vestiário ficou em polvorosa, tomado por inúmeras opiniões. Alguns queriam que os atletas do Start desistissem da partida, outros que jogassem com ainda mais força contra os alemães e, como era de se esperar, uma tensão tomou conta do vestiário. Os atletas, então, se reuniram e, ao decidirem o que fariam, não voltariam mais atrás.

Estádio do Jogo da Morte atualmente

Estádio Zenit, renomeado como Start, abandonado nos dias de hoje [Imagem: David Rose]

Guilherme Diniz é jornalista e comanda o blog Imortais do Futebol. Grande conhecedor da história do esporte, fala de jogos históricos e eventos marcantes do mundo da bola. Sobre a partida entre Start e Flakelf, comenta que “os alemães não eram favoritos, pois o Start tinha muito mais time do que eles. Mas as circunstâncias da partida, como um árbitro da SS, apontavam uma pressão muito grande que dificilmente os ucranianos superariam”. E assim aconteceu.

Pouco antes das cinco da tarde, subiram ao campo os 11 jogadores do Start, vestindo camisas vermelhas, calções brancos e meias vermelhas, e seu goleiro Trusevich, com uma camisa listrada em vermelho e preto.

Logo depois deles, subiram ao campo os jogadores do Flakelf, com seu tradicional uniforme branco. Com os dois times alinhados de frente para a tribuna em que autoridades nazistas assistiam ao jogo, os atletas do Flakelf ergueram seu braço direito e saudaram “Heil Hitler”. 

A expectativa sobre o que os jogadores do Start fariam em seguida era enorme, ainda que a torcida não soubesse da orientação dada pelo árbitro no vestiário. Assim, após um momento de silêncio, os jogadores ucranianos ergueram o braço direito mas, ao contrário do que sugeria o movimento, colocaram a mão no peito e gritaram  “FizCultHurra!”.

Sua palavra de ordem representa a junção do termo Fizcultur, que quer dizer cuidado com o corpo e a expressão “hurra”, significando “vida longa ao esporte”, dando à disputa esportiva um sentido muito mais nobre do que apenas o resultado.

E nesse clima de tensão foi dado o pontapé inicial.

O Start entrou escalado com Trusevich no gol, Timofeyev e Klimenko como zagueiros; Tyutchev e Melnik como os dois volantes; Nas pontas, Goncharenko e Korotkykh, ligando-se aos pontas-de-lança Makhinya e Balakin, com Sukharev no meio e Kuzmenko como centroavante. A formação normalmente era destrutiva para os adversários, mas o cenário era pouco favorável aos soviéticos no começo do jogo.

Visado pelos alemães em todas as jogadas, o goleiro Trusevich  sofreu uma falta que, mesmo o tendo deixado inconsciente por alguns minutos, foi ignorada pelo juiz logo no início da partida. A violência dos alemães era frequente por todo o campo. Chegando  próximo à área, os ucranianos eram derrubados sem que o árbitro sequer olhasse para as claras faltas que os impediam de jogar.

A solução para isso veio de Kuzmenko que, pouco a frente do meio de campo, a 30 metros da meta do Flakelf, chutou e marcou um gol quase inacreditável. Com a confusão causada pelo inesperado gol do FC Start, os alemães ficaram desnorteados em campo e, em pouco tempo, o ponta Goncharenko fez mais dois gols. Quando o juíz apitou o fim do primeiro tempo, o Start vencia por 3 a 1.

O clima de alegria no vestiário do FC Start logo acabou quando, sem que esperassem, um outro agente da SS entrou no vestiário e, depois de elogiar o desempenho da equipe, orientou os jogadores do Start a tomarem cuidado e ponderarem sobre as consequências daquele resultado. Era natural que os ucranianos se assustassem.

A segunda etapa, ainda que menos empolgante, teve dois gols de cada time, completando o placar de 5 a 3 para o FC Start. Mas o placar poderia ser ainda mais elástico: quando o zagueiro Klimenko, depois de passar por toda a zaga e pelo goleiro do Flakelf, parou a bola em cima da linha e deixou de fazer o sexto gol de propósito, o juiz decidiu terminar a partida antes dos 90 minutos. Continuar o jogo só significaria mais humilhações aos alemães.

O resultado depois do resultado

Quando deixaram o campo do estádio Zenit, os jogadores do FC Start não estavam comemorando. Ao contrário, tinham razões suficientes para crer numa resposta severa e imediata dos alemães. 

O que ocorreu, porém, foi diferente. Os jogadores voltaram a trabalhar na padaria e, para o domingo seguinte, havia sido marcado um jogo contra o Rukh, de quem haviam ganhado por 7 a 0 no início do campeonato e que insistia por uma revanche. Quando esta ocorreu, o resultado foi devastador para o Rukh: 8 a 0 para o Start.

A derrota despertou a ira do técnico Georgi Shvetsov que, indignado, recorreu às autoridades nazistas exigindo que medidas fossem tomadas. Como comenta Guilherme Diniz, “a consequência foi a prisão de alguns jogadores do Start muito por causa do técnico do Rukh, que foi até a Gestapo dizer que os ucranianos eram agentes da NKVD, a precursora da KGB, polícia secreta soviética”.

Pouco tempo depois, agentes da Gestapo foram à padaria e, usando a lista de escalados para o jogo contra o Flakelf, levaram presos todos os jogadores e o treinador Sviridovsky. 

O ponta de lança Nikolai Korotkykh, porém, chegando ao comando da Gestapo, recebeu uma sentença quase imediata de morte. Sabidamente membro da NKVD, foi afastado dos demais e, depois de vinte dias de tortura, o jogador morreu na sede da polícia alemã.

Sem contarem nada, depois de 22 dias de tortura na sede da Gestapo, os jogadores do Start foram enviados ao campo de concentração de Siretz, na periferia de Kiev, onde foram divididos em grupos de três.

O ponta Goncharenko e o treinador Sviridovsky conseguiram escapar de Siretz e ficaram escondidos em Kiev até o fim da dominação nazista. Enquanto isso, outros jogadores do time conseguiram sobreviver no campo até a retomada de Kiev pelos soviéticos.

No campo de extermínio, porém, poucos dias após a chegada, o grupo de homens em que três dos jogadores do Start estavam foi enfileirado e, numa sessão de fuzilamento, um a cada três homens foi alvejado. Assim, Kuzmenko e Klimenko foram golpeados e mortos.

No mesmo grupo, estava o goleiro Trusevich, vestindo a camisa listrada em preto e vermelho que com orgulho vestiu na partida contra o Flakelf. Em algum momento, ele foi o terceiro homem e, depois de golpeado, sabendo o que lhe esperava, gritou suas últimas palavras: “O time vermelho nunca morrerá!”.

A construção do mito sobre o jogo

Quando retomaram Kiev, os soviéticos ficaram sabendo de relatos do jogo e, a fim de fortalecer sua propaganda, divulgaram de maneira romanceada a história do FC Start. Assim nasceu a própria expressão “jogo da morte”, cunhada pelo jornalista soviético Lev Kassil.

Guilherme Diniz comenta que “o triunfo do Start é até hoje lembrado pelos ucranianos em monumentos, livros e pelo povo, pois aqueles jogadores conseguiram vencer os alemães sem disparar um tiro sequer. Apenas jogando futebol” e pontua ainda que, como diz o grito “FizCultHurra” entoado pelos jogadores do Start, “a vitória pelo esporte vale mais que qualquer coisa.”.

Monumento em lembrança aos guerreiros do Jogo da Morte

Monumento em homenagem ao FC Start [Imagem: Reprodução]

Símbolo dessa vitória, um monumento celebra a história desse time que venceu, mesmo que por 90 minutos, o sombrio ideal nazista. A estátua, que retrata um jogador de futebol com a bola em um dos pés, e uma águia, representação do nazismo, sendo pisada pelo outro, fica em frente ao estádio palco dessa partida que, antes Zenit, passou a se chamar Start em homenagem ao time.

Histórias como essa, em que as quatro linhas servem quase como campo de batalha e a bola como instrumento de resistência, mostram, até para os que insistem em não acreditar, que, como diz a frase do histórico treinador inglês Bill Shankly, “o futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais do que isso”.

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