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Em O Melhor da Juventude cabem vidas inteiras
CINÉFILOS
09 set 2019 | Por Isabel Teles (isabel.teles@usp.br)

“Tudo o que existe é belo”, escreve Nicola Carati (Luigi Lo Cascio) em um cartão postal enviado da Noruega para a família em 1966. Naquele verão, após as provas finais da faculdade, ele, seu irmão Matteo (Alessio Boni) e os amigos Carlo (Fabrizio Gifuni) e Berto (Giovanni Scifoni) decidem partir de carro de Roma em direção ao círculo polar ártico.

Os quatro são fruto da geração do pós-guerra, criados com a expectativa de construir um futuro melhor para a Itália. Ao final da prova de medicina de Nicola o professor adverte: “Saiam enquanto é tempo, o país ainda será destruído.” Sem refletir muito sobre o assunto, os amigos iniciam a viagem. 

Os acontecimentos posteriores a essa decisão, que modificam completamente o destino dos irmãos Carati, são retratados de forma sensível e instigante ao longo das seis horas e seis minutos de O Melhor da Juventude (La Meglio Gioventù, 2003). O filme de Marco Tullio Giordana, costumeiramente exibido em duas partes, acompanha não apenas os desdobramentos pessoais e a maturidade dos protagonistas, mas a história da Itália, abordando questões como o desempenho da seleção de futebol ao longo das Copas do Mundo e a política envolvendo a máfia na Sicília. 

Premiado em festivais como Cannes e Globo de Ouro, o trabalho de Giordanna impressiona pela sensibilidade com que aborda os relacionamentos humanos, desde amizades de longa data, até conflitos familiares. A duração estendida e pouco convencional do filme permite que seja criada uma identificação entre os personagens e o espectador, que, inevitavelmente, se vê retratado em determinadas situações, sobretudo aquelas envolvendo a dinâmica afetiva da família Carati.

Em um primeiro momento, tem-se a impressão de que a história é sobre a disputa entre Nicola e Matteo pelo afeto de Giorgia (Jasmine Trinca), uma jovem esquizofrênica que os irmãos tentam salvar de um manicômio nos primeiros dias de sua viagem rumo ao ártico. Enquanto Nicola tenta aplicar sua psicologia de estudante de medicina para lidar com a garota, Matteo age impacientemente e se esforça para não assustá-la. Nesta relação que parece trivial, já estão marcadas as características de cada um dos irmãos, responsáveis por moldar seus destinos.

Após a súbita partida de Giorgia, Matteo decide retornar à Roma e se alistar no exército e Nicola segue os planos originais, com o objetivo de encontrar Carlo e Berto, o que não se concretiza. Os quatro amigos finalmente tem o seu primeiro reencontro, em novembro de 1966, trabalhando como voluntários para a recuperação da cidade de Florença, atingida por fortes enchentes.  

Lá, Nicola conhece Giulia (Sonia Bergamasco), uma estudante de matemática e membro das Guardas Vermelhas, com quem se muda para Turim, onde acontece o segundo encontro entre os amigos em 1968. Neste ano, a Itália sente os impactos do movimento estudantil de 1968, iniciado na França, marcado por manifestações populares e forte repressão policial. Pela primeira vez, os irmãos se veem em conflito explícito, assumindo posições completamente opostas no espectro político: enquanto Nicola defende as reivindicações estudantis, Matteo integra a força chamada para contê-lo. 

O ativismo de Giulia se torna cada vez mais radical  [Foto: Divulgacão]

A partir daí, e ao longo dos anos, a diferença entre ambos se intensifica. Nicola e Matteo voltam a se encontrar esporadicamente, com interações marcadas por um certo desconforto remanescente do dia em que se despediram de Giorgia. Os pais, irmãs e amigos sofrem ao perceber o desgaste do relacionamento evidente sobretudo na postura fechada de Matteo.

O Melhor da Juventude acompanha o desenrolar dessas relações até 2003. Neste meio tempo, é impossível conter lágrimas a cada (des ou re)encontro que cerca a vida dos personagens. Ao abordar questões reais e universais e falar sobre a vida, o filme apaixona e envolve a ponto das seis horas de duração passarem despercebidas. Ao final do longa, resta apenas concordar com as impressões da carta de Nicola escrita quase 40 anos antes: tudo o que existe é mesmo belo. 

O filme ficou em cartaz em São Paulo no mês de agosto e integra a programação do Festival de Cinema Italiano. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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