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O Mistério de Henri Pick: onde a comédia e o suspense se encontram
CINÉFILOS
25 jul 2019 | Por Gabrielle Abreu e Laura Toyama (gbabredeoliveira@gmail.com e laura.toyama@usp.br)

Em uma pequena cidade da Bretanha, a jovem editora Daphné Despero (Alice Isaaz) encontra um tesouro na estranha biblioteca de manuscritos rejeitados da cidade e decide publicá-lo. O livro rapidamente se torna um sucesso de vendas, chamando a atenção do crítico literário, Jean-Michel Rouche (Fabrice Luchini). Jean-Michel não se convence que o autor do livro, chamado Henri Pick falecido a mais de dois anos , seja um mero pizzaiolo que nunca foi visto lendo um livro na vida. Começa aí a busca do crítico pelo que ele já considera verdade: não foi Henri Pick quem escreveu a obra. 

Com um toque de humor a cada cena, acompanhamos a evolução do caso conforme nos aproximamos das personagens que vão sendo transformadas pelo mistério que ronda o livro. Josephine (Camille Cottin), filha de Henri Pick, entra na busca pelo exato oposto: ela quer provar para Jean-Michel que seu pai é o escritor. Leitora assídua, vemos os livros conectando a vida de todos os envolvidos. O espectador, conforme a trama avança, se vê dividido entre o conforto da ilusão da família de Henri Pick (que busca, no romance descoberto, o consolo para o luto ainda recente) e a curiosidade latente do crítico de encontrar a qualquer custo uma nova evidência que comprove que ele está certo. 

A dupla Jean-Michel e Josephine trabalham juntos em busca de evidências que comprovem qual dos dois está certo. [Imagem: Copyright A2 Filmes]

O fato das conspirações de Jean-Michel irem se confirmando ao mesmo tempo em que surgem novas teorias, dão uma toada cômica e delirante ao filme. Sua relação com Josephine, embora tenha começado conturbada por conta das opiniões divergentes, vai aos poucos evoluindo para uma relação de cumplicidade e amizade conforme avançam na busca pela verdade. A investigação literária é o fio condutor do filme que torna o suspense muito mais atrativo, ainda mais pelo chefe da investigação ser um crítico literário: totalmente despreparado e motivado por questões pessoais. 

Sua busca incansável pelo verdadeiro autor do livro constrói uma crítica cômica ao mercado editorial, que se acomodou com livros medíocres. Ao perder seu emprego num conhecido programa de televisão, o crítico passa a se dedicar a uma tarefa que revive nele sua paixão pela literatura e pela leitura. O longa também tem esse apelo especial para os amantes dos livros: mostra os processos de nascimento, produção e venda de um livro e como essas etapas afetam a vida de todos os personagens envolvidos na descoberta desse romance de autoria duvidosa.

O ritmo da comédia é um diferencial muito bem elaborado pelo diretor Rémi Bezançon. A medida que as conspirações delirantes do protagonista vão se provando verdadeiras, elas se tornam o ponto central da trama. O espectador se prende à história pelo mistério, que diferente de um thriller policial comum onde quem cometeu o crime é procurado, se procura quem escreveu o livro. O mistério e a comédia se entrelaçam e dão origem a um suspense incomum e marcante.

O crítico não descansa: Jean-Michel carrega livros de literatura russa para procurar pistas do misterioso livro [Imagem: Copyright A2 films]

Além das grandes atuações de Fabrice Luchini e Camille Cottin, o lugar onde se passa a história é um personagem por si só. O isolamento da Bretanha e a pequena e desconhecida biblioteca de obras rejeitadas é um terreno fértil para o mistério que ronda a vida de Henri Pick, de sua família e seu suposto livro. O contraste entre a agitação de Paris e a cidade de origem do livro “As últimas horas de uma história de amor” é uma das razões para o sucesso do marketing que o colocou na vitrine de livrarias por toda a França.

Pode-se dizer ainda que essa divertida comédia francesa é uma sátira aos suspenses clássicos. Com um toque de Hitchcock, O Mistério de Henri Pick (Le mystère Henri Pick, 2019) cria essa grande dúvida em torno de um simples manuscrito, mas sem a tensão e a seriedade que teria um filme do renomado diretor. Os personagens seguem essa mesma linha, com a ingenuidade da editora Daphné que não engana e a ardilosidade de seu namorado Fred (Bastien Bouillon).

O filme traz para o expectador a ânsia que todo leitor convicto tem ao pegar em mãos um tesouro desconhecido: sentar ao sol e desfrutar da leitura. No final já é possível deduzir alguns “culpados”, mas a história se desenvolve para tão além do próprio livro que é impossível abandonar os personagens e o rumo que suas vidas irão tomar depois de abaladas por esse inesperado romance. O público se vê diante de um dilema: querer o alívio de se provar a verdade e manter a ilusão que alegrou o luto de uma pequena família. O filme empenhou com maestria o paradoxo proposto pelo diretor, Rémi Bezançon: “Todos corremos atrás da verdade, mas sobrevivemos graças às ilusões que criamos.”

O filme estreia nas telonas no dia 25 de julho, confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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