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O mistério de Lorde – alterego de sucesso da cantora adolescente
Escuta Aí
07 fev 2014 | Por Jornalismo Júnior

De preto dos sapatos plataforma até a jaqueta que esconde parte do seu cabelo cacheado, Lorde fecha os olhos e ergue o rosto enquanto canta que está enjoada de mandarem que ela erga as mãos. Ela continua, por cima de uma base pré-gravada: “Nós vivemos em cidades que nunca estarão nas telas”.Talvez quem ligue a televisão durante programa de David Letterman em que ela interpretou o seu single mais recente, Team, não a reconheça e ache esquisita aquela jovem de batom escuro com traços tão particulares e distantes do padrão da música pop atual — seja pela sua sonoridade, pela seus movimentos compulsivos e mãos em garras, pelo seu cabelo, ou pelas suas roupas.

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“Lorde fecha os olhos e ergue o rosto enquanto canta que está enjoada de mandarem que ela erga as mãos”. Foto: Reprodução

“Meu nome é Ella”, ela disse para a Interview Magazine. “Mas quando eu estou no palco, Lorde é um personagem. Meus amigos na verdade acham bem difícil de entender isso, me separar do personagem teatral que eles veem no palco. Mas eles estão se acostumando”. Lorde surgiu para o mundo neste ano. O nome com que batizou o alterego que ela encarna é uma referência ao mundo da aristocracia, pelo qual sempre foi fascinada, de acordo com o que contou para a Rolling Stone americana. Lorde, que completou 17 anos em novembro passado, fala na mesma entrevista que tem aulas de teatro desde os sete anos. Isso parece refletir em sua performance: cada um dos seus movimentos aparenta ser calculado e há intensidade com que encara a câmera ao fim de cada apresentação é francamente intenciona. Para a Billboard, da qual ela foi capa e que a chamou de “Rainha do Alternativo”, Lorde expôs que em um mundo ideal nunca daria entrevistas e haveria apenas uma foto dela circulando por aí. “Eu sinto que o mistério é mais interessante”, pontuou.

A música que a transformou no centro das expectativas do mundo do entretenimento foi Royals, de seu primeiro álbum, Pure Heroin, que Lorde alega ter escrito em meia hora. Na letra, ela repele a ostentação dos tigres com coleira de ouro, drogas usadas em banheiros, jatinhos e relógios de diamante — cenário facilmente encontrado no mundo das divas do pop e dos rappers. “Nós nunca seremos da realeza”, ela canta no refrão. “Isso não está no nosso sangue. Esse tipo de luxo simplesmente não é pra gente”.

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Quando está no palco, Lorde é um personagem. Seus amigos têm dificuldade em separar as duas faces da artista, “Mas eles estão se acostumando”. Foto: Reprodução

“Eu não acho que as pessoas veem as vidas das estrelas pop e sintam qualquer coisa inspiradora”, ela declarou para o jornal britânico The Guardian. Ella Yelich-O’Connor nasceu na Nova Zelândia, filha de uma poeta e de um engenheiro. Sua carreira na música começou quando um vídeo em que cantava a música Warwick Avenue, de Duffy, caiu nas mãos de Scott Maclachlan, empresário musical que havia acabado de se mudar para o país e procurava um projeto para tocar. Ella fechou contrato com a Universal, e foi oferecida a ela a oportunidade de gravar um disco com covers de músicas souls. Mas a garota recusou, queria escrever as próprias músicas — a gravadora acatou sua vontade e esperou. Ela tinha apenas 12 anos.

“Desde o começo, liricamente, as palavras delas eram incríveis. Os arranjos precisavam ser trabalhados, mas quando você está lidando com alguém de 13, 14 anos, você não está realmente com muita pressa… Eu apenas deixei ela prosseguir, e ela apenas continuou melhorando”, Maclachlan disse para a Billboard. Lorde trabalhava nas suas músicas com Joel Little, que também é seu produtor. “Compôr é algo tão estranho, porque você põe no papel coisas íntimas e vai para um estúdio com alguém que você nunca encontrou, e, no caso de Joel, que tinha duas vezes a minha idade e era de uma formação diferente”, ela contou para o jornal The Telegraph. “Mas foi uma situação estranha em que algo se encaixou. Ele era muito bom em ser perceptivo e entender o que eu faço, o qual é uma coisa meio crua, impulsiva”.

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“Compôr é algo tão estranho, porque você põe no papel coisas íntimas e vai para um estúdio com alguém que você nunca encontrou”. Foto: Reprodução

Lorde destoa, também, por suas fortes opiniões — e pela falta de pudor ao citar nomes. Ela já disparou na direção de Taylor Swift (à revista Metro, da Nova Zelândia, ela declarou: “Ela é tão perfeita e tão inalcançável, eu não acho que isso seja uma coisa boa para garotas”. Disse que foi mal compreendida, pediu desculpa e hoje as duas são amigas), David Guetta (“Ele é tão vulgar!”, ela disse na presença de um repórter do FasterLouder) e Nick Minaj, Drake e Lana Del Rey de uma tacada só (“Todos eles cantam sobre abundância — coisas que não se relacionam comigo ou com qualquer pessoa que eu conheça. É completamente irrelevante”, ela constatou para a revista Interview). Mas o que mais tem causado repercussão foi sua opinião sobre Selena Gomez e o seu hit Come & Get It. “Eu amo muito a música pop, mas sou feminista e o refrão dessa música é ‘quando você estiver pronto, venha e me pegue’. Eu estou cansada de ver mulheres sendo tratadas dessa forma”, ela afirmou para uma rádio no seu país natal.

A garota da Nova Zelândia aparece no mundo da música como uma alternativa à mesmice saída da fábrica Disney. “Eu não uso essa palavra de forma leviana… Mas eu diria que ela é legitimamente um gênio”, atestou para a Billboard Jasom Flom, presidente da Lava Records. “Nós sabemos que temos alguém que não apenas está alcançado um extraordinário sucesso comercial, mas alguém que, se manejarmos corretamente, estará por aí por um longo tempo, e será a artista da geração dela”. A música dela tem sonoridade sóbria, com batidas minimalistas (os únicos instrumentos que a acompanham no palco são uma bateria e um teclado). A temática trazida por suas letras são distantes do mundo que ela mesma denunciou em Royals. Se a letra não servir como um aviso para o mundo do entretenimento, que o sucesso da faixa o seja: Royals ficou nada menos do que nove semanas no topo da Hot 100, ranking de músicas da Billboard. O álbum Pure Heroine tem sido considerado por muitos críticos como o álbum de uma geração. “Por um longo tempo o pop tem sido considerado essa coisa risível, vergonhosa”, Lorde constatou para o The Telegraph. “Mas ele é realmente gratificante e divertido, e pode unir populações, o que eu acho que é um poder incrível. Então, eu espero estar mostrando que o pop pode ser levado a sério”.

Por Odhara Caroline Rodrigues
rodrigues.odhara@gmail.com

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