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O Pequeno Quinquin: Um Retrato Cômico da Sociedade Francesa
CINÉFILOS
03 nov 2014 | Por Jornalismo Júnior

Por Amanda Oliveira,
foliveirafamanda@gmail.com

Pedaços de um corpo são encontrados dentro de uma vaca. Esse episódio se passa na cidade de Boulogne-Sur-Mer, nordeste da França em um ambiente rural e pacato onde, no decorrer do tempo, ocorrem sucessivas mortes inexplicáveis. É a partir desse enredo que se constrói O Pequeno Quinquin, uma narrativa inicialmente produzida como uma minissérie para o canal Arte1, mas devido ao seu sucesso, acabou se estendendo às salas de cinema. No filme, o diretor Bruno Dumont nos choca inicialmente com um crime que já se torna instigante pela sua natureza e que servirá de plano de fundo para Dumont fazer um análise cômica e crítica da sociedade francesa.

pequeno quinquin o filme

O assassinato será investigado pelo capitão Van Der Weyden (Bernard Pruvost) e o Tenente Carpentier (Philippe Jore), uma dupla atrapalhada e pouco convencional de policias, sendo uma imagem caricata da autoridade vigente na cidade. Para incrementar esse enredo, cheio de peculiaridades, o diretor compõe o personagem Quinquin (Alane Delhaye), um menino que mora com seus pais e avós em uma humilde casa de Boulogne-sur-Me. O garoto se destaca por seu comportamento provocante e destemperado, porém suas travessuras carregam, em alguns momentos, um tom divertido e irônico por ridicularizar determinados costumes.

As investigações do Capitão e do Tenente em torno dos assassinato atiça a curiosidade de Quinquin que, junto com seus amigos, passa a seguir os policiais em sua bicicleta, porém é afugentado pelo capitão sempre que descoberto. No personagem também é possível perceber vestígios de uma transição do menino travesso para o adolescente enamorado. Isso se torna nítido, ao se observar a relação dele com a sua vizinha Eve (Lucy Caron). Percebe-se uma busca constante desse de atrair o olhar da menina por meio de suas brincadeiras de garoto. No entanto, no meio dessas atitudes há um forte sentimento de amor envolvido, correspondido por ela.

Eve mora com o pai e a irmã. O sonho de sua irmã (Lisa Hartmann) é se tornar uma cantora profissional. Assim em diversos momentos veremos a menina interpretando a música “Cause I knew” que carrega uma carga emocional intensa se assemelhando aos desdobramentos sofridos pela personagem na trama. Essa trilha sonora contribuiu para nos imergir ainda mais na trama.

O filme possui um ritmo lento, entretanto com um enredo minuciosamente construído. O suspense é um elemento muito presente na narrativa, na qual o diretor vai nos revelando em doses homeopáticas informações importantes, que ligam os personagens de alguma maneira, aos crimes ocorridos. A primeira vítima é a senhora Lebleu, mulher de um importante fazendeiro. Essa mantinha um relacionamento extraconjugal com um árabe negro residente da cidade. Paralelamente ao mistério, Dumont trabalhará também, com o sentimento xenofóbico francês, uma questão séria que ainda hoje permeia a Europa.

pequeno quinquin

Os árabes no filme são incansavelmente perseguidos, inclusive por Quinquin, que infernizará a vida de Mohammed (Baptiste Anquez), um menino bastante discriminado por sua nacionalidade. Esse personagem trará uma carga dramática interessante à história, pois fará com que o longa transcenda seu caráter cômico se desdobrando em  trágicos acontecimentos que revelaram um preocupante problema social.

No decorrer da trama, é apresentado um outro personagem intrigante: Dany (Jason Cirot), o tio de Quinquin. Ele possui problemas mentais e é pouco compreendido por seus familiares. A inserção de um psicótico revela um traço marcante na narrativa de Dumont, que é a construção de papéis com características opostas aos padrões impostos  pela sociedade. Um dos exemplos é Quinquin, que possui um defeito facial, e o capitão Van der Weyden, que tem constantes tiques nervosos.

Apesar de um enredo bem articulado o filme se torna pouco compreensível no desenrolar dos acontecimentos envolvendo os crimes, pois a trama, que ao início foi construída de forma gradual, ganha uma aceleração expressiva ao final. A obra de Dumont faz com que nós continuemos a pensar no filme. A partir dele fazemos uma retrospectiva de tudo aquilo que vimos. Isso não só para tentar descobrir o mistério, mas também para repensar alguns problemas abordados na trama, como o preconceito contra os estrangeiros, que não só se limita a França. Um filme que se utiliza do cômico, mas que sussurra de maneira perceptível, o seu tom crítico

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