Home Cidadania Sport Club O que a Primeira Liga representa para o futebol brasileiro?
O que a Primeira Liga representa para o futebol brasileiro?
ARQUIBANCADA
20 abr 2016 | Por Jornalismo Júnior

Por Carol Oliveira

Em 27 de janeiro, antes mesmo do início de muitos estaduais pelo Brasil, começava a disputa da Primeira Liga – ou Copa Sul-Minas-Rio, como a competição também ficou conhecida. Às 19h30 daquela noite, o Fluminense encarava o Atlético-PR pelo grupo A, no que viria a ser uma prévia da final que acontece nesta quarta-feira (20), quase dois meses depois.

Organizada pelos próprios clubes e sem a participação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a Primeira Liga uniu 12 times de cinco Estados: Rio Grande do Sul (Internacional e Grêmio), Paraná (Curitiba e Atlético-PR), Santa Catarina (Avaí, Figueirense e Criciúma), Minas (Cruzeiro, América-MG e Atlético-MG) e Rio (Fluminense e Flamengo). Paraná, Chapecoense e Joinville também fazem parte da Liga, mas não disputaram a primeira edição.

Logotipo da Primeira Liga, torneio que teve sua edição de estreia neste ano, com 12 clubes (Imagem: Divulgação)

Logotipo da Primeira Liga, torneio que teve sua edição de estreia neste ano, com 12 clubes (Imagem: Divulgação)

A decisão dos clubes de organizar uma competição de forma independente foi reflexo de alguns desejos antigos, como mudanças no calendário, reorganização dos estaduais e mais participação nas decisões que regem o futebol brasileiro.

“A CBF não privilegia os clubes. Então, ninguém melhor do que os próprios times para colocarem seus interesses à frente”, avalia o professor Ary Rocco, da Escola de Educação Física e Esportes da Universidade de São Paulo (EEFE/USP).

Bastidores

As conversas para a realização da Primeira Liga tiveram início em outubro do ano passado, à margem dos escândalos de corrupção que envolveram instituições do futebol no Brasil e no mundo. O grande espelho foi a Copa do Nordeste, que embora seja vinculada à CBF, ganhou nova vida em 2013 ao vender seus direitos de transmissão para o Esporte Interativo, e vem batendo recordes de público e renda.

Mas o que a princípio era apenas uma competição com ar de amistoso acabou ganhando cara de revolução contra a CBF e as federações estaduais. O principal palco de oposição ao torneio foi no Rio, onde a FERJ (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro) tentou barrar a participação de Flamengo e Fluminense: os clubes foram ameaçados de perder os valores referentes aos direitos de transmissão do Campeonato Carioca.

Em janeiro, pressionada pela FERJ, a CBF negou autorização para a realização do torneio e definiu como ilegal qualquer partida realizada após o dia 30. Os clubes, por sua vez, ignoraram a decisão e a competição começou sem o aval da confederação. Mas após negociações entre as partes, a entidade máxima do futebol brasileiro acabou por conceder sua permissão ao torneio, já no dia seguinte à primeira rodada. Na mesma data, a FERJ também liberou a participação dos cariocas.

Torcedores de Flamengo e Fluminense protestam contra o veto da Ferj à Liga, em janeiro deste ano (Imagem: Reprodução/YouTube)

Torcedores de Flamengo e Fluminense protestam contra o veto da FERJ à Liga, em janeiro deste ano (Imagem: Reprodução/YouTube)

Assim, a Primeira Liga passava a ser disputada em clima de aparente paz e harmonia, e nenhum desentendimento com a CBF se repetiu ao longo da competição. Ao que parece, o grande objetivo dos times não era romper de vez com as federações, mas sim, aumentar seu faturamento, sobretudo num período financeiramente difícil, preenchido por pré-temporada e estaduais fracos. “Não tem nada de briga, o problema é financeiro. Ninguém quer brigar com ninguém”, chegou a dizer no ano passado o então diretor executivo da Liga e ex-presidente do Atlético-MG, Jorge Kalil. “O que queremos é arrecadação.”

Ruptura?

Muitos mais do que uma disputa contra a CBF e em prol da democratização do futebol brasileiro, cada clube tem seus motivos para se engajar na Liga: enquanto os cariocas vêm de desentendimentos históricos com a FERJ, mineiros, paranaenses e gaúchos buscam uma segunda opção para estaduais que sobrevivem sem grandes jogos. Já em Santa Catarina, a Federação Catarinense de Futebol (FCF) não tem boas relações com a CBF há tempos, e sempre apoiou a participação dos clubes de seu Estado.

Uma tentativa de organização independente por parte dos clubes lembra muito o formato da Premier League (na Inglaterra), da Bundesliga (na Alemanha) e das estadunidenses NFL (liga de futebol americano) e NBA (liga de basquete). Mas as mudanças não foram tão fortes quanto se esperava. “A Liga ainda ficou muito presa à CBF. Essa ruptura poderia ter sido mais profunda”, analisa Rocco.

Umas das incoerências apontadas pelo pesquisador é a venda dos direitos de transmissão do torneio à Rede Globo, principal responsável pelos famigerados jogos às 22h, dos quais os torcedores e os próprios times reclamam há anos. Em 2016, TV Globo, SporTV e Premiere tiveram exclusividade na transmissão da Primeira Liga, e as cotas foram repartidas igualmente entre os 12 clubes participantes.

Assembleia Geral sobre a Copa Sul-Minas-Rio, realizada em outubro de 2015. A reunião ocorreu na sede da CBF, no Rio (Imagem: CBF)

Assembleia Geral sobre a Copa Sul-Minas-Rio, realizada em outubro de 2015. A reunião ocorreu na sede da CBF, no Rio (Imagem: CBF)

Rocco argumenta que as mudanças no futebol passam em grande parte por uma reorganização da relação entre os clubes, a CBF e as detentoras dos direitos de transmissão. Para ele, a não-participação dos paulistas na competição tem muito a ver com a relação do Corinthians com a Globo e a CBF. “O Corinthians era o time que poderia ter movimentado a entrada dos paulistas, mas não o fez. E não fez porque é privilegiado pela Globo e porque tem interesses na CBF, e por isso, não quis levar o rompimento adiante”, diz.

Gilvan Pinho Tavares, presidente do Cruzeiro e da Liga, chegou a afirmar que um time paulista solicitou sua entrada na competição, mas o fato acabou não se concretizando pois não havia datas disponíveis. O nome do interessado não foi revelado.

Ainda assim, o pesquisador avalia que a primeira edição da Liga já foi um começo para futuras melhorias. Ele é favor de um campeonato nacional independente, que substitua o Brasileirão. “Os clubes mostraram que podem gerenciar uma competição. Se eles se organizarem, mudanças podem vir.”

Para 2017, os clubes participantes da Liga discutem a entrada de mais times e levantam até mesmo a possibilidade de criar uma espécie de “Copa dos Campeões”, um torneio que uniria os vencedores da Primeira Liga, da Copa do Nordeste e da Copa Verde (da qual participam clubes do Norte e do Centro-Oeste).

Torcida

Mas enquanto clubes e federações se acertam nos bastidores, fica a pergunta: o que os torcedores acharam da primeira edição do torneio?

“Em se tratando de estadual, há muitos jogos que não têm graça. Achei a Liga uma saída para dar aquele gás no começo do ano, antes da estreia do Brasileirão e da Copa do Brasil”, disse ao Arquibancada o cruzeirense Renan Junqueira.

A média de público das 20 partidas da Primeira Liga ultrapassou os 11 mil torcedores, segundo levantamento do Globoesporte.com. Como parâmetro de comparação, os jogos do Campeonato Carioca, até agora, tiveram pouco mais de 3 mil pagantes por partida.

Torcida do Flamengo na semifinal entre os cariocas e o Atlético-PR, no último dia 23 de março. A partida aconteceu em Juiz de Fora (Imagem: Gazeta Press)

Torcida do Flamengo na semifinal entre os cariocas e o Atlético-PR, no último dia 23 de março. A partida aconteceu em Juiz de Fora (Imagem: Gazeta Press)

Dentre os torcedores ouvidos pelo Arquibancada, todos apontaram os clássicos como principal atrativo da Liga. “Prefiro mil vezes assistir a um Fluminense x Cruzeiro do que a um Fluminense x Tigres”, afirma a tricolor Maria Eduarda Bastos. Por esse mesmo motivo, o vascaíno Leandro Ferrer diz que gostaria que seu clube participasse do torneio. “Como meu time não jogava, nem liguei tanto [para os jogos da Liga]. Mas sou muito a favor de clássico”, diz.

Torcedora do finalista Atlético-PR, Claudia Muller acredita que a competição foi ganhando relevância para os atleticanos à medida que o time avançava. “É um campeonato com vários times e estamos na final. Então, acho que a importância foi conquistada, mas não estava lá desde o começo”, lembra.

O time de Claudia teve a maior média de público da competição: foram mais de 33 mil pagantes por jogo. O Grêmio, segundo colocado nesse ranking, levou pouco mais de 27 mil torcedores a suas partidas. O empate entre o tricolor gaúcho e o Internacional, que classificou o Colorado às semifinais da Primeira Liga, foi responsável pelo maior público da competição, com quase 45 mil pagantes; o mesmo jogo também foi válido pela 8ª rodada do Campeonato Gaúcho.

A segunda partida com mais pagantes foi protagonizada por Criciúma e Atlético-PR e teve público de 33 mil. Em seguida, vem o confronto entre Flamengo e Atlético-MG, com a presença de 29 mil torcedores. Ambos aconteceram ainda na fase de grupos da competição.

Para o flamenguista Pedro Luz Torres, a possibilidade de jogar com grandes equipes foi interessante, mas a Liga ainda não supera as disputas regionais. “O sentimento de derrota não se equipara a uma eliminação em momento decisivo do Campeonato Carioca. No Rio, os estaduais são de maior importância, já que na reta final, na maioria das vezes, restam os quatro mais fortes na disputa”, diz.

Contudo, na opinião de Cayo Rodrigues, torcedor do Cruzeiro, a tendência é que a competição cresça a cada ano. “Apesar das poucas datas e do menor interesse de alguns times, o campeonato trouxe para o público uma opção melhor do que os já desgastados estaduais”, diz. “Aos poucos, a Liga ficará mais forte e os clubes passarão a dar mais importância a ela.”

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COMENTÁRIOS
Gabi
Já era para esses times fazerem uma liga de verdade e parar de ser submissos a essa CBF, um exemplo de derrocada é essa seleção, nesse ritmo que se encontra é bem capaz de não ir a copa.
12 jun 2016
 
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