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O que rolou no primeiro dia do Pint of Science
Horizonte de Eventos
24 maio 2019 | Por Luana Franzão (luanafranzao@gmail.com) e Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

O Pint of Science é uma evento de divulgação científica que ocorre no mundo todo. Seu objetivo é apresentar e debater temas atuais e populares na ciência de forma descontraída, com palestras em bares, restaurantes e cafés. Neste, o evento ocorreu em 85 cidades do país, nos dias 20, 21 e 22 de maio. Apenas em São Paulo, 13 locais contaram a presença de palestrantes.

Os repórteres do Laboratório foram conferir algumas das palestras do evento, e, em seu primeiro dia, acompanharam apresentações sobre as convergências entre Sherlock Holmes e a investigação criminal e um debate sobre os limites do uso da tecnologia. Confira a cobertura abaixo!

 

De Sherlock Holmes à CSI (Por Luana Franzão)

Em plena segunda-feira a noite, o Bar da Avareza se encontrava cheio de pessoas buscando saber mais sobre um assunto que atrai muitos olhares curiosos: as ciências forenses. Esse tipo de conhecimento serviu amplamente de inspiração para obras fictícias, e foi justamente este o assunto tratado pelo primeiro palestrante da noite, Hélio Büchmuller, perito criminal que fundou a Academia Brasileira de Ciências Forenses.

Ele iniciou sua fala discutindo sobre a influência de uma figura ímpar na literatura, Sherlock Holmes. O personagem criado por Sir Arthur Conan Doyle foi a primeira representação do que poderíamos chamar hoje de cientista forense (dentro das devidas proporções) no mundo do entretenimento, aparecendo pela primeira vez no ano de 1887. Hélio falou de alguns feitos notáveis de Holmes, como, por exemplo, ter usado digitais para identificar o autor de um delito antes que isso se tornasse um procedimento real em investigações criminais:

“Existe uma vasta evidência do efeito positivo de Sherlock Holmes para a perícia e a investigação. Talvez muitos dos fundamentos do que nós fazemos hoje vieram de algumas ideias levantadas nessas histórias.”

Além de citar o lado positivo das narrativas do detetive, ele também discutiu os malefícios que provêm do método dedutivo utilizado por Sherlock ao solucionar casos, pois o personagem costuma afirmar fatos a partir de evidências frágeis, como o modo de se portar ou de falar apresentado por um suspeito. Ele disse que isso pode legitimar deduções infundadas, como ocorreu no famoso caso da jovem Amanda Knox, acusada de assassinato por um delegado da polícia italiana por sua “maneira de ser”:

“Sherlock Holmes tem uma influência positiva fantástica pro desenvolvimento da perícia, mas de certa forma deve-se tomar cuidado (…) Leiam Sherlock Holmes como ficção, como divulgação científica leiam Carl Sagan, melhor.”

Guilherme Jacques em sua fala. [Foto: Luana Franzão]

Hélio ainda trouxe uma discussão relacionada a entretenimento. Citou como exemplo a série C.S.I, na qual existe uma visão muito mais recente das ciências forenses e endossada por um volume maior de pesquisa, mas que ,ainda assim, pode trabalhar na construção de um estereótipo irreal da investigação criminal, no qual as saídas são mais fáceis e rápidas de desvendar. A simplicidade aparente da perícia nessas séries tem causado um fenômeno chamado de “efeito C.S.I”, que consiste na interferência da percepção de jurados no júri popular, em casos verídicos. Estas pessoas tendem a crer que caso a investigação real não seja tão precisa e tecnológica quanto a versão de entretenimento, ela é menos confiável, e portanto podem tomar decisões injustas baseados em expectativas irreais.

A fala seguinte foi do Guilherme Jacques, perito criminal especializado em genética forense e colaborador do Banco Nacional de Perfis Genéticos. Ele enfatizou o enorme benefício que o país pode ganhar em quesito de apuração de crimes quando há um banco de dados genéticos, facilitando a identificação das pessoas que cometeram delitos.

Além disso, explicou como funciona essa assimilação: na verdade, 99% dos dados genéticos de todos os seres humanos são iguais, e portanto apenas o 1% de diferença é interessante para a perícia. Devido a esse fato, o código genético de cada ser humano é único e composto por alguns números que identificam as singularidades individuais. Ele declarou também que para que exista um sistema de dados amplo, não é necessário cadastrar todos os membros da sociedade: somente ao cadastrar pessoas que passarem pela polícia uma vez já seria de grande eficácia, pois muitas vezes são as mesmas pessoas que comentem diferentes infrações.

Ele também explicou que, no Brasil, esse tipo de cadastramento começou no Rio Grande do Sul, o qual  recebeu computadores e um software iguais aos utilizados pelo FBI, e iniciaram um protótipo de banco de dados genéticos. Ao perceber que o sistema funcionava bem, foi estudada a possibilidade de ampliar o cadastramento para todo o país, mas houve grande resistência, principalmente da área do direito, que trouxe questões, principalmente,  sobre a privacidade. Para finalizar a palestra, Guilherme reiterou a importância da coleta de dados e apresentou alguns casos reais onde a identificação digital foi extremamente útil ou foi negligenciada e seria essencial para a resolução da investigação.

Público atento à apresentação do Hélio Buchmüller. [Foto: Luana Franzão]

Os últimos discursos da noite foram proferidos por Gabriele Hampel, perita criminal especialista em fármacos e drogas, e João Carlos, químico e perito criminal, e atual presidente da Academia Nacional de Ciências Forenses. Eles discutiram juntos sobre as drogas ilícitas e seus efeitos. João iniciou sua fala trazendo um pouco da história da relação entre as pessoas e as drogas, destacando que elas são antigas na história humana e que a guerra contra elas é um pressuposto recente, mais especificamente iniciada nos EUA durante a presidência de Richard Nixon. Ele também comentou que o órgão definidor da licitude de substâncias no Brasil é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), pois essa é considerada uma questão de saúde pública pela Constituição Nacional.

Gabrielle falou também sobre os efeitos do álcool no corpo humano e algumas curiosidades e mitos: você sabia que misturar bebidas fermentadas com destilados na verdade não faz tanta diferença assim na embriaguez? Além disso, João Carlos também falou sobre a química da Cannabis sp. e seus efeitos, além de discutir brevemente os prós e os contras da legalização da mesma, mas não deu seu parecer sobre.

Gabriele e João Carlos discutindo sobre drogas ilícitas. [Foto: Luana Franzão]

No final, eles alertaram a galera sobre os perigos da falta de legislação na questão das drogas, pois isso dá margem para falsificação das substâncias, que acabam sendo ainda mais prejudiciais à saúde devido ao acréscimo de outros químicos possivelmente tóxicos, geralmente para burlar o policiamento ou aumentar a quantidade.

Em uma conversa com Hélio e João antes do início das falas, ambos disseram que seu maior objetivo em participar do evento era difundir o conhecimento científico forense, que muitas vezes permanece dentro de uma pequena academia, mas é de interesse do público, como provado pela ampla divulgação do entretenimento voltado para o gênero. É possível dizer que, ao fim da palestra, a atenção do público para os assuntos tratados se tornou ainda maior, mas agora endossada pela realidade, o que só torna o tópico ainda mais interessante!

 

Há limites para o uso da tecnologia na humanidade? (Por Karina Tarasiuk)

Estudiosos de diferentes áreas se juntaram para falar sobre o debate ético necessário no uso tecnológico. [Foto: Karina Tarasiuk]

Estamos cada vez mais imersos no mundo tecnológico. Esta matéria, publicada no meio virtual, é prova disso. O uso da tecnologia, no entanto, está muito além de situações evidentes: o Google, por exemplo, coleta dados do usuário – sem, muitas vezes, o consenso e o conhecimento deste – por meio de algoritmos para movimentar o mercado e, com isso, lucrar. O desenvolvimento da ciência também pode auxiliar deficientes físicos e mentais a superar dificuldades cotidianas e, em alguns casos, recuperar perdas locomotoras.

Foi esse debate que suscitou o físico Jean Faber e os médicos Luiz Eugenio de Mello e Paulo Schor a realizar uma palestra referente aos limites éticos e filosóficos presentes no uso da tecnologia aplicada à humanidade. O evento ocorreu na Taverna Medieval, bar e lanchonete caracterizada pela temática medieval, como diz o nome.

“A gente nunca sabe onde a gente vai parar”, disse Jean Faber em entrevista para o Laboratório. [Foto: Karina Tarasiuk]

Jean Faber, físico, professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pesquisador da área da neuroengenharia, explicou no que consiste o transumanismo e quais são suas consequências. Com o objetivo de interagir com o público não especialista, tornou sua palestra cativante ao utilizar gifs, vídeos e referências a filmes e séries em sua apresentação.

Primeiramente, ele demonstrou exemplos da aplicação do transhumanismo, perspectiva filosófica sobre a integração entre o homem e a máquina, em bioimplantes e deficientes neuromusculares, mencionando o estímulo medular e o periférico e o uso de sensores artificiais para trazer sensibilidade a quem teve perda de movimento ou da visão.

Tal questão trouxe o debate a um ponto muito latente: a inteligência artificial e até que ponto seu uso seria benéfico à sociedade ou até mesmo ético, já que a modificação extrema do ser humano pode fazê-lo transcender sua biologia. Conclui que o assunto envolve uma discussão filosófica, contundente e profunda, pois pode interferir na definição de humanidade.

“Acho que o futuro é como a gente quiser ver, é como a gente quiser trabalhar para construí-lo., disse Luiz Eugenio de Mello em entrevista para o Laboratório. [Foto: Karina Tarasiuk]

Luiz Eugenio de Mello, médico atuante nas áreas de plasticidade e degeneração neuronal e editor do Brazilian Journal of Medical and Biological Research, distanciou-se do modelo tradicional de palestra, apresentando seus estudos e os de outros pesquisadores em forma de conversa, pois disse se sentir, dessa forma, mais confortável para fazer leigos compreenderem a ciência, fato que ajudava por estarem em um bar, onde há maior liberdade no diálogo.

O pesquisador defendeu a ideia de que somos nós que permitimos o quanto a tecnologia irá interferir nas nossas vidas: “é uma questão do quanto, é uma questão de você saber dosar o quanto você usa desse recurso para fazer sua própria vida e modificar a sociedade.” Afinal, os avanços tecnológicos só são obtidos quando a nossa estrutura social permite sua incorporação no sistema. E, quando permite, pode ser catastrófica – em casos como o das redes sociais, a tecnologia pode moldar nosso comportamento, quem nós somos.

Sua tese se assemelha ao existencialismo de Sartre, pois somos nós os responsáveis por todos esses avanços e suas consequências, tudo é resultado de questões políticas de se permitir o que pode e o que não pode ser feito. Assim, devemos sempre retomar a discussão ética, mas sem perder a análise crítica: a tecnologia é, de fato, importante para as nossas vidas, mas até que ponto?

“O quanto a gente está disposto a abrir mão da nossa autonomia em troca de uma estabilidade de resultado, de diagnóstico?”, disse Paulo Schor em entrevista para o Laboratório. [Foto: Karina Tarasiuk]

Paulo Schor, oftalmologista especializado em bioengenharia, óptica fisiológica, cirurgia refrativa e percepção visual e professor da UNIFESP,  também trouxe um modelo de apresentação semelhante ao de Luiz, com uma conversa informal. O tema debatido foi o porquê de a ciência ser importante, questão atual e relevante diante do congelamento de verbas direcionadas a essa área da educação.

Paulo refletiu sobre o papel da universidade como mediadora de pesquisa de um produto teorizado para o mercado. Além da simples pesquisa, é pertinente também a interação entre as três áreas do conhecimento – exatas, biológicas e humanas – no processo cognitivo do estudante, que precisa relacioná-las para adquirir maior aprendizado. Junto a isso está a necessidade do método científico como crítica para “não fazer Frankensteins”.

O palestrante finaliza sua discussão abordando o uso de dados pessoais para fins de mercados, como é o caso dos algoritmos utilizados pelo Google e pelo Facebook. Para Paulo, isso envolve uma ética pessoal de aceitar ou não tal recurso tecnológico, e nós devemos então utilizar a ciência para realizar uma crítica contundente à tecnologia.

No final da palestra, os pesquisadores abriram o público a perguntas, tornando o acesso à ciência ainda mais democrático.

 

Laboratório
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