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O que rolou no segundo dia do Pint of Science
Horizonte de Eventos
24 maio 2019 | Por Karina Tarasiuk ((karinatarasiuk@usp.br) e Maria Eduarda Nogueira (mariaeduardanogueira@usp.br)

Acha que ciência e cerveja não combinam? Bom, o Pint of Science vai fazer você mudar de ideia! O evento reúne cientistas e curiosos para falar sobre os mais diversos temas, apresentando o complexo de forma descontraída e simples. Neste ano, ele ocorre em 85 cidades do Brasil, e em 13 locais na cidade de São Paulo.

No segundo dia do evento, as repórteres do Laboratório foram para a Galeria 540 e o Espaço T.A.Z. Confira a cobertura!

 

Ciência para todos (Por Karina Tarasiuk)

“Eu realmente quero que as pessoas entendam sobre esses assuntos”. [Foto: Karina Tarasiuk]

Jê Américo, arquiteto e artista plástico, não se contentou apenas com sua graduação na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo. Autodidata, há 30 anos começou a estudar e ler sobre a ciência e seu funcionamento, até descobrir que essa área do conhecimento é denominada Filosofia da Ciência.

Alguns dos livros utilizados por Jê em seu aprendizado. [Foto: Karina Tarasiuk]

Em entrevista anterior à palestra, afirmou ter começado a se interessar pela ciência ao ler Uma Breve História do Tempo, do físico Stephen Hawking. A princípio, não entendeu a obra, devido à sua complexidade, mas isso não o deixou estagnado: a leitura despertou nele uma inacabável curiosidade pela área, considerada por ele “o máximo”.

Assim, ciente da dificuldade do meio acadêmico em comunicar sobre o assunto por utilizar uma linguagem muito matemática, Jê desenvolveu o programa de tornar o significado e a função da ciência disponíveis a todos, realizando a tarefa por meio de palestras. Mencionou também a ideia de levar palestras científicas ao ensino médio para gerar interesse dos jovens pelas ciências exatas.

O evento ocorreu no Espaço T.A.Z., local conhecido por saraus musicais e exposições de arte. O ambiente colaborou para o clima de informalidade da situação, tornando os espectadores participantes do debate científico.

No início, Jê contextualizou a ciência ao falar de ganhadores do prêmio Nobel de 2017 devido à pesquisa sobre buracos negros. Depois falou sobre a recente foto tirada de um buraco negro, um marco para a história da ciência.

Posteriormente, mostrou algumas equações físicas, como a da entropia, a de Pitágoras e a de motores elétricos, presentes no nosso cotidiano, apesar de não sabermos. Finalizou o tema com a famosa equação de Albert Einstein, E = mc², utilizada para criar a bomba atômica.

Jê falando sobre a importância da matemática desde as sociedades mais antigas. [Foto: Karina Tarasiuk]

Outro assunto discutido foi a matemática, um tipo de ferramenta para entender a natureza, podendo adotar, inclusive, um viés filosófico. Para muitos estudiosos, essa ciência é uma forma de linguagem especial, pois é a melhor maneira de nos relacionar com o mundo real. Sua base são os números, conceitos abstratos úteis para quaisquer situações. O estudo de padrões, por exemplo, é aplicado na arte (como a de Maurits Cornelis Escher) e na música (como a de Johann Sebastian Bach).

A matemática, como Jê explicou, permite muitos modos de olhar pra realidade e pode fazer com que a natureza trabalhe para a humanidade, mediante o aproveitamento de sua energia. Ele falou também dos números primos – números divisíveis somente por um e por eles mesmos -, que apresentam um raro caso de ausência de padrões.

Após a apresentação de conceitos físico-matemáticos, Jê explicou a história humana, com a importância da revolução agrícola e da criação da linguagem abstrata para a formação de comunidades.

Como consequência, surgiu a ciência, inaugurada nas civilizações egípcia, persa, chinesa e indiana, que ainda estava atrelada a cosmogonias – teorias sobre a criação dos povos – e mitos – verdades incontestáveis.

A civilização grega também apresentou inúmeras novidades científicas. Ao misturar filosofia com física e matemática, pensadores gregos desenvolveram o racionalismo crítico – um método de contestar e criticar a verdade. Os pré-socráticos procuraram a essência das coisas: Tales julgava ser a água, Pitágoras, os números e Demócrito, os átomos, enquanto Heráclito e Parmênides discutiam sobre o movimento das coisas ou sua ausência, respectivamente.

Sócrates foi um divisor de águas para a filosofia, considerado o homem mais sábio de Atenas justamente por duvidar de seu conhecimento. Platão, seu discípulo, escreveu sobre o mito da caverna, no qual a realidade não é apenas o que nós podemos ver, o que influenciou atuais teses físicas, como a teoria das cordas e a hipótese holográfica. Aristóteles, discípulo de Platão, por sua vez, criou a lógica e o silogismo, uma espécie de matematização da linguagem, além de teorizar um modelo astronômico, o geocentrismo – que, apesar de não ser o correto, foi importante para a evolução científica.

Com o fim do Império Romano do Ocidente e o estabelecimento da Idade Média na Europa, houve uma estagnação cultural na região durante esse período, apesar do avanço científico da civilização árabe. Somente a partir do Renascimento, com Ptolomeu, Copérnico, Tycho Brahe e Galileu, que desenvolveram gradativamente o modelo heliocêntrico, a ciência voltou a ser difundida com maior intensidade. Para finalizar a evolução histórica da física, Newton, no século 17, e Einstein, no século 20, desenvolveram equações e teorias sobre a gravidade.

No final, Jê cedeu espaço a perguntas, e o evento se tornou mais próximo de uma conversa entre amigos. [Foto: Karina Tarasiuk]

A multidisciplinaridade na oncologia e no jornalismo: por uma cobertura personalizada (Por Maria Eduarda Nogueira)

É quase impossível escrever sobre saúde sem abordar o câncer. Foi isso que o jornalista e biomédico Gabriel Alves descobriu ao cobrir jornalismo de saúde na Folha de São Paulo. Por mais que tenha tentado fugir do assunto durante sua formação em Biomedicina, Gabriel chegou à conclusão de que dificilmente poderia escapar do tema. Sendo assim, ao falar sobre uma das doenças mais temidas do milênio, ele prioriza as histórias humanas.

O jornalista diz que “em um assunto tão sério como o câncer, não deveria haver espaço para charlatanismo e achismo”. Isso porque há diversas teorias da conspiração, como aquelas que dizem que os cientistas acharam a cura para a doença, mas estão a escondendo por motivos econômicos. A ciência é coisa séria e cada pesquisa faz sua contribuição para grandes descobertas. Na biologia, são dados pequenos passos diariamente, mas às vezes, há grandes saltos, diz Gabriel.

Em seguida, continuando a discussão sobre oncologia, a biomédica Thaís Bartelli falou sobre sua jornada estudando a doença e suas relações com o microbioma, ou seja, o conjunto de microorganismos que estão em nosso corpo e nos ajudam a sobreviver. Quando começou a estudar, Thaís fez a seguinte pergunta: “Por que eu vou estudar câncer se há tantos cientistas importantes estudando?”

A biomédica Thaís Bartelli durante a palestra. [Foto: Maria Eduarda Nogueira]

Mas chegou à mesma conclusão que Gabriel: na ciência, cada pequeno passo importa. Atualmente, a biomédica estuda o papel das bactérias no combate ao câncer. Ainda há várias incertezas, mas as pesquisas continuam. Thaís tenta desmistificar a ideia negativa que se faz do microbioma, geralmente relacionando-o a infecções e outras enfermidades. Segundo seus estudos, as bactérias podem ser grandes aliadas no diagnóstico da doença.

O diagnóstico precoce e as formas de prevenção foram tema das primeiras falas do oncologista Victor Hugo Fonseca. “Tratar não é o melhor jeito de combater a doença”, enfatizou o médico. Os exames preventivos e o conhecimento dos fatores de risco são medidas importantíssimas para evitar maiores transtornos relacionados ao câncer. Por exemplo, a obesidade, considerada um fenômeno no século 21, superou o tabagismo enquanto fator de risco para o câncer.

Para Victor Hugo, o tratamento de um paciente precisa ser feito por vários profissionais. Por isso, ele é um entusiasta do tumor board, que é uma reunião interdisciplinar em que profissionais de diversas especialidades conversam sobre o caso de um paciente específico. Em simples palavras, é a formalização da “conversa de corredor” já feita diariamente pelos médicos.

O oncologista Victor Hugo Fonseca falou sobre o tumor board durante a palestra. [Foto: Maria Eduarda Nogueira]

O tumor board é vantajoso por diversos motivos. Um deles é a satisfação do paciente ao ver seu tratamento sendo levado a sério. Outra, é que os laudos ficam mais completos, devido ao aumento da acurácia dos cuidados. Além disso, essa reunião interdisciplinar também tem o potencial de diminuir o tempo de tratamento.

Mas também há desafios. Por exemplo, como decidir quais pacientes serão contemplados pelo tumor board e qual opinião levar em consideração em uma reunião com médicos de diversas idades e especialidades.

A oncologia não é uma ciência simples. Cobrir seus desdobramentos também não é. Por isso, discuti-la em conjunto com o jornalismo é essencial. Ao trazer a temática para uma rodada de conversas, o Pint of Science abordou dois temas importantes: o conhecimento científico e sua divulgação ética.

Laboratório
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