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O que rolou no terceiro dia do Pint of Science
Horizonte de Eventos
26 maio 2019 | Por Kariana Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br) e Mariana Catacci de Oliveira (mariana.catacci@usp.br)

Em seu último dia, o Pint of Science seguiu cumprindo sua missão: aproximar a ciência do público de forma descontraída e em um ambiente pouco usual para conversas do gênero. O evento ocorre, neste ano, em 85 cidades do Brasil e 13 bares da cidade de São Paulo.

Dessa vez, as repórteres do Laboratório foram para a Taverna Medieval e o Bar Lado B, em Campinas. Confira a cobertura!

 

Da imunologia à Terra Média (Por Karina Tarasiuk)

Como o nosso corpo consegue reconhecer organismos estranhos e programar nossas células para o processo de autodefesa? Quais são os seres responsáveis pelas principais infecções em seres humanos? E por que o movimento antivacina é tão perigoso para a sociedade, e não somente para o indivíduo?

Como foi criada a linguagem fictícia das obras de J. R. R. Tolkien, como O Senhor dos Anéis, O Hobbit e Silmarillion? Como as obras de Tolkien dialogam com a arqueologia, a genética e a evolução do mundo real? E quais foram as influências medievais nessas obras?

Foram essas as perguntas que motivaram Karina Bortoluci, bióloga, pós-doutora em imunologia e livre docente da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), e Reinaldo José Lopes, jornalista científico da Folha de S.Paulo e doutor em literatura inglesa, a ir ao bar e ensinar pessoas sobre assuntos, em geral, pouco discutidos. O evento ocorreu na Taverna Medieval e marcou o último dia do Pint of Science.

 

    Como nosso corpo consegue se defender sozinho?

“A ciência vive um mau momento, mas nós cientistas também temos uma responsabilidade nisso”. [Foto: Karina Tarasiuk]

Karina começou sua palestra com a frase acima, complementando: a responsabilidade dos cientistas nessa precariedade da ciência ocorre porque eles geralmente ficam apenas em laboratórios e não conseguem transmitir esse conhecimento à humanidade. Logo, aquela situação foi sua chance de mudar esse hábito e tornar acessível às pessoas um assunto tão importante: a imunologia.

Essa ciência se baseia na capacidade de o nosso corpo reconhecer infecções para atuar em sua defesa. Com a detecção de bactérias e vírus, por exemplo, nosso organismo pode combater corpos estranhos, garantindo nossa sobrevivência, como disse a pesquisadora em entrevista ao Laboratório.

O início da apresentação ocorreu de forma dinâmica: Karina mostrou imagens “estranhas” e perguntou ao público o que elas representavam. Após erros e acertos, ela disse que os organismos se tratavam de fungos, vírus, protozoários, helmintos e bactérias, todos responsáveis por doenças comuns na humanidade, porém sem o conhecimento da maioria.

Depois, ela explicou como funciona o sistema de autodefesa do nosso corpo. Algumas de suas células possuem receptores específicos, responsáveis por receber sinais que as permitem identificar os corpos estranhos. Tais sinais podem ser proteínas, açúcares, lipídios e ácidos nucleicos, todos diferentes dos nossos. A partir disso, ocorre uma ação imediata de defesa, que procura exterminar os corpos estranhos antes de sua multiplicação (a reprodução desses organismos ocorre muito rapidamente: uma bactéria, por exemplo, se reproduz a cada dez minutos).

[Foto: Karina Tarasiuk]

Após o fim da palestra, houve espaço para perguntas, entre as quais uma se destacou por sua atualidade: quais os impactos do movimento antivacina? Para Karina, esse movimento é um crime, pois suas consequências, além de individuais, são sociais, atingem a todos nós. Afinal, ao adquirir uma doença transmissível, o sujeito pode passá-la às demais pessoas, fazendo retornar infecções que haviam sido erradicadas.

A causa da descrença na eficácia das vacinas e de sua associação à ocorrência de outras doenças são as fake news, com a divulgação de informações falsas sobre as vacinas. Isso ocorre porque, segundo Karina, atualmente há excesso de informação, porém ela não é filtrada, o que pode levar a desastres sociais, exemplificados nesse movimento.

 

    A Terra Média de Tolkien não é tão fictícia quanto parece

“Espero que as pessoas se divirtam”, disse Reinaldo ao ser perguntado sobre suas expectativas com a palestra, em entrevista ao Laboratório. [Foto: Karina Tarasiuk]

O intuito da palestra de Reinaldo era, além da explicação das linguagens fictícias de Tolkien, uma tentativa de diálogo entre a obra deste e a arqueologia, a genética, a evolução e a história medieval. Assim, pretendia-se mostrar como ficções possuem embasamento científico em sua produção.

O primeiro ponto foi mencionar a formação científica do autor: Tolkien era um filólogo, ou seja, estudava o surgimento, a evolução e o desaparecimento de idiomas, junto com sua contextualização histórica e cultural. Graças a isso, o autor obteve amplo repertório para desenvolver novas línguas para suas obras e, segundo Reinaldo, os alfabetos criados possuem muito mais lógica que o nosso, já que neles há relação entre a forma das letras e seus sons, fundindo princípios da fonética e da linguística.

Para ilustrar essa racionalidade nos alfabetos científicos, Reinaldo mostrou um dos alfabetos élficos e explicou sua organização, baseada no som e na articulação da boca ao falar, concluindo: “O Tolkien criou um alfabeto muito melhor do que o que a gente tem”.

O segundo assunto foi a paleoantropologia da Terra Média e sua relação com o mundo real. Quem já leu a obra de Tolkien sabe que existem, entre outros, elfos, anões, entes, humanos e hobbits – sub-espécies de humanos. Por meio de estudos científicos, pôde-se concluir a existência, no passado, de seres semelhantes aos hobbits: pessoas da Indonésia e das Filipinas com altura entre 1 e 1,2 m. Essa diferença foi consequência de um fenômeno genético chamado “nanismo de ilhas”, no qual o isolamento das espécies, por meio da seleção natural, favoreceu os indivíduos menores. Ocorreu também o “gigantismo de ilhas”, o caso do dodô, espécie semelhante a uma pomba gigante.

Houve também um diálogo entre teoria da evolução lamarckista – na qual o indivíduo se adapta ao meio – e o caso do Gollum, ou Sméagol, criatura que ficou presa numa caverna com o Um Anel por cerca de 400 anos – de acordo com os cálculos de Reinaldo. Em consequência do seu novo habitat, Gollum obteve alterações em sua estrutura, desenvolvendo mãos e pés palmados e olhos muito grandes e emissores de bioluminescência. No entanto, há um fator diferente da teoria de Lamarck. Enquanto para o cientista eram necessárias várias gerações para ocorrerem alterações significativas na espécie, no caso de Smeagol apenas uma geração esteve envolvida.

Imagem: Reprodução

Outro assunto comentado foi a influência da história medieval nos livros. Enquanto o reino de Arnor corresponde ao Império Romano do Ocidente, o reino de Gondor foi inspirado no  Império Romano do Oriente, que sobreviveu com a ajuda de alguns povos bárbaros, como os godos e os eslavos. Estes geraram, na obra de Tolkien, os Rohirrim, cavaleiros de Rohan.

Por fim, Reinaldo explicou por que dragões não poderiam existir no mundo real. A razão não envolve nem o fato de soltarem fogo, mas sim por serem vertebrados de seis membros – quatro patas e um par de asas. Anatomicamente isso seria inviável, como se observa pela inexistência de criaturas assim.

 

Desastres Ambientais (Por Mariana Catacci de Oliveira)

No dia cinco de novembro de 2015, rompe-se a barragem de Mariana, em MG. Dezenove mortos. Enxurrada de lama. Comunidades arrasadas. Rejeitos contaminam a flora e fauna da região. A mídia se revolta, o país todo se mobiliza. Onde já se viu tamanha irresponsabilidade? Nós, como nação, não podemos deixar que isso se repita!

No dia 25 de janeiro de 2019, rompe-se a barragem de Brumadinho, MG. Mais de duzentos mortos. Enxurrada de lama, transbordam mais duas barragens. Vilarejos destruídos. Minério que arrasta tudo que vê pela frente. A mídia se revolta, o país todo se mobiliza. Como deixamos que isso acontecesse novamente?

Este foi o paralelo traçado no evento realizado pelo Pint of Science no dia 22 de maio, no bar Lado B, em Campinas (SP). O encontro, denominado Desastres Ambientais, contou com a participação de três palestrantes: Jefferson de Lima Picanço, professor do instituto de Geociências da Unicamp, Adriana Vilar de Menezes, jornalista e mestranda do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e Fábio Mendes Teixeira, fotojornalista e organizador do Coletivo UNI.

Os palestrantes do evento. [Foto: Mariana Catacci de Oliveira]

Em sua palestra, Jefferson começou pelo mais básico, definindo o que é um desastre: um acontecimento doloroso que excede a capacidade de uma comunidade de se organizar para impedi-lo e se reestruturar. Picanço ressaltou, no entanto, que os desastres são socialmente construídos, não acontecem por si só. A sociedade tolera alguns riscos, como exceder um pouquinho o limite de velocidade, pular uma fiscalização de rotina ou deixar que grupos marginalizados habitem zonas de deslizamento.

A questão é que essa tolerância com certos riscos pode gerar consequências enormes: as barragens são construídas para armazenar os rejeitos da atividade mineradora que, quando espalhados, deixam a água dos rios turva, suja, prejudicam a flora e fauna local, o abastecimento de toda uma comunidade. Além disso, eles são armazenados com água, formando uma espécie de lama que escorre violentamente em casos de rompimento, destruindo todas as estruturas que encontra. “O trabalho do cientista vai além do estudo do solo, da água, é um trabalho com toda a comunidade em luto”, afirma o professor.

Já Adriana iniciou sua fala mostrando as principais capas de grandes jornais que noticiaram o rompimento das barragens de Mariana e Brumadinho. Em 2015, a jornalista foi até o local do desastre e se surpreendeu com o que encontrou. As discrepâncias entre a zona rural e urbana da cidade eram gritantes, e a prefeitura sofria com a interrupção das atividades da Samarco, responsável pela barragem de Mariana e por 89% da arrecadação da cidade. A população não se sentia contemplada pela cobertura da mídia. Para ela, o que falta para a imprensa é a cobertura dos desastres a partir de uma perspectiva estrutural, que considere as questões políticas, econômicas e históricas, como, por exemplo, a política desenvolvimentista adotada no Brasil desde o governo de Juscelino Kubitschek, que tende a negligenciar os impactos ambientais.

E para finalizar, foram exibidas as fotos de Fábio em um grande telão. O fotojornalista acompanhou de perto a tragédia de Brumadinho junto com uma equipe de profissionais independentes, sem apoio de nenhum veículo. Criaram, então, o Coletivo UNI, “cujo objetivo é facilitar a chegada de doações para ONGs e projetos sociais e, ao mesmo tempo, gerar conteúdos digitais para conscientização”, como Fábio mesmo define.

Uma das fotos de Fábio que foram exibidas. [Foto: Mariana Catacci de Oliveira]

Não é à toa que os espectadores aplaudiram em tom de comoção ao fim do evento. A iniciativa do Pint Of Science e dos palestrantes de trazer à tona uma discussão que, a cada dia, perde evidência, unindo cientistas, a imprensa e o cidadão comum, deixou no ambiente a sensação de urgência, compaixão e, acima de tudo, coletividade.

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