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O Rei do Saibro conquista seu bicampeonato de Roland Garros
ARQUIBANCADA
10 jun 2020 | Por Matheus Nascimento (matheus1124.eca@usp.br) e Rebeca Alencar Leme (rebs.alencar@usp.br)

Gustavo Kuerten já entrava para história em 1997, quando conquistou o primeiro título das disputas individuais de Roland Garros. Apenas três anos mais tarde, a cidade luz seria mais uma vez o espaço de reinvenção do tenista brasileiro naquela final do Torneio Aberto da França (Roland Garros) em 2000.

Para a história do tênis brasileiro fica um dos jogos mais disputados da carreira de Guga, e talvez o maior entre ele e o tenista sueco Magnus Norman. O jogo da final do torneio – Norman contra Guga – foi a aposta de muitos especialistas e conhecedores fiéis de Roland Garros desde que o sorteio das chaves indicou os competidores em lados opostos dos enfrentamentos.


Roland Garros: a tradição do saibro

Fundado em 1891, o Torneio de Roland Garros, também conhecido como Aberto da França (French Open ou Internationaux de France), é um dos quatro torneios de Grand Slam – ao lado de Wimbledon, US Open e Australian Open. Esses campeonatos são as principais competições de tênis do mundo. 

Segundo o ex-tenista profissional e técnico master Domingos Venâncio, o esporte é extremamente tradicional na França, e a principal diferença entre Roland Garros e os demais campeonatos está na superfície da quadra: “O torneio de Roland Garros, em especial, é o único torneio dos quatro que é jogado em saibro. Até os anos 1960, os três outros torneios de Grand Slam eram jogados em grama e só Roland Garros era jogado em saibro”, explica.

A superfície de saibro é resultado de alterações rochosas e tem um aspecto de terra avermelhada. Dentro do esporte também é conhecida como terra batida. Suas quadras demandam um dinamismo dos jogadores completamente diferente das superfícies de grama. Além disso, a preparação física para os atletas é diferente: enquanto na grama os jogadores precisam usar de sua força e agilidade, no saibro lhes são cobrados resistência e cuidado com os movimentos.

José Nilton Dalcim, editor responsável pelo site TenisBrasil, diz que as quadras de saibro não eram tão relevantes em os outros países como na França durante as décadas de 1980 e 1990. Isso acontecia porque os tenistas americanos e australianos, por exemplo, tinham dificuldade em se adaptar à superfície. Assim, deixavam o Torneio de Roland Garros em segundo plano. Porém, no Brasil, a situação era o contrário.

“Obviamente para os brasileiros o saibro têm uma importância maior. Aqui o tênis sempre foi mais praticado sobre ele do que em outro tipo de piso, fazendo com que se criasse uma afeição maior dos praticantes por Roland Garros”, comenta o editor. Esse é um importante fator que fez o esporte ganhar relevância entre o público nacional – que tem Guga, o famoso Rei do Saibro, como seu maior ídolo.

Guga foi homenageado em 2017 na quadra oficial de Roland Garros, em comemoração aos 20 anos da sua primeira conquista do campeonato

Guga foi homenageado em 2017 na quadra oficial de Roland Garros, em comemoração aos 20 anos da sua primeira conquista do campeonato [Imagem: Paul Zimmer/Divulgação]


Guga impede a primeira conquista de Grand Slam de Magnus Norman

O ano de 2000 foi um ano em que o tenista catarinense levou cinco taças: em competições na Alemanha, Chile, Estados Unidos, Lisboa e o Roland Garros, na França. Além disso, obteve diversas boas colocações (semifinais e quartas) em Abertos da ATP Tour e do Masters Series. Para Dalcim, a campanha do torneio francês foi a mais surpreendente pois “Guga ganhou de dois jogadores dos cinco melhores do mundo – Norman e Kafelnikov – e também de mais dois jogadores que estavam no top 20 do mundo – Lapentti (11) e Ferrero (16)”.

Os primeiros duelos da competição foram jogos em que Guga demonstrou controle total. Primeiro venceu o sueco Andreas Vinceguerra por três sets a zero, parciais 6-0, 6-0 e 6-3. Em seguida, enfrentou o argentino Charpentier. Mais uma vez em sets diretos, com o primeiro game indo para o tie-break – 7-6 (7-5) – e os outros dois vencidos em parcial 6-2.

Ainda nas qualificatórias, o tenista brasileiro teve a sua primeira disputa complicada, quando enfrentou o americano Michael Chang. Foi o primeiro jogo em que se precisou realizar quatro sets e Guga venceu por três sets a um, com parciais 6-3, 6-7 (9-11), 6-1 e 6-4. No jogo das oitavas ele enfrentou outro grande tenista, o equatoriano Nicolás Lapentti. Uma partida de parciais 6-3, 6-4 e o último set no tie-break por 7-6 (7-4). Vitória essa que levou Guga ao confronto com o russo Kafelnikov nas quartas de final.

José Nilton comenta sobre esse confronto: “Foi um dos jogos mais difíceis [o das quartas]. Certamente, deu confiança para o Guga na disputa do restante da competição”. Perdendo dois sets seguidos, Kuerten reverteu o resultado somente na disputa do quarto e quinto set. Terminou o jogo com o resultado a favor de três sets a dois – parciais 6-3, 6-3, 6-4, 6-4 e 6-2.

“Também tivemos um belo confronto na semifinal, quando ele encarou o fortíssimo espanhol Juan Carlos Ferrero. Mais tarde ele viria a ser número 1 do mundo (em 2000 ele era número 16). Um jogo acirrado, nas mesmas circunstâncias do anterior”, cita José em sua análise da semifinal, vencida por Guga também pelo resultado de três sets a dois. Com parciais 7-5, 6-4, 6-2, 6-4 e 6-3, Guga mais uma vez venceu surpreendentemente um adversário – com a mesma reviravolta no quarto set – que de 4-2 a favor de Ferrero foi a 6-4 a favor de Guga.

Com todos esses fatores decisivos nas partidas de Roland Garros 2000, José Nilton conclui que: “a vitória de Guga em 1997 não facilitou em nada a disputa de 2000, mas foi a partir dela que ele sempre passou a ser considerado um grande concorrente ao título. Foi uma trajetória difícil, pois ele encarou pelo menos uns três ou quatro jogadores especialistas no saibro”.

A final contra o sueco Norman – como todos esperavam – foi espetacular. O especialista tem uma convicção sobre a importância desse título para a carreira de Guga quando afirma: “Após a conquista do bicampeonato ele chega ainda mais forte para o restante da temporada, refletindo até mesmo nas suas conquistas de 2001”.

Os quatro últimos superadversários de Guga no torneio.

Os quatro últimos superadversários de Guga no torneio. Na sequência: o finalista Norman, o semifinalista Juan Carlos Ferrero, Eugveni Kafelnikov e Nicolás Lapentti [Imagem 1: AFP Photo François Guillot, Imagens 2 e 3: Henri Szwarc / Bangarts, Imagem 4: AFP Photo François Guillot – © Getty Images]


Magnus Norman: um atleta tradicional e cirúrgico

Sempre entre os favoritos de diversas competições naquele ano, Magnus Norman é um expressivo nome do tênis sueco, assim como o brasileiro Gustavo Kuerten é para o tênis brasileiro. Até os dias atuais, continua sendo o último sueco a conquistar uma competição de tênis: a Copa Davis de 1998.

As finais mais significativas de sua carreira foram disputadas exatamente no ano 2000. Elas foram essa do Torneio de Roland Garros – pelo Grand Slam – e também a vitória sobre Kuerten no Aberto da Itália, em Roma – pela disputa do Masters Series. “Norman era o jogador a ser batido naquele ano, principalmente no saibro de Roland Garros. Para muitos até tinha muito favoritismo”, afirma Domingos Venâncio. Ele ainda o caracterizou como um jogador frio, que tinha a ciência que Roland Garros seria uma das conquistas essenciais no ano. Magnus sabia que a vitória o alavancaria no ranking da ATP (Associação de Tenistas Profissionais) e talvez o fizesse chegar ao tão desejado posto de número 1 do mundo.

O resgate da temporada do sueco em 2000 é a confirmação de que aquele ano não seria nada fácil para Guga. Foram sessenta vitórias e um total de cinco troféus só neste mesmo ano: o já citado Aberto da Itália, o Aberto da Nova Zelândia, o Aberto da Suécia, o Aberto de Long Island, nos EUA, e o Aberto de Shanghai, na China. Um rendimento espetacular comparado aos dos seus anos anteriores, como comenta Domingos: “O Norman era um grande jogador. Mas a pressão existia para os dois lados [se referindo também a Guga], o que era muito normal em jogos de torneios desse nível”.

Essa ótima trajetória em que vinham os dois competidores da final do torneio é o ponto central que transformou esse Roland Garros no título da virada profissional de Gustavo Kuerten. Apesar de Guga ter sido campeão do torneio em 1997 ele constantemente era considerado pela imprensa mundial na época como um excelente jogador em saibro, mas sempre inferiorizado como um one-slam-wonder (um jogador que brilha em um Grand Slam, mas não consegue repetir o feito).

A eficiência nos campeonatos não se restringia somente aos dois atletas, principalmente por conta das cobranças em relação ao ranking. “Magnus Norman, naquele ano, era uma ameaça direta aos outros nomes que brigavam para ser número 1 do mundo. Além de Norman, os favoritos eram Guga e o russo Marat Safin – que já havia vencido Guga em 1998”, enfatiza Domingos. A disputa, segundo o ex-tenista, foi marcante por inúmeros fatores, sendo a rivalidade entre os jogadores um dos principais: “Eles eram tenistas rivais, tanto é que essa final de Roland Garros foi a que Guga jogou mais pressionado”.

Para exemplificar o quanto essa pressão afetava os dois jogadores durante essa partida, José Nilton explica: “Norman era um jogador muito resistente no fundo de quadra, mais defensivo. Já o Guga era um jogador mais agressivo. Norman soube lidar positivamente com essa tática do adversário, e Guga – pela experiência de jogos anteriores – sabia muito bem neutralizá-lo. Na verdade, até o fim da carreira de Norman, o brasileiro conseguiu vencer sete dos dez enfrentamentos entre eles.” Essa diferença revela que as dificuldades nos jogos contra Kuerten sempre foram maiores para o sueco.

O atleta, ex-número 2 do mundo, já não se encontrava nas suas melhores condições físicas no ano de 2000. Após as disputas do Aberto da Austrália e do Aberto da França, Norman teve que interromper sua carreira, pois não tinha mais condições de competir – pelo agravamento das complicações por lesões no quadril e no joelho.


11 de junho de 2000: a conquista do bicampeonato

Há quem pense que, devido à conquista do primeiro título de Roland Garros, aquele jogo seria mais fácil para o catarinense. No entanto, Domingos acredita ter sido justamente o contrário. Ele atribui sua afirmação embasado pela pressão – já comum aos competidores do campeonato – e, principalmente, pela postura de Guga, que mudou significativamente entre seu último torneio no ano e o Aberto francês. 

“Guga era um garoto totalmente franco atirador naquele primeiro título de Roland Garros e com certeza e confiança peculiares. No segundo título, ele era o jogador que mais sofria com a pressão de garanti-lo, já era mais maduro e ao mesmo tempo pensava um pouco mais, então deixou de ser franco atirador”, compara o técnico, destacando duas visões sobre o catarinense.

Além da postura, José Nilton afirma que a técnica do brasileiro também não era mais a mesma. De 1997 a 2000, Guga demonstrou sua capacidade em quadra e sua evolução – que já era percebida por jogadores e público que acompanhavam o esporte. “Ele passou a devolver saques melhor e usar mais slices (que são aquelas bolinhas que quebram o ritmo de jogo). Com a utilização desses aprimoramentos ele conseguiu reunir muito mais ‘armas’ contra o adversário”, afirma a respeito do desenvolvimento do jogador, atribuindo-o ao acompanhamento de seu então treinador, Larri Passos. 

A disputa foi inicialmente favorável a Guga. Os dois primeiros sets foram vencidos por ele, com o placar de 6 a 2 e 6 a 3 games respectivamente, e nem a vitória do terceiro set pelo sueco por 6 a 2 foi capaz de ameaçá-lo. O placar de 7 a 6 do quarto set não deu a vitória a nenhum dos competidores e levou a disputa ao tie-break, começando, assim, as emoções finais da partida. E foi justamente a marcação de um ponto a favor de Norman – devido a uma suposta bola fora de quadra – que deixou o clima tenso e o jogo ainda mais acirrado.

Momento exato em que o árbitro de fundo de quadra indica a marcação de out (bola fora da quadra de jogo)

Momento exato em que o árbitro de fundo de quadra indica a marcação de out (bola fora da quadra de jogo) [AFP Photo Frederic Florin/ © Getty Images]

“Guga já tinha se sentido campeão. Estava com o título na mão quando o juiz desceu da cadeira e marcou uma bola a favor de Magnus Norman. Por isso ele teve que se recompor, se reconstruir e voltar melhor ainda para ganhar o jogo”, lembra Domingos, ressaltando a quebra de expectativa do jogador em relação ao resultado previsto. 

Aquele ponto deu início à uma sequência de 11 match points que cada vez mais pareciam afastar a conquista do bicampeonato para o jogador. O editor do TenisBrasil afirma que enquanto a disputa não se encerrava, a estabilidade emocional de Guga era colocada em teste. “Perder 11 match points em uma partida não é algo muito bom. Conforme você os perde, também perde a confiança. Eu acho que o fato de ter perdido tantas chances, ter ganhado e inclusive evitado o quinto set, é mais uma grande demonstração da capacidade mental que o Guga tinha”, afirma, elogiando o controle emocional do jogador. 

O prolongamento do jogo exemplifica bem uma das principais características de Magnus Norman: a persistência. Cada chance que Guga tinha para finalizar o jogo foi impedido pelo sueco, mostrando que ele se manteria resistente. Mas, foi uma bola na extremidade da linha de saque da quadra de Guga que fez com que Norman perdesse a disputa do tie-break por 8 a 6 a favor do brasileiro. Gustavo Kuerten, aos 23 anos, vencia a partida por três sets a um e tornava-se bicampeão do Torneio de Roland Garros. No final daquele mesmo ano, se consagraria o melhor jogador de tênis profissional do mundo.

O Brasil – até então acostumado a vibrar por esportes mais populares no país – parou para assistir ao jogo e comemorou a nova conquista de Guga. Domingos afirma que, Florianópolis (cidade natal do jogador) encontrava-se em festa no momento da vitória e, no Rio de Janeiro, até os letreiros iluminados da Ponte Rio-Niterói o parabenizaram. Toda a repercussão que a final daquela temporada de Roland Garros teve no país foi extremamente positiva, mostrando que o Brasil havia abraçado o jogador como um novo ídolo.

“Isso gerou um interesse a ponto de vermos brasileiros aos finais de semana reunidos em bares e restaurantes, sendo que não tinham a menor ideia do que era tênis, talvez nunca tivessem visto uma quadra de tênis na vida ou assistido às finais do Guga. Para a nossa alegria, foram muitas finais, então, domingo se tornou o dia de assistir o Guga jogar. Da mesma forma que assistiam o Senna e o Piqué nas pistas alguns anos antes”, comenta Domingos, enfatizando a importância do aniversário de 20 anos do dia em que o esporte fez o brasileiro sorrir novamente: 11 de junho de 2000. 

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