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Netflix: ‘O Rei’ – História quando convém
CINÉFILOS
08 out 2020 | Por Gustavo Costa Zanfer (gustavozanfer@usp.br)

Não fossem William Shakespeare, muita criatividade, alguns milhões de dólares e uma pitada de desserviço para os historiadores, O Rei (The King, 2019) não teria saído do papel. O diretor David Michôd atribuiu a Timothée Hal Chalamet a interpretação do lendário Henrique V – ou “Hal”, para os íntimos –,  que foi príncipe de Gales até assumir como rei da Inglaterra após as mortes de seu irmão e de seu pai, em 1413.

O conjunto de peças shakespearianas chamadas de “Henriard” serviu como apoio na tecelagem do enredo, mas Michôd optou por ser tão infiel para Shakespeare quanto foi para a realidade historiográfica.

Robert Pattinson como Luís de Valois, herdeiro do trono francês. [Imagem: Divulgação/Netflix]

“Venha até mim, cachorrão!”. Uma forma pouco medieval de provocar o inimigo no campo de batalha; mesmo a aparência dos personagens é preservada demais, pouquíssimo abatida para as condições da Europa do século 15. É fato que o público prefere um filme a um catálogo histórico e, pensando nisso, diversas adaptações foram feitas – o que desagradou críticos e principalmente historiadores.

Henrique V lança inicialmente um governo que vai na contramão dos ideais violentos de seu pai, prezando pelo diálogo da diplomacia, um choque cultural para todos os seguidores do falecido rei, cujo sonho era vencer a Guerra dos 100 Anos e tomar o trono do caricato herdeiro Luís de Valois da França, interpretado por Robert Pattinson.

Antes de assumir o trono da Inglaterra, despido do perfil de déspota, Henrique V vivia bêbado pelas ruas de Gales com seu amigo e personagem shakespeariano John Falstaff (Joel Edgerton), mas os documentos históricos atestam que Henrique jamais foi um boêmio, tampouco tinha um perfil comedido. O rei da Inglaterra, pelo contrário, era extremamente cruel e beligerante, e teria mandado queimar vivo todos os prisioneiros franceses após a vitória sobre a França.

Michôd deu luz ao clássico herdeiro que se vê obrigado a ocupar um cargo contra a sua vontade, mas que acaba fazendo um trabalho majestoso. Todo o luxo da fama, porém, nunca foi o desejo de Hal, mas sim de Thomas de Lencastre (Dean-Charles Chapman), seu irmão – colocando em evidência a persistente evocação da vaidade.

No filme, Thomas tem fortes pretensões de mostrar seu valor em batalhas totalmente forçadas e desnecessárias, o que arquiteta sua morte em Gales e convence Henrique V a tomar o trono para estabelecer a paz. Na realidade, Thomas morre 8 anos depois, na França, após a subida de seu irmão ao trono da Inglaterra.


Lily-Rose Depp na pele de Catarina de Valois. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Uma das figuras mais interessantes e subestimadas no filme talvez seja Catarina de Valois, interpretada por Lily-Rose Depp (o sobrenome é familiar?), filha de Charles VI – pai de Edward… digo, de Luís de Valois. Oferecida por seu pai para ser esposa de Henrique V após a derrocada francesa na Guerra dos 100 Anos, Catarina não se curva à realeza e adianta em centenas de anos a primeira sessão de terapia na Europa ao quase convencer a realeza de que todos os esforços empreendidos até então foram frutos de mal-entendidos, inseguranças, falta de reflexões e de descontroles emocionais (condicionantes de qualquer guerra).

Catarina parece ter sido o único sopro de consciência em todo o filme ao evidenciar a Henrique que a violência não se explica, a vitória é temporária, toda monarquia é ilegítima e que todo poder é usurpador.

O Rei está disponível para todos os assinantes da Netflix. Confira o trailer:

Capa: [Imagem: Divulgação/Netflix]

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