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O Relatório: sobre a hipocrisia da democracia estadunidense
CINÉFILOS
07 nov 2019 | Por Gabriella Sales (gabriellasm@usp.br)

Técnicas aprimoradas de tortura, como afogamento, privação de sono e enterramento. Confinamento de suspeitos perigosos que acabam não sendo culpados de nada. Uso de esconderijos secretos para manter presos políticos com o objetivo de conseguir informações secretas, em prol da proteção de uma nação.

Embora isso tudo pudesse estar se referindo às práticas de um governo ditatorial, essas foram ações realizadas por instituições de um país “historicamente democrático”. O Relatório (The Report, 2019) denuncia ações ilegais e desumanas da CIA, a agência central de inteligência americana, durante as investigações no Oriente Médio relacionadas ao combate ao terrorismo, no começo do século 21.

O filme, protagonizado por Adam Driver, conta a história de uma investigação realizada por Daniel J. Jones. A pedido da senadora Dianne Feinstein e do Senado americano, ele busca saber mais sobre as ações da CIA no Oriente Médio e o que a agência chamava de “métodos aprimorados” de investigação. O propósito do relatório, contudo, não é apenas denunciar os métodos de tortura aplicados, mas sim a sua eficácia e o jogo político por trás desse processo.

[Imagem: Reprodução]

O longa intercala cenas que denunciam e explicam o ocorrido em campo e o processo de produção do relatório em si. Apesar de ser eficiente na proposta de causar impacto e revolta em relação aos métodos aplicados pela CIA, esse propósito não é novo no cinema americano, e as denúncias em relação à tortura já são história antiga na política do país. O sucesso maior de O Relatório é questionar as relações políticas envolvidas na adoção desses métodos e, principalmente, na investigação posterior.

Daniel J. Jones passou anos num porão, decifrando os documentos da CIA, para produzir um relatório de mais de mil páginas sobre o assunto, sem saber se seria publicado ou não. Adam Driver é bem sucedido ao representar o cansaço decorrente do esforço constante, assim como as frustrações diante das questões descobertas. À medida em que a sua equipe o vai abandonando e os interesses políticos externos trazem obstáculos à continuação e publicação do relatório, o personagem mostra-se cada vez mais consumido pelo projeto e pelo seu teor, de forma que se torna quase uma obsessão. 

O objetivo maior do filme é mostrar, na verdade, as manipulações exercidas pela CIA e pelo governo para justificar a tortura e as ações militares exercidas a partir do 11 de setembro. As inúmeras questões políticas envolvidas aparecem de forma cativante ao decorrer das cenas e tornam as duas horas de roteiro intrigantes e interessantes.

Apesar de, por vezes, se prolongar demais em algumas questões mais desinteressantes, O Relatório desmascara a hipocrisia da política estadunidense ao longo do tempo, passando por inúmeras autoridades e instituições. Fica evidente uma certa inclinação em favor do partido Democrata, em alguns momentos, mas isso não impede, por exemplo, críticas em relação ao governo de Barack Obama. 

Nesse sentido, o longa amplia a rede de filmes que narram a saga antiterrorista das forças políticas americanas, que inclui produções que tanto enaltecem quanto condenam essa prática. Embora se encaixe nesse último grupo, traz uma nova perspectiva que o destaca, com boa técnica e atuação.

O longa tem estreia no dia 7 de novembro. Veja o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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