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‘O Retrato de Dorian Gray’: o preço da vida pela perfeição

A adaptação cinematográfica O Retrato de Dorian Gray é um horror crítico e atual, apesar dos 131 anos de lançamento do romance literário

CINÉFILOS
30 set 2021 | Por Eslen Brito (eslenbrito@usp.br)

O filme O Retrato de Dorian Gray (Dorian Gray, 2009) é uma adaptação cinematográfica inspirada no livro homônimo de Oscar Wilde, publicado em 1890. A obra, que escandalizou o público na época, conta a história de Dorian Gray (Ben Barnes), um jovem ingênuo que se muda para Londres a fim de administrar os bens herdados de um tio. Conforme integra-se à sociedade, se nota, pouco a pouco, a perda de inocência e as camadas de vilania que o personagem adquire. Ao trocar sua alma pela juventude eterna, toda a podridão de seu espírito é manifestada em um retrato que ele mantém escondido.

Desde o início, o longa dirigido por Oliver Parker provoca reflexões sobre a influência do social na conduta do indivíduo, a superficialidade e a hipocrisia da sociedade vitoriana. Gray é uma personificação ampliada dos maiores defeitos daquele corpo social. Para além da ética hedonista adotada, ele se satisfaz em usar pessoas e colecionar afetos descartados. Nessa lista, se encontra, inclusive, o pintor do retrato, Basil Hallward (Ben Chaplin).

Basil Hallward e a pintura de Dorian Gray. [Imagem: Reprodução/Ealing Studios]

Basil Hallward e a pintura de Dorian Gray. [Imagem: Reprodução/Ealing Studios]

Outro personagem digno de menção é Lord Henry Wotton (Colin Firth): um nobre com casamento e família em sua vida pública, imoral em sua privacidade. Na corrupção da pureza do primeiro amor e no desenvolvimento de frieza emocional, Wotton atua quase como a serpente bíblica, sussurrando a Gray todo o poder que sua beleza e riqueza lhe conferiam. Criticando a necessidade de uma vida dupla para manter a imagem pública, ele convence o jovem a ceder abertamente a uma vida libertina, insensível e autocentrada. Enquanto todos se comportam segundo suas máscaras, o protagonista decide tirá-las e viver como lhe convém.

As máscaras, porém, ganham outro significado em uma cena pontual: a única festa de aniversário celebrada por Gray em todo o filme – um baile de máscaras. O personagem celebra a vida e a juventude em uma festa em que todos dançam e se embriagam sob máscaras tangíveis.

Os simbolismos não param por aí. Logo ao chegar à mansão, Gray examina atentamente uma pintura do tio – um homem idoso e nada atraente – em destaque na sala. Quando o retrato do protagonista, jovem e belo, é exposto na mesma sala, a antítese entre os dois é evidente. O tio representa os maiores terrores do protagonista, tanto pelo envelhecimento quanto pelos maus tratos que sofreu do familiar na infância. Gray substitui a imperfeição do passado e a inexorabilidade do tempo pela perfeição estática da sua própria imagem.

A fotografia acerta na captura dos anos dourados de um Gray ainda jovem em sua vibrante vida noturna. O cinzento declínio de seu personagem é apresentado como tal, em uma Londres nublada e miserável, quando os olhares de admiração são substituídos por repulsa à conservação anti-natural de sua aparência.

Dorian Gray em um cemitério abandonado. [Imagem: Reprodução/Ealing Studios]

Dorian Gray perturbado pelo seu passado. [Imagem: Reprodução/Ealing Studios]

A maioria das atuações acompanham a avaliação positiva. Contudo, Ben Barnes, que dá vida ao protagonista, poderia ter entregado mais na expressão da crueldade e das angústias de seu personagem tão complexo. Recentemente, o próprio ator declarou que vê críticas ao seu trabalho na pele de Dorian Gray. Mesmo assim, a performance não prejudica a totalidade da obra.

O Retrato de Dorian Gray é uma adaptação cinematográfica que evoca discussões atuais, mesmo que com um enfoque diferente ao que Wilde tinha em mente na escrita original da obra. Isoladamente, o filme consegue ser tanto uma crítica social à hipocrisia e ao hedonismo desenfreado, quanto uma clássica história de horror. Por isso, ainda é válido assistir a essa obra envolvente sobre a degradação da vida pelo desejo de perfeição.

O Retrato de Dorian Gray está disponível para todos os assinantes da plataforma de streaming Amazon Prime Video. Confira aqui o trailer:

Imagem de capa: Reprodução/Ealing Studios

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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