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O som, a imagem e a mensagem de Timbuktu
CINÉFILOS
21 jan 2015 | Por Jornalismo Júnior
Por Julio Viana,
julio.soaresv@gmail.com

Uma cidade antes rica em cultura, música e paz agora é mergulhada aos poucos em um regime extremista. É essa a história do longa franco-mauritânio “Timbuktu”. Dirigido por Abderrahmane Sissako, concorre ao Oscar de melhor longa metragem estrangeiro, e foi indicado ao prêmio de melhor filme no Festival de Cannes.

timbuktu

“Timbuktu” consegue mexer conosco não só por sua história, mas também pela bela e poderosa forma como ela é contada. Temos como eixo principal a trama de Kidane (Ibrahim Ahmed aka Pino), sua mulher Satima (Toulou Kiki) e sua única filha Toya (Layla Walet Mohamed), que vivem fora da cidade, sobrevivendo do único bem que possuem: seu rebanho de oito vacas. Um dia, porém, algo dá errado e Kidane, que sempre manteve uma postura pacífica, acaba por matar um homem. As consequências disso levam a família, antes isolada da marcha impiedosa do regime fundamentalista do Jihad que domina Timbuktu (cidade localizada no centro do país africano de Malí), a ser afetada para sempre por aquilo que fizeram questão de fugir.

Em passos fluídos a história se desenrola, e aos poucos conseguimos perceber o crescente domínio inflexível do fundamentalismo islâmico sobre os habitantes da cidade. Antes, vivendo sob a religião muçulmana de forma benevolente e pacífica, os moradores agora se veem às voltas de regras rígidas impostas pela vertente extremista que acaba por lhes retirar as forças de vida e alegria.

A música é proibida em Timbuktu, mas justamente a trilha sonora é uma das responsáveis por transformar esse filme em uma obra impressionante. O som é uma das únicas formas que os resistentes encontram para expressar sua indignação e protesto. Uma das cenas mais pungentes de todo o longa é quando uma mulher leva chibatadas por estar cantando com um grupo de amigos. Depois de soltar um grito de tristeza, ela começa a cantar enquanto sofre com a dura punição, deixando claro sua resistência.

timbuktu-oscar

A fotografia bem montada também faz de “Timbuktu” uma experiência visual marcante. Cores vibrantes, paisagens contínuas e ângulos bem posicionados conseguem carregar simples gestos e momentos da carga dramática que lhes é necessária.

Demonstrações em atitudes simples, assim como a música, são as formas de resistir que os habitantes encontram. Indignados com a proibição do esporte, alguns meninos começam a imitar uma partida de futebol em uma cena simbólica em que a bola não está presente no jogo. Tristemente vemos os rapazes tocar uma bola invisível pelo campo, tentar acertar o gol para ter sua expectativa frustrada pelo goleiro que consegue capturá-la e depois disputar a posse assim que ele a lança para longe no campo. Tudo sob os inflexíveis olhos dos jihaditas, que olham e enxergam, na realidade, meninos chutando areia pelo ar.

Timbuktu filme

Um longa-metragem que veio em um momento preciso. Em meio a um dos atentados terroristas mais chocantes dos últimos anos, o ataque à revista Charlie Hebdo levantou questões sobre o islamismo, o fundamentalismo religioso e o preconceito em relação aos muçulmanos. Em “Timbuktu” podemos ver como os primeiros a serem atingidos pelo radicalismo são os próprios islâmicos. Em meio a vertentes da própria religião que se divide em graus de moderação e extremismo, aqueles que não são ortodoxos se tornam reféns daqueles que querem lhes impor, à força, regras nas quais eles não acreditam nem foram ensinados a crer. No início do filme vemos alguns dos radicais entrando armados e calçados em um lugar onde várias pessoas rezam. Assim que um dos fiéis os vê, pede para que se retirem pois desrespeitam a casa de Deus trazendo armas e sapatos para dentro dela.

Com equilíbrio, o filme nos introduz primeiro aos poucos, e depois completamente à realidade que Timbuktu é sujeita com a intromissão e instauração das regras ortodoxas. Com sua beleza visual e sonora, o diretor consegue nos conduzir até cenas mais fortes em que se retratam as formas violentas de punição e opressão utilizadas pelos invasores..

Um longa-metragem de beleza e força marcantes, com uma história igualmente impactante e necessária, “Timbuktu” nos afeta de modo profundo e permanente, marcando suas imagens, músicas e mensagem em nossos pensamentos.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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