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O terror na classe média
CINÉFILOS
07 mar 2012 | Por Jornalismo Júnior

Em maio do ano passado na riviera francesa ocorria a 64ª edição do Festival de Cannes, uma das referências mundiais em festivais de cinema, ao lado do Oscar, do Festival de Berlim e do BAFTA. Comparado ao Oscar, por exemplo, Cannes tem um perfil mais crítico e geralmente seleciona filmes de arte. Uma vitrine e tanto para novos cineastas, como a dupla brasileira Juliana Rojas e Marco Dutra. Eles representaram o Brasil com seu primeiro longa-metragem, Trabalhar Cansa (Trabalhar Cansa. 99 min. 2011.), na mostra Un Certain Regard, dedicado a filmes de diretores que estão surgindo.

Helena e Otávio são um típico casal da classe média, o que faz com que o público se familiarize com a história dos dois (Foto: Gabriel Chiarasteli)

Não é a primeira vez nem que o Brasil é selecionado, tampouco que a dupla vai aos tapetes franceses. Entre produções nacionais e co-produções com outros países, já participaram do Festival de Cannes 131 filmes brasileiros de diversas metragens. A lista começou em 1949 com Sertão, de João Martin, e engloba também obras de diretores mais conhecidos, como Eduardo Escorel, Lima Barreto, Fernando Meirelles e Glauber Rocha. Já as contribuições de Juliana Rojas e Marco Dutra foram Trabalhar Cansa e O Lençol Branco, curta-metragem que participou em 2005 da mostra Cinéfoundation.

E como é participar de Cannes? Dutra responde: “é um jeito ótimo de lançar o filme para o mundo. Já no dia da exibição tivemos críticas em diversos países. O filme já nasce com uma plateia ampla num festival como esse. E a plateia de lá é atenta, cuidadosa”.

Meses depois, em julho, o longa foi exibido pela primeira vez no Brasil, durante o Festival de Paulínia. Ganhou o Prêmio Especial do Júri. “Ele cresceu muito na exibição em Paulínia. O público entendeu o filme de outra forma e se sentiu muito próximo de todas as questões dele”, conta. São questões ligadas à classe média, crescente no Brasil atual, o profissional experiente de uma multinacional que é despedido e não consegue mais emprego ou a tentativa de construir um emprendimento familiar, por exemplo.

O longa

Trabalhar Cansa conta a história de um casal de classe média, Helena e Otávio. Ela decide enfim realizar seu sonho de abrir um mini-mercado e contrata uma babá para ficar com a filha. Pouco tempo depois ele perde o emprego que tinha em uma grande corporação. A partir desse ponto começam a acontecer eventos estranhos no mini-mercado, como uma infiltração inexplicável na parede.

A história de Rojas e Dutra começa em 1999, quando começaram a cursar Cinema na USP. Desde então os dois são amigos e quase sempre fazem curtas juntos, como O Lençol Branco, Um Ramo e As Sombras. Assim como a parceria, a opção pelo terror não é nova. A maioria dos filmes da dupla têm em comum o uso de elementos fantásticos e do terror psicológico. Segundo Dutra, além da afinidade com o gênero, essa opção se dá para potencializar os temas dos filmes.

Seguindo essa lógica, no longa o potencializador é o mini-mercado, local onde ocorre toda a catarse – e aí a comparação com O Iluminado (The Shining. 119 min. 1980.), de Stanley Kubrick, é inevitável. Dutra explica: “é uma estratégia de muitos filmes de horror abordar o personagem que se transforma dentro de um espaço específico, sem deixar claro se é mesmo apenas o espaço que o transforma (o hotel em O Iluminado é realmente assombrado ou o isolamento pura e simplesmente potencializa as loucuras da família?). Sabíamos que o mercadinho era um espaço importante e eloquente no nosso filme, e tentamos fazer o melhor para que ele e Helena tivessem uma relação em desenvolvimento. Ela transforma o espaço, mas há áreas que ela não consegue transformar. E é esse passado que a persegue e assombra”.

Mas as influências da dupla ao fazer Trabalhar Cansa não param aí. Diretamente, englobam filmes com as mesmas estratégias, como A Hora do Lobo, de Ingmar Bergman, O Bebê de Rosemary, de Roman Polansky, e Uma Mulher Diferente, de Robert Altman. Indiretamente, no entanto, elas vêm desde as animações de Walt Disney. “Disney, ao contrário do que se costuma dizer, se interessava antes de tudo pela contradição. A dubiedade dos filmes dele me ensinou muito, e quando cresci um pouco mais comecei a ver os filmes de horror propriamente ditos (de Romero a Bergman e a Hitchcock)”, relembra.

Dutra e Rojas gostam de trabalhar com atores advindos do teatro. É o caso de Naloana Lima, que faz a babá, e de Helena Albergaria, intérprete de sua homônima (Foto: Gabriel Chiarasteli)

Outro ponto que marca a parceria de Rojas e Dutra é que eles trabalham com atores vindos do teatro. É o caso de três dos quatro atores que compõem o núcleo principal do elenco de Trabalhar Cansa. Intérprete de Otávio, Marat Descartes é ator, diretor e dramaturgo. Em cinema é o mais experiente deles (já participou de cinco longas). Nos palcos, ganhou em 2007 o Prêmio Shell, o maior do teatro brasileiro, de melhor ator. Helena Albergaria, que interpreta sua homônima na trama, faz parte da Companhia do Latão e em 2006 foi indicada ao Shell de melhor atriz. Já Naloana Lima, que interpreta a babá Paula, é a estreante no cinema. Ela faz parte do grupo Clariô, de Taboão da Serra, e nos últimos anos vem despontando no meio teatral.

Por Paulo Fávari
favaripaulo@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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