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O Teste Bechdel e a representação feminina no cinema
CINÉFILOS
03 mar 2014 | Por Jornalismo Júnior

Por Thiago Quadros
thiagoquadrosm@gmail.com

Um filme deve cumprir três requisitos básicos: ele deve ter no mínimo duas mulheres, que conversem entre si, sobre algum assunto que não seja um homem. É assim que a personagem de uma das tiras de Dykes to Watch Out, da cartunista Alison Bechdel escolhe os filmes que vai assistir. Esses critérios acabaram se tornando as três regras básicas do chamado Teste Bechdel, que é referência para avaliar o sexismo e o desequilíbro de gênero no cinema.

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O diálogo de “Dykes to Watch Out” que levou a criação do Teste Bechdel

O teste é aparentemente muito simples. No entanto, segundo o site BechdelTest.com, que aplicou o teste em mais de 4000 filmes de diversos períodos e nacionalidades, apenas 56% dos filmes avaliados cumprem todos os três requisitos. Ainda, 10% dos filmes não cumpre nenhum dos requisitos, ou seja, tem menos de duas personagens femininas.

A própria Alison Bechdel não imaginaria que seu quadrinho, que segundo ela foi baseado na teoria de uma amiga, se tornaria tão influente. Diversos cinemas na Suíça estão adotando o Teste Bechdel da mesma maneira em que adotam a classificação indicativa, e colocando ao lado da sinopse dos filmes em cartaz, sua respectiva nota no teste avaliando a representação de gênero do longa.

O teste Bechdel é uma forma de avaliar universalmente a representação feminina nos cinemas. É possível obter estatísticas, e analisá-las de forma interessante, como por exemplo no gráfico abaixo, que mostra a porcentagem de filmes que passam no teste através do tempo.

No entanto, ele é realmente útil para avaliar filmes individualmente, assim como se faz na Suíça? Alguns exemplos de filmes que não passam no teste mostram que a questão não é tão simples.

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Gráfico que compara os resultados do teste em relação aos anos

Corra Lola, Corra (Lola Rennt, 1988) é um filme alemão de 1998, que mostra a personagem Lola lutando contra o tempo para conseguir 100 mil em dinheiro e evitar o assassinato de seu namorado. O filme, no entanto, é contado de uma forma não linear, mostrando três diferentes resultados possíveis para suas ações.

Lola é considerada uma das mais fortes e bem construídas mulheres do cinema. E o filme passa longe de ser sexista. Porém, em nenhum momento do filme Lola conversa com outra mulher. O filme, logo, pode ser reprovado no teste Bechdel.

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Cena do filme “Corra Lola, Corra” (Lola Rennt, 1988)

Outro caso, como o filme O Nome da Rosa (Der Name der Rose, 1986) que é reprovado em todos os quesitos do teste. A única personagem feminina do filme não tem nome. O que não é uma surpresa, já que o longa se passa em um monastério durante a Idade Média, um ambiente onde simplesmente não havia mulheres.

Exemplos em que o teste Bechdel se mostra ineficiente não faltam. Mais recentemente, o filme Gravidade (Gravity, 2013) é reprovado no teste, e em todos os quesitos. Assim como dois dos filmes da saga Harry Potter, a trilogia original de Star Wars, os três filmes de Senhor dos Anéis, e até o clássico Bonequinha de Luxo.

As estatísticas do Teste Bechdel são assustadoras, e mostram claramente como a mulher é pouco representada no cinema em geral. Até mesmo na indústria do cinema, onde a dominância masculina é inquestionável. Apenas 23% dos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pela escolha e entrega do Oscar, são mulheres. O Oscar de melhor direção só foi entregue a uma mulher, Kathryn Bigelow, após 82 anos de premiação.

No entanto, algo tão complexo quanto o sexismo e a desigualdade de gênero, que são objetos de estudo de inúmeros intelectuais no mundo todo, não pode ser avaliado através de parâmetros tão simplistas.  Individualmente, é errado considerar um filme sexista simplesmente através da ausência de um diálogo simples, ao invés de considerá-lo como uma obra completa, que possui sua própria carga de sentido e representação social.

 

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