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Observatório | Beirute pós-explosão: quais são as complicações da ajuda humanitária na capital do Líbano?
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16 ago 2020 | Por Guilherme Gama (guilhermegama@usp.br) e Rebeca Alencar (rebs.alencar@usp.br)

Terça-feira, 4 de agosto de 2020. Todas as atenções se voltaram para a região portuária de Beirute, capital do Líbano, na qual ocorreu uma explosão catastrófica que deixou como vítimas mais de 100 mortos e cerca de quatro mil feridos. Tudo indica que a tragédia foi ocasionada em um armazém local, onde eram guardadas grandes quantidades de nitrato de amônio, um tipo de fertilizante com potencial explosivo.

Até então, o apontamento mais concreto para a causa do ocorrido denuncia o governo libanês como responsável por descaso público. Foi a gota d’água para a população, que desde o ano passado encara uma grave crise financeira. Com a desvalorização da moeda local, o cenário de fome e falta de energia tornaram-se constantes. A nova explosão que sucedeu a do porto, foi a dos libaneses. Mas, dessa vez, em forma de protestos.

Considerando as renúncias governamentais imediatamente posteriores à explosão, agora, mais do que nunca, os libaneses pedem por socorro. O auxílio humanitário, por sua vez, tem sido prestado de formas variadas e de diversos lugares do mundo.

Segundo dia de protestos no Líbano, 5 dias depois da devastadora explosão em Beirute.

Segundo dia de protestos no Líbano, 5 dias depois da devastadora explosão em Beirute [Imagem: Ali Hashisho/Agência Brasil]


Politização da ajuda ao governo corrupto

“Essa explosão que ocorreu no Líbano foi algo sem precedentes, classificada como a terceira maior explosão na história do mundo”, informa Arlene Clemesha, professora de história árabe da Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Diante da proporção do acontecido – que só intensificou os desdobramentos da crise vigente – a maior preocupação, no momento, é dar o amparo necessário à população. 

Tal objetivo tem sido administrado principalmente por organizações não governamentais (ONGs) locais e pela Organização das Nações Unidas (ONU), responsáveis por distribuir os recursos recebidos. Clemesha diz que a sociedade civil libanesa conta com várias organizações próprias de ajuda humanitária competentes para suprir a demanda, sendo talvez até mais do que as autoridades oficiais do país.

Além da rede de suporte interna, o apoio internacional também tem contribuído com a causa. Países como República Tcheca, Espanha, China, Rússia e muitos outros têm se solidarizado. Porém, Reginaldo Nasser, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) revela que esse apoio requer algumas condições. “Como diz o neoliberal Milton Friedman, ‘não existe almoço de graça’. Então, também não existe ajuda humanitária de graça”, exemplifica.

As condições às quais Reginaldo se refere são interesses secundários de grandes potências disfarçados de ajuda humanitária. Segundo ele, nenhuma delas age em prol da humanidade, mas faz da situação um pretexto para projetos políticos próprios. Seguindo a mesma linha, Arlene dá como exemplo Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, que após a explosão entrou em contato com o então o ex-presidente do Líbano, Saad Hariri, oferecendo-lhe ajuda. 

Protestos em meio à renúncia de Saad Hariri, ao final de outubro de 2019

Protestos em meio à renúncia de Saad Hariri, ao final de outubro de 2019 [Imagem: Ali Hashisho/Agência Brasil]

Hariri havia acabado de renunciar ao cargo por pressão dos cidadãos, que se manifestaram arduamente nas ruas. “Que condições esse presidente, que não está no governo, teria de distribuir ajuda?”, questiona a professora. “Não se trata disso [ajuda humanitária] numa ligação como essa, trata-se de favorecer aquele que é seu aliado”.

Contudo, a certeza em garantir que os recursos mobilizados não serão desviados para a corrupção também é uma questão preocupante, e isso se deve à má gestão e aos indícios de corrupção das autoridades oficiais. Clemesha afirma que, no Líbano, o fato do governo ser muito fragmentado, com grupos internos que disputam o poder entre si, torna o problema mais complexo. 

Consequência dessa divisão é a eventual priorização de um grupo em específico. Ela alerta que esse é um risco que todos os sistemas políticos correm e há de se tomar providências para que os prejuízos desse contexto sejam os menores possíveis. “O problema não é exclusivamente interno do Líbano, mas na relação entre quem está ajudando e seus interesses”, comenta.


Doação do Brasil pró-Israel ao Líbano

Entre as participações internacionais de amparo humanitário, o Brasil, através de uma viagem da comitiva brasileira na quarta-feira (12) a Beirute, doou cerca de seis mil toneladas de alimentos e medicamentos ao Líbano, trazendo complicações. Em nota, o governo brasileiro esclarece que o ex-presidente, Michel Temer, chefiou a missão a convite do presidente, Jair Bolsonaro, que por sua vez, manterá encontros com as lideranças políticas do país. 

Comitiva brasileira chefiada pelo ex-presidente, Michel Temer, no envio de alimentos ao Líbano

Comitiva brasileira chefiada pelo ex-presidente, Michel Temer, no envio de alimentos ao Líbano [Imagem: Agência Brasil]

Para muitos, a posição de Bolsonaro parente ao Líbano soou contraditória, devido ao forte apoio do presidente ao governo israelense, que está há anos em conflito com o governo libanês pela questão israelo-palestino. Já para Clemesha, a “reaproximação do Brasil com o Líbano, fruto do contexto atual, não implica em uma mudança de postura em relação à questão”. 

Historicamente, o Brasil adotou uma postura equidistante frente ao conflito político entre Israel e Palestina, em concordância com as leis internacionais. Dessa forma, ainda que mantivesse uma relação com Israel, apoiava o direito à autonomia e independência do Estado palestino, segundo resoluções da ONU. Mas, pela primeira vez desde a ditadura militar, o Brasil, com Bolsonaro, passou a declarar abertamente apoio às medidas de Israel, contrárias às leis internacionais, explica a professora.

 “O Brasil abandonou a defesa dos direitos palestinos e realizou, assim, uma guinada pró-israelense muito forte. Porém, ao se aproximar agora do Líbano, não abandona sua guinada, nem retoma a defesa por justiça internacional”, completa.

À esquerda, Jair Bolsonaro, e ao seu lado, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, em março de 2019

À esquerda, Jair Bolsonaro, e ao seu lado, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, em março de 2019 [Imagem: Alan Santos/Agência Brasil]


Ajuda sem dar as mãos

Além do enfrentamento da tragédia e da crise política e econômica do Estado libanês, o país luta junto ao mundo também contra a pandemia do novo coronavírus. As medidas sanitárias promovidas pelo governo do Líbano apresentaram certo sucesso na contenção da propagação do vírus: no dia 21 de abril, um relatório do Ministério da Saúde do país não indicou nenhum infectado nas últimas 24 horas, primeira vez em dois meses desde o início da pandemia. Entretanto, após a explosão, o país bateu um recorde de infecções com 255 novos casos de Covid-19 em único dia. 

A crise humanitária se intensificou com o acolhimento dos 300 mil desabrigados e na reconstrução da cidade respeitando as medidas de distanciamento e higienização para prevenção de contágio. Clemesha afirma que houve um agravamento do cenário epidêmico com a destruição da cidade: “As pessoas estão preocupadas em encontrar seus entes queridos em escombros e tratar de doentes em hospitais lotados. A situação fugiu completamente do controle”, completa. 

A ONU diz estar trabalhando junto ao governo do Líbano para amparar a cidade, particularmente em meio à pandemia. Todavia, a professora destaca a forte participação da sociedade civil no cuidado dos atingidos e na reconstrução da casas: “A população libanesa vai para as ruas, não só se manifestando, mas limpando”. 

De acordo com ela, o povo já está acostumado com um Estado que não dá conta de amparar a população, então imediatamente eles mesmos vão às ruas preencher as lacunas deixadas pelo governo, “limpar a bagunça, os escombros, varrer e começar a reconstruir”. Assim, o que os leva às ruas hoje, seja com pás e vassouras, seja com bandeiras, é a ausência do governo. 

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