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Observatório: Ceticismo sobre o vírus da gripe: negligência ou falta de informação?
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09 jun 2019 | Por Maria Luísa Bassan (malugomesdesa@hotmail.com) e Tiago Medeiros (tiagosmedeiros@usp.br)

Na última segunda-feira (3), a campanha de vacinação contra a gripe foi estendida pelo Ministério da Saúde para toda a população. Iniciada no dia 10 de abril e planejada para terminar em 31 de maio, a campanha visava vacinar 90% dos grupos prioritários – cerca de 59,1 milhões de pessoas – nos 26 estados brasileiros e Distrito Federal. No entanto, apenas oito deles atingiram a meta no período estipulado: Alagoas, Amazonas, Amapá, Espírito Santo, Maranhão, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Rondônia. Entre os estados que tiveram menor adesão está São Paulo, com cerca de 73,7% do público-alvo vacinado.

Durante a campanha foram disponibilizadas cerca de 63,7 milhões de doses da vacina para cobrir todos os representantes desse grupo prioritário e, para facilitar o acesso da população à imunização, 41,8 mil postos de saúde funcionaram para atender os cidadãos. Não foram registradas com recorrência filas muito extensas ou grandes aglomerações durante esse período de 42 dias nos locais de atendimento da campanha.

A decisão do Ministério da Saúde em abrir a campanha para toda a população visa evitar o desperdício da vacina. Os grupos prioritários – crianças de seis meses a menores de seis anos, gestantes, puérperas (mulheres que deram à luz há menos de 45 dias), trabalhadores da área de saúde, professores, povos indígenas, população privada de liberdade e pessoas portadoras de doenças crônicas não transmissíveis – continuam tendo preferência para serem vacinados. Em cidades do interior paulista, como São José do Rio Preto e Sorocaba, as doses restantes se esgotaram rapidamente e, mesmo com pedido das prefeituras por novas remessas, o Ministério da Saúde não irá fornecer mais vacinas.

Segundo dados do Ministério, no ano passado a campanha obteve êxito nacional, com 90,9% dos membros dos grupos prioritários vacinados. No âmbito estadual, três estados – Amapá, Ceará e Goiás – alcançaram 100% de cobertura vacinal, enquanto São Paulo foi um dos seis estados a não alcançar a meta, atingindo 85,5% do público-alvo. Apesar desses números inferiores à expectativa proposta pelo estado, a Professora Lucile Maria Floeter Winter, do Departamento de  Fisiologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), entende que a veiculação de informações referentes às campanhas de vacinação estão em uma crescente em relação a anos atrás: “Estão aumentando as iniciativas para incentivar as pessoas a se vacinarem e se protegerem da gripe”.

É de suma importância que essa propaganda seja feita de forma a atingir toda a população, para que se desminta um pressuposto instalado no imaginário coletivo de que o vírus da gripe não é perigoso. A professora complementa essa ideia abordando o perigo que surge a partir da negligência, principalmente de indivíduos do grupo prioritário: “O vírus pode ser letal, sim, no caso de pessoas idosas, ou crianças pequenas subnutridas. Por isso essas são as primeiras pessoas a receberem a vacina a cada início de campanha de vacinação.”

 

Os vírus influenza

A gripe (influenza) é uma infecção viral que afeta o sistema respiratório. Pode ser causada pelos vírus influenza A, B e C, sendo os dois primeiros de maior importância clínica, uma vez que são mais suscetíveis a mutações e são responsáveis pelas epidemias sazonais. Segundo o Professor Raymundo Soares de Azevedo Neto, do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), as modificações genéticas do vírus são um dos maiores complicadores do controle da doença. “Este exige um esforço constante de identificação de quais tipos de vírus influenza estão circulando para fabricar a vacina mais adequada para cada ano.” Ele alerta que, por conta disso, é necessário se vacinar todo ano, porque “a vacina tenta proteger a população especificamente contra os vírus influenza mais prováveis de serem encontrados no ano corrente”.

Os vírus influenza A e B sofrem muitas mutações, dificultando o desenvolvimento de vacinas [Imagem: Revista Planeta/Southern Research]

A vacina atua estimulando a produção de anticorpos do organismo. Por possuir o vírus atenuado, inativo ou fragmentado, ela provoca uma resposta dos glóbulos brancos, os quais produzem os anticorpos para combater o vírus sem que o indivíduo esteja doente. Esse mecanismo é suficiente para que o corpo crie uma memória de defesa e possa promover uma resposta imunológica mais rápida caso a pessoa vacinada entre em contato com o vírus ativo.

 

O perigo da desinformação

Nos últimos anos, o mundo tem sido tomado por uma onda de descrença em relação às vacinas. Notícias falsas alegando ligação da vacina com casos de autismo, por exemplo, têm ganhado espaço novamente e justificado uma atmosfera de insegurança quanto às propriedades reais da vacina. “Às vezes fica-se com a impressão que é mais fácil disseminar boatos e falsidades do que promover uma cultura fundamentada em bases científicas”, comenta Raymundo.

Além disso, a desinformação acerca da doença se mostra como um grande problema que impede a adesão dessa e de outras campanhas de vacinação por públicos maiores. Segundo pesquisa publicada na Superinteressante, um a cada cinco brasileiros ou tem medo de vacina ou as considera inúteis. “A noção de letalidade/gravidade de uma doença pode dificultar a percepção de que a cada vez que se tem um agravo à saúde, uma pessoa gasta energia e reservas que afetam seu bem estar imediato e impactarão cumulativamente em sua qualidade e quantidade de vida”, explica o professor. A gripe do vírus influenza é uma doença predominante de vias respiratórias e apresenta sintomas similares a outras doenças respiratórias causadas por outros vírus. Muitas vezes, as pessoas dizem que “estão gripadas” quando na verdade têm outras viroses respiratórias, sejam brandas ou agressivas ao bem estar. Raymundo completa pontuando que “talvez, essa mistura de diferentes doenças causadas por diferentes vírus respiratórios contribua para uma percepção equivocada da gravidade da doença causada pelo vírus da gripe influenza”.

O medo em relação aos efeitos colaterais também é outro equívoco que faz com que algumas pessoas não tomem a vacina. O professor do departamento de patologia explica que os chamados efeitos adversos são raros e, quando ocorrem, são similares a alergias. É necessário, então, entender os benefícios a curto e longo prazo da vacina para ter consciência da letalidade da doença. “Os benefícios imediatos são evitar que a pessoa que toma a vacina seja infectada por este vírus específico e fique doente. A longo prazo, uma pessoa que evitou quadros infecciosos gripais por ter tomado a vacina contra o vírus influenza a cada ano poupa o corpo dos desgastes causados por qualquer doença”, completa Raymundo.

 

O papel da população e dos Governos Federal e Estadual

Para Raymundo, as autoridades de saúde envolvidas no Programa de Imunização do Estado de São Paulo e do país têm “realizado um bom trabalho tanto na divulgação das campanhas quanto na execução da vacinação”. Na percepção do professor, os meios de comunicação também têm colaborado para que a mensagem chegue à população.  

Na visão da professora Lucile, os órgãos governamentais são os principais agentes que precisam trabalhar para mudar este prospecto negativo em relação às vacinas, uma vez que o corpo social encontra-se contaminado por informações fantasiosas e sem embasamento de estudos. “Correlações erradas, seja por pesquisa ou mesmo por má fé, produziram publicações que depois foram desmentidas. No entanto, estamos vivendo a era das “fake news”, e só muita campanha e investimentos em educação e saúde podem quebrar esses pensamentos e desfazer o mal causado por esses grupos”.

Logo, percebe-se o quadro de risco ilustrado pelo não-cumprimento da meta de vacinação contra o vírus da gripe, pois, uma vez que a parte da população que representa o grupo de maior risco contra a doença não se dispõe a ser imunizado, verifica-se uma situação de preocupação a qual deve ser investigada e solucionada. Não é da natureza do ser humano expor-se a perigos desnecessários, ainda mais possuindo o acesso fácil a uma proteção. Portanto, observa-se que a raiz do problema está instaurada em um âmbito mais profundo, de convencimento e discernimento acerca das informações e das linhas de raciocínio que as pessoas escolhem acreditar.

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