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Observatório: Por que ainda não temos uma pílula anticoncepcional masculina?
Corpo e Mente
23 jun 2019 | Por Danilo Moliterno (danilomoliterno@usp.br) e José Higidio Gimenez (zehigidio@usp.br)

No dia 18 de agosto de 1960 chegava ao mercado estadunidense o Enovid-10, primeiro anticoncepcional oral feminino. Os estudos relacionados à pílula foram iniciados na década de 1950 às escondidas, devido a leis que proibiam qualquer material “lascivo” ou “obsceno” no país. Passaram-se mais de 60 anos e a medicina realizou avanços surpreendentes. Porém, em 2019, ainda não há nenhum sintético semelhante direcionado aos homens. Qual a razão disso? Empecilhos biológicos? Entraves culturais? Descubra no texto do Observatório.

 

Como andam as pesquisas: Hormonais

Atualmente, a gama de anticoncepcionais femininos ofertada é grande. A opção mais comum é a pílula monofásica, que possui em sua fórmula doses iguais de progesterona e estrogênio. Mas há também a pílula multifásica, na qual variam os hormônios e suas quantidades, e ainda minipílulas voltadas especificamente para mulheres que estão amamentando.

Em contrapartida, qualquer iniciativa que visa a confecção de um anticoncepcional masculino ainda encontra-se em fase de desenvolvimento. Algumas das opções estudadas são pílulas constituídas por derivados de hormônios, que buscam vetar a produção de espermatozoides através da diminuição da quantidade de testosterona.

Um exemplo de pílula hormonal é o DMAU (sigla em inglês para undecanoato de nandrolona), sintético cuja primeira fase de testes foi concluída no ano passado por pesquisadores de Seattle e Los Angeles. A consumação do método, entretanto, está prevista apenas para 2020. Há também sua pílula-irmã, a 11-beta-MNTDC (11-beta-metil-19-nortestosterona dodecilcarbonato), que encontra-se em fase de desenvolvimento semelhante desde março deste ano.

Uma alternativa diferente, chamada NES/T (Nestorone/testosterona), é sintetizada no formato de um gel. Ele deve ser aplicado nas região das costas ou nos ombros, para que possa ser absorvido pela pele. Cientistas ainda estão em busca de voluntários para iniciarem os testes com esta droga.

 

Como andam as pesquisas: Não Hormonais

Existem, também, opções não hormonais. Algumas delas, similarmente às hormonais, têm por objetivo inibir a produção de espermatozoides. É o caso do H2 Gamendazole, cuja eficácia já foi comprovada em ratos, por cientistas de Kansas e Minnesota; e do JQ1 (nome dado em homenagem ao químico que o concebeu, Jun Qi), um versátil composto que já foi usado em pesquisas de Harvard para o tratamento de câncer, HIV e doenças cardíacas.

Ainda dentro do campo não hormonal, há métodos que visam agir sobre o espermatozoide já formado e impedí-lo de fecundar o óvulo. Por exemplo, o RISUG (sigla em inglês para inibição induzida reversível de esperma), solução gelatinosa desenvolvida na Índia. Aplicada por injeção, ela tem como intenção bloquear o canal deferente (que liga os testículos ao pênis) e impedir a passagem dos espermatozoides. O Vasalgel, método americano baseado no RISUG, também age como uma “vasectomia temporária” com duração próxima a um ano. Por fim, há pesquisas acerca do gene Eppin, cuja ação inibe a mobilidade do espermatozoide. Contudo, nenhuma dessas tentativas obteve progresso visando a efetiva comercialização do produto.

São diversas as pesquisas que visam desenvolver métodos anticoncepcionais masculinos [Foto: Sunflowerr Nikolae Shutterstock]

Anti anticoncepcionais: Biológicos

Fatores biológicos, exclusivos do corpo masculino, são os principais empecilhos encontrados no desenvolvimento do anticoncepcional. A necessidade de cumprir alguns pressupostos recorrentemente obstrui as pesquisas. Alexandre Fornari, urologista, membro associado da SBRASH (Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana), explica: “é necessário que o contraceptivo seja reversível com a parada do uso e que haja baixa incidência de efeitos colaterais. Esses são os grandes problemas no desenvolvimento dos anticoncepcionais masculinos”.

A probabilidade de efeitos colaterais deriva, na maioria das vezes, do uso de testosterona. “Em altas doses,  a testosterona produz efeitos como hipertensão e aumento da aterosclerose [placa sobre a parede das artérias]. Ainda pode acabar inibindo a produção de espermatozoides e levando à azoospermia [desaparecimento do espermatozoide no ejaculado]”, acrescenta o urologista.

A testosterona, hormônio imprescindível para pesquisas que visam desenvolver um anticoncepcional masculino, ainda possui outras contraindicações. Por exemplo, se ministrada em períodos prolongados (acima de 6 meses) pode acarretar na atrofia dos testículos e na infertilidade permanente do indivíduo que a estiver utilizando.

 

Anti anticoncepcionais: Culturais

Um possível empecilho estaria no campo cultural: a resistência de uma sociedade machista em conhecer um anticonconcepcional masculino, visto que este tipo de sintético é associado pelo senso comum à prevenção feminina. Alexandre também opina sobre: “na clínica diária, o que se percebe é que a aceitação (pelo menos por parte do público masculino) seria muito boa. Claro, desde que se pudesse estabelecer uma segurança em relação à saúde e à fertilidade futura”.

Outro fator que dificulta o desenvolvimento das pesquisas é a falta de voluntários, já que estes devem aceitar a possibilidade de falha do método . Ou seja, quem se candidata a fazer os testes deve concordar com uma eventual gravidez — o que pode não condizer com os interesses da pessoa em questão.

 

Uma boa opção?

Caso desenvolvido um sintético seguro, todos — inclusive mulheres — ganham muito em prevenção, visto que, hoje, o homem só possui duas formas de evitar uma gravidez: a vasectomia, método permanente; e a camisinha, que é o meio preventivo mais indicado, por também proteger contra DSTs.

Entretanto, o anticoncepcional masculino não deve substituir o feminino, tampouco outros métodos, mas deve somar-se a estes. “Um dos efeitos adversos seria o estímulo para não se usar camisinha, visto que o risco de gravidez desapareceria. Isso seria péssimo, em termos de um aumento preocupante nos casos de sífilis e do surgimento de gonococos [bactérias responsáveis por infecções sexualmente transmissíveis] multirresistentes a antibióticos”. completou Alexandre.

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