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Os 40 anos da Champions do Nottingham Forest
ARQUIBANCADA
30 maio 2019 | Por André Derviche e Arthur Nascimento (andrederviche99@gmail.com e arthur.gm.nascimento@usp.br)

Pensando no atual cenário do futebol europeu, é difícil imaginar que o nono colocado da segunda divisão do campeonato inglês já foi campeão de uma das competições mais almejadas e competitivas do mundo. Há 40 anos, o Nottingham Forest conquistava pela primeira vez um título de Liga dos Campeões, marcando um triunfo histórico no torneio continental. De lá para cá, a trajetória desta que é uma das equipes mais tradicionais da Inglaterra passou por altos e baixos, envolvendo desde novas conquistas até sucessivos rebaixamentos. O Arquibancada traz mais dessa incrível história de superação no futebol.

 

Anos anteriores: de zebra a elite do futebol inglês

Fundado no ano de 1865, o Nottingham Forest é um dos dez clubes mais antigos do futebol mundial. Sua primeira grande conquista se deu na temporada de 1897/1898, quando a equipe conquistou a Copa da Inglaterra, atual FA Cup, vencendo a final por 3 a 1 contra o tradicional rival Derby County. O retrospecto do time na competição era um tanto traumático antes da primeira conquista: quatro eliminações consecutivas nas semifinais da copa.

Com uma grande conquista nacional no currículo e um investimento de três mil libras, que possibilitou a inauguração de um estádio próprio, o City Ground, o time de Nottingham passou a figurar entre os clubes mais promissores do futebol inglês. Como prova, o início do século XX foi de esperança para os torcedores dos Reds. A equipe terminou a temporada de 1900/1901 em quarto lugar da primeira divisão.

Os anos seguintes, porém, foram bastante conturbados. Uma combinação de ambições e problemas na administração resultou no rebaixamento do Forest para a segunda divisão. Na temporada de 1913/1914, por sua vez, a equipe fez a pior campanha de um time nesse campeonato e potencializou uma crise.  Anos mais tarde, passadas as complicações financeiras que as duas guerras mundiais trouxeram às estruturas futebol inglês, o time de Nottingham foi rebaixado para a terceira divisão, ascendendo somente em 1952.

Depois de aproximadamente meio século nas divisões inferiores, os Reds se sagraram vice-campeões da segunda divisão na temporada de 1956/1957, retornando finalmente à elite do futebol inglês.

Em um cenário de reestruturação, o clube conquistou a Copa da Inglaterra mais uma vez em 1959, ao vencer o Luton Town por 2 a 1 no estádio de Wembley para cerca de 40 mil torcedores. Na ocasião, o Nottingham Forest jogou boa parte da partida com um homem a menos por uma lesão, uma vez que ainda não eram permitidas substituições ao longo do jogo.

Após serem vice-campeões ingleses e semifinalistas da copa nacional um ano após o centenário, os vermelhos de Nottingham foram rebaixados mais uma vez em 1972 após mais um período problemático na administração do clube.

Os rumos do Nottingham Forest só melhoraram três anos depois. Em janeiro de 1975, Brian Clough – que viria a ser um dos maiores ídolos do clube – assumiu o comando da equipe inglesa com o objetivo de colocá-la novamente na primeira divisão. Foi somente na temporada seguinte, com a decisiva chegada do assistente técnico e olheiro Peter Taylor, que os Reds conseguiram o acesso ao primeiro escalão. Com Clough e Taylor, a equipe alcançou um recorde de invencibilidade que durou 42 jogos. Façanha essa que só foi superada 26 anos depois pelo Arsenal, em uma sequência de 49 partidas sem perder.

Na temporada de 1977/1978, o time de Nottingham alcançou mais conquistas de peso. A primeira delas foi a da Copa da Liga Inglesa, em que eliminou o poderoso Liverpool. A outra foi o renomado Campeonato Inglês, sendo uma das únicas equipes a ganhá-lo um ano após subir da segunda divisão. A campanha do Forest na liga nacional ficou marcada pela utilização de  um elenco composto por apenas 15 jogadores, que resistiram a lesões e a outros desgastes físicos. Essa marca seria impensável hoje em dia se levarmos em consideração o nível de exigência física do futebol.

A vitoriosa dupla Brian Clough (à esquerda) e seu assistente Peter Taylor (à direita) posando para o retrato [Imagem: PA/PA Archive/PA Photos]

“Acaba com um elenco que sempre está no ritmo de jogo. As peças encaixaram perfeitamente. Peter e Brian sabiam fazer essa leitura, de achar jogador melhor do que ninguém. Foi importante o casamento ter dado certo em tão pouco tempo” disse Guilherme Orsi, do Nottingham Forest Brasil, em entrevista ao Arquibancada.

O próximo desafio para o Forest seria a Liga dos Campeões da Europa, o maior torneio continental do futebol mundial. Agora, o campeonato teria a participação de um ambicioso time, que poucos anos antes encontrava-se na segunda divisão de uma competição nacional.

 

Os sonhadores enfrentam os imbatíveis

O Nottingham Forest buscava, para concluir sua ascensão meteórica, conquistar a Liga dos Campeões da Europa em sua primeira participação continental. Para isso, o time de Brian Clough deveria enfrentar campeões nacionais de todo o continente, além do último vencedor da competição, o temido Liverpool. E o sorteio colocou o então bicampeão europeu frente a frente com o campeão inglês logo no primeiro confronto.

Era difícil imaginar que o vencedor incontestável das últimas duas edições do campeonato continental seria eliminado logo na primeira fase. Ainda mais em um duelo contra uma equipe inglesa sem tradição alguma em competições europeias. Porém, como afirma Guilherme Orsi, os jogadores do Forest eram disciplinados e “compraram a ideia do (Brian) Clough de ser campeão. Eles queriam algo que era inalcançável até um ano atrás”. Além disso, o treinador utilizou a classificação diante do Liverpool na Copa da Liga Inglesa em 1977/1978 para motivar o elenco do time de Nottingham rumo a uma nova vitória.

A qualidade na gestão de grupo fez efeito em campo. No primeiro duelo entre os ingleses, realizado em Nottingham, o time da casa não decepcionou sua torcida e fez uma etapa inicial avassaladora, pressionando o Liverpool com marcação alta e bom toque de bola. O elenco montado por Peter Taylor dominou as ações no primeiro tempo, e não demorou para o bom futebol resultar em gols. Aos 26 minutos, Garry Birtles tocou para o fundo da rede após grande jogada coletiva, marcando seu primeiro gol com a camisa do Forest. O Liverpool tentava, mas conter o ímpeto e a grande variedade ofensiva dos comandados de Clough era difícil.

O time da casa sabia que o rival iria proporcionar mais perigo na segunda etapa. Para ajudar a equipe nesse momento, lá estava o lendário goleiro Peter Shilton. O camisa 1 teve uma excelente atuação naquele segundo tempo, contribuindo para manter o placar. Porém, o 1 a 0 não era vantagem suficiente para conter o Liverpool em dois jogos. Por isso, o Nottingham Forest não se restringiu à defesa e, em uma jogada de contra-ataque, Colin Barrett marcou de voleio: 2 a 0 para o Forest em atuação heroica.

Na partida de volta, o Liverpool novamente não conseguiu marcar, e o jogo ficou no 0 a 0. Uma classificação histórica para o clube de Nottingham. Eliminar o atual bicampeão europeu, com um elenco conhecido como “reis da Inglaterra” e repleto de lendas do futebol britânico, como Ray Clemence, Phil Neal e Kenny Dalglish, era o auge para qualquer time. Márcio Camollez, do City Ground Brasil, afirma que de fato “foi uma grande conquista (…) por eliminar o que, na época, era o melhor time do mundo”. Porém ainda havia um longo caminho até o grande objetivo, o sonhado título europeu.

O Liverpool tentou, mas não saiu do 0 a 0 com o Forest em Anfield [Imagem: REX]

 

Um sonho que se tornou realidade

O Nottingham Forest enfrentou na etapa seguinte o AEK-Atenas e sobrou no confronto, vencendo por 2 a 1 na Grécia e goleando por 5 a 1 na Inglaterra. Já nas quartas de final, o duelo era contra o Grasshopper, da Suíça, que havia eliminado o Real Madrid na fase anterior. Na primeira partida, os suíços saíram na frente, mas Garry Birtles, John Robertson, Archie Gemmill e Larry Lloyd viraram o jogo em Nottingham para 4 a 1. Na volta, o Grasshopper saiu na frente com um pênalti, porém O’Neill empatou quatro minutos depois e os ingleses mantiveram o placar até o fim, garantindo a classificação.

Assim, o Forest já estava na semifinal da Liga dos Campeões da Europa. O sonho continental se aproximava da realidade, e só restavam três partidas até a consagração. O adversário antes da tão esperada final era o Colônia, time responsável por acabar com a hegemonia de Bayern de Munique e Borussia Mönchengladbach como únicos campeões da Alemanha na década de 1970.

A semifinal começou e o sonho parecia ruir. O Colônia abriu 2 a 0 com 20 minutos de jogo em Nottingham. O clube da casa, porém, não se deixou abalar e buscou a virada, com gols de Garry Birtles, Ian Bowyer e John Robertson. No entanto, a partida continuou difícil, e o time alemão marcou mais uma vez, fechando o placar em 3 a 3. Resultado melhor para os alemães, que só seriam eliminados com uma derrota ou empate de quatro ou mais gols.

No confronto de volta, a partida era tensa. Os dois times criaram oportunidades no primeiro tempo, mas o placar permaneceu zerado. Até que, em escanteio aos 20 minutos do segundo tempo, Ian Bowyer, o segundo jogador com mais partidas na história do Nottingham Forest, empurrou a bola para o gol, colocando os ingleses na frente. A partir daí, o Colônia pressionou através de cruzamentos na área, jogadas individuais e chutes de longa distância, mas a defesa inglesa conteve os alemães. A partida acabou em 1 a 0, e o Nottingham Forest alcançou a sonhada final.

Na grande final, o adversário era o Malmö, da Suécia, equipe que também vivia um sonho, pois nunca havia passado da segunda fase da competição em sua história. No caminho até a decisão, o time superou Monaco, Dynamo de Kiev, Wisla Cracóvia e Austria Viena, adversários menos imponentes do que os superados pelo Nottingham. Suecos e ingleses chegaram a um duelo impensável na final da maior competição europeia. Um confronto que eternizaria o seu vencedor na história.

O que se viu na final realizada no Olympiastadion, em Munique, foi um Nottingham Forest pronto para concluir sua epopeia. O time inglês produziu as melhores chances no primeiro tempo, com direito a bola na trave, mas a defesa sueca fez o que podia para segurar o resultado. Até que, nos acréscimos, Trevor Francis, “indicação de Peter Taylor e primeira contratação acima de um milhão de libras da história do clube” como informou Guilherme Orsi, marcou de cabeça e abriu o placar para o Forest, após cruzamento de John Robertson.

No segundo tempo, os jogadores mantiveram o nível da etapa inicial e realizaram uma partida segura, garantindo sem grandes sustos a manutenção do placar e o sonhado título continental. O time mais meteórico da história do futebol europeu subia enormes degraus com facilidade e, em duas temporadas, saía da segunda divisão nacional para ser o primeiro campeão invicto da história da Liga dos Campeões.

O volante John McGovern faz o que há dois anos era impensável e levanta a taça de campeão continental [Imagem: EMPICS Sport]

O capitão John McGovern levantou a taça europeia, eternizando o clube na história do futebol. Como lembra Márcio Camollez, “não só o Nottingham Forest conseguiu esses feitos [dentre os times ingleses], também o Aston Villa que ganhou uma Liga dos Campeões em seguida, o Ipswich [Town] e o Tottenham que venceram a Copa da Uefa”. Entretanto, nenhum deles teve ascensão tão rápida da segunda divisão, conquistou um troféu continental de maneira invicta ou defendeu o título, alcançando o bicampeonato. Apenas o esquadrão de Brian Clough e Peter Taylor foi capaz de tais feitos.

 

Anos seguintes: um futuro não tão glorioso

Na temporada seguinte, o embalado time de Nottingham entrou em mais uma busca por outro feito histórico. O início de campanha da equipe na Liga dos Campeões da Europa 1979/1980, após um vice-campeonato inglês, não foi tão impactante quanto aquela em que eliminou um poderoso Liverpool na fase inicial. Contudo, o clube inglês proporcionou momentos marcantes para sua torcida, como a vitória por 2 a 1, na semifinal, sobre o tricampeão Ajax, da Holanda.

A decisão do torneio continental de 1979/1980 foi disputada no Santiago Bernabéu, em Madrid. O adversário do Nottingham Forest era o Hamburgo, da Alemanha. A lesão de Trevor Francis, protagonista da equipe até então, foi um dos maiores problemas para o jogo dos ingleses. Ainda assim, a atuação inspirada do ídolo Peter Shilton, formado na base, garantiu o bicampeonato europeu para o Forest.

John Robertson, aos 21 minutos de jogo, marca o gol da vitória por 1 a 0 do Forest sobre o Hamburgo, garantindo o bicampeonato europeu [Imagem: Bob Thomas/popperfoto.com]

Os anos seguintes à conquista europeia foram marcados por participações em outras competições continentais, e até mesmo campeonatos mundiais, mas sem grandes conquistas. As coisas se complicaram quando parte do esquadrão campeão da Europa foi vendido. Sem substituições à altura e com contratações pouco efetivas, o Nottingham Forest não conseguiu alcançar títulos.

A próxima conquista do Forest seria em 1989. A equipe venceu o Luton Town por 3 a 1 na final, garantindo mais uma vez a Copa da Liga Inglesa. A expectativa de chegar a mais um importante título na temporada acabou depois da derrota por 3 a 1 para o Liverpool na FA Cup, após o Desastre de Hillsborough, tragédia em que 96 torcedores morreram pisoteados e outros 766 ficaram feridos.

Nos últimos anos de Clough sobre o comando do Nottingham Forest, a equipe venceu mais três copas e mais dois vice-campeonatos nacionais. Porém, na temporada de 1992/1993, na primeira edição da Premier League (nova versão da liga inglesa de futebol), o Nottingham Forest terminou rebaixado para a segunda divisão. Em abril de 1993, o já lendário Brian Clough anunciou sua aposentadoria.

Brian Clough vê o Nottingham Forest ser rebaixado em um de seus últimos jogos no comando da equipe [Imagem: David Cannon/Allsport/Getty Images]

“Com Brian Clough, praticamente não teve um ano que o time não contou com boas campanhas. Mesmo quando não ganhou títulos, ou revelou jogador, ou ficou entre as primeiras posições. Ficar 18 anos na elite do futebol é muito importante”, afirmou Márcio Camollez.

De lá para cá, o Nottingham Forest oscilou entre subidas e descidas de divisão. Após a saída de Clough, o clube disputou 26 temporadas. Dessas, esteve na primeira divisão em somente quatro, dezenove temporadas na segunda e três na terceira. Entre as razões do declínio, podem ser lembradas constantes vendas de jogadores importantes e as várias trocas de técnicos – 29 após a era Clough – que dificultaram uma regularidade no trabalho realizado ao longo das temporadas. Além disso, é válido mencionar as diversas crises financeiras que a instituição enfrentou.

Em 2017, o Nottingham Forest foi comprado pelo empresário grego Evangelos Marinakis, também proprietário do Olympiacos, da Grécia. Segundo o grego, o objetivo é “devolver ao clube os dias de glória das décadas de 1970 e 1980”. Seguindo o molde de outros milionários do futebol, Marinakis andou injetando uma quantidade significativa de dinheiro no time inglês.

Com isso, os investimentos em reformas estruturais no clube e em contratações para melhorar o atual elenco trazem ao torcedor boas perspectivas para subida de divisão no futebol inglês. “Voltar é uma coisa, voltar e ficar é diferente. A ideia é essa, voltar e ficar”, diz Guilherme Orsi.

Apesar de tantos problemas e dificuldades enfrentadas pelo time de Nottingham desde o início deste século, nada conseguirá apagar a conquista heroica desse clube de 154 anos de história. Conquistar a Europa duas vezes consecutivas serviu para elevar o patamar do clube que, anos antes, disputava a segunda divisão nacional. Além disso, mostrou a todos uma das jornadas mais incríveis que o mundo do futebol já pôde proporcionar.

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