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Os aros do triunfo
ARQUIBANCADA
06 nov 2019 | Por Vinicius Garcia (vini.garcia.ferreira@usp.br)

O ginásio, a bola, a tabela, o aro. Todos elementos simples, porém fundamentais ao complexo jogo do basquete. Após 128 anos de existência, é natural que o esporte, e seus equipamentos, tenham evoluído com o passar dos anos. Dentre as mudanças ocorridas neste tempo, uma das mais interessantes é a das cestas – conjunto do aro e da tabela – já que foram muitas e motivadas por diferentes razões.

O próprio nome do esporte, derivado do inglês basketball, tem origem no primeiro modelo de cesta implementado por James Naismith, criador da modalidade, que era, literalmente, um cesto de colher pêssegos (basket, em inglês). Além disso, vale notar, não havia tabela para acompanhar o cesto, o que também eliminava rebotes e bandejas do incipiente esporte.

Naismith com o primeiro cesto e bola do basquete [Imagem: UPI / Bettmann Archives]

O cesto era, inicialmente, fixado no topo de um corrimão de 10 pés de altura (aproximadamente 3 metros). Dentro de ginásios, costumava ser fixado a uma parede ou às arquibancadas elevadas. Essa configuração de jogo tinha suas peculiaridades – como quando jogadores usavam a parede para ganhar impulso na hora de fazer a cesta. Isso levou, posteriormente, a uma resolução de que a cesta teria que ficar afastada da parede, permitindo que os jogadores passassem por baixo dela, conferindo, assim, mais liberdade de movimento.

A proposta de fixar o cesto à arquibancada, porém, trouxe um grande problema: fãs passaram a interferir em arremessos durante as partidas. Para resolver esse problema, foi criada a tabela. O primeiro modelo, feito de malha de arame, tinha a mera intenção de impedir a interferência externa, porém, acabou por mudar o jogo para sempre, já que agora os elementos de rebotes e tabelas poderiam existir, e portanto, tiveram que ser regulamentados.

Simultaneamente à invenção das tabelas, houve também uma grande mudança no aro. O cesto apresentava dois problemas evidentes: sua composição de madeira e seu fundo fechado. O primeiro, solucionado rapidamente, era um problema pois a madeira era pouco duradoura e costumava quebrar. A solução encontrada foi substituí-la por uma cesta de mesmo formato, porém, feita de metal. 

Posteriormente, o metal foi mantido apenas no topo do aro, sendo o restante substituído por uma rede, ainda fechada no fundo. Tal fundo era problemático pois a bola ficava presa dentro da estrutura após cada cesta. Era preciso, então, subir numa escada ou em alguma estrutura elevada para retirar a bola do cesto e colocá-la de volta em jogo, o que parava a partida por um tempo e diminuía o espetáculo. A cesta de metal tentou solucionar o problema com um fundo que era aberto pelo juiz através de uma corda, já a cesta de rede fechada permitia que a bola fosse cutucada para fora caso houvesse um objeto longo o suficiente. Contudo, o problema só foi resolvido definitivamente quando a rede foi aberta, fazendo com que a bola caísse diretamente no chão, o que deu mais dinamicidade ao jogo, já que evitava as paradas necessárias nos modelos anteriores. 

Assim, o que hoje chamamos de “cesta” começava a tomar forma, mas os problemas estavam longe de acabar. Concomitantemente com a atualização dos aros, a tabela sofreu leves mudanças; o arame foi substituído por madeira pois causara alguns acidentes com espectadores que tentavam burlar a tabela e interferir no jogo. O material, porém, logo foi substituído por vidro, já que sua transparência não atrapalhava a visão de fãs nas arquibancadas, além de contar com certo apelo estético. 

Entretanto, o mesmo vidro que foi solução para os problemas iniciais do esporte, tornou-se o causador do maior problema com a cesta nas décadas seguintes, pois quebrava com facilidade. Segundo o professor Douglas Gouvêia, que ministra aulas no curso de engenharia de materiais na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, ao analisar imagens e vídeos desses incidentes, percebe-se que as tabelas eram feitas de vidros temperados, que são mais resistentes que o vidro sodo-cáustico, o mais clássico. Contudo, o vidro temperado, após receber um grande impacto, explode devido à alta pressão interna, gerando cacos característicos deste material.

 

Botando para quebrar

O primeiro incidente que resultou em que uma quebra de tabela foi pouco cenográfico, levando em consideração como outras tabelas seriam quebradas no futuro. Chuck Connors, jogando pelo Celtics em 1946, arremessou uma bola normalmente durante o aquecimento, porém, devido a falta de uma borracha de segurança na instalação da tabela, o vidro quebrou-se com o impacto da bola com o aro.

Após Connors, alguns jogadores – como Gus Johnson, do Baltimore Bullets – ficaram famosos por quebrar tabelas. O atleta mais associado a esse tipo de incidente, porém, é Darryl Dawkins, do New Jersey Nets, que quebrou duas tabelas diferentes na mesma temporada e é famoso por levar à instalação do chamado breakaway rim na NBA, uma espécie de borda que contém uma dobradiça e uma mola no ponto em que a cesta é fixada na tabela, tornando o conjunto mais flexível.

Dawkins, agachado a esquerda, após quebrar uma tabela [Imagem: Bettmann / Corbis Archives]

Dawkins fez extremo sucesso na época, já que a explosão do vidro precedida por uma enterrada gera uma imagem visualmente bonita, e o momento em si é um grande espetáculo para todos que o presenciam. Porém, a NBA, e qualquer outra liga de basquete, começou a lutar contra isso, visto que tal incidente poderia resultar em jogadores feridos devido aos cacos, além do fato de que , mesmo sem a quebra, esse modelo de cesta podia machucar o punho dos jogadores, já que não absorvia bem o impacto.

Criou-se, então, o chamado breakaway rim. A história de sua introdução é incerta. Na época, muitos se auto proclamaram como criadores desta invenção, porém, o Centro Lemelson de Estudo De Invenção e Inovação do Museu Smithsonian de História Natural Americana deu a patente a Arthur Ehrat, que, ironicamente, nunca foi muito ligado ao basquetebol. Ocorre que, em 1976, seu sobrinho, então assistente técnico na Saint Louis University, pediu que ele montasse uma tabela mais segura, para garantir a integridade de seus jogadores. E assim nasceu o modelo supracitado, que se mostrou eficaz e começou a conquistar espaço no esporte.

O novo modelo de tabela, instalado no começo dos anos 80 na NBA, foi a solução definitiva para os problema anteriores, que já tinham, inclusive, levado ao banimento de enterradas no nível escolar e universitário entre as temporadas de 1967-68 e 1975-76.

A tabela agora era feita de fibra de vidro, mais resistente que o vidro temperado, e o aro passou a ser fixado com molas à estrutura laranja, que por sua vez, é atrelada à tabela, permitindo um impacto maior nas enterradas sem que se quebre a fibra, impedindo os acidentes que antes ocorriam. 

A estrutura, desde então, sofreu poucas alterações, visto que acidentes envolvendo a tabela tornaram-se raros. Houve um caso de quebra na NCAA, em 1988, a liga universitária de basquete, em que Jerome Lance recebeu um passe no contra-ataque e enterrou com força. Tanta força, inclusive, que a tabela quebrou e o aro ficou pendurado à estrutura por apenas um filete de seu suporte. Foi determinado, porém, que a quebra ocorreu devido a uma micro-fratura pré existente no vidro, algo que, segundo o professor Douglas, fragiliza o material e facilita a sua quebra. Esse foi o último caso documentado em uma partida oficial de basquete.

Outro fato interessante ocorreu quando Shaquille O´neal, em seu ano de calouro na NBA, na temporada 1992-93, ficou famoso não por quebrar tabelas, mas sim, por derrubar a estrutura que as sustenta. Por isso, foram feitos reforços na estrutura para que ela também consiga sustentar a força exercida na cesta.

Após essa atualização, o breakaway rim tem cumprido sua função de ser a prova de quebras, o que não impediu a NBA de regulamentar a punição caso isso aconteça. Se ocorrer durante o aquecimento, o jogador que quebrou sai sem punição, mas se ocorrer durante o jogo, ele é punido com uma falta de conduta anti-desportiva, que não é contabilizada no total de faltas que leva à expulsão do jogador, mas que penaliza seu time dando lances livres e a posse de bola para o adversário.

O professor supõe ainda que a grande dificuldade de se substituir a tabela estava em achar um material que resistisse bem à força mecânica dos jogadores, mas que também não mudasse substancialmente o esporte, pois a mudança de material poderia afetar a velocidade e a distância que a bola viaja após bater na tabela.

Além desse dilema inicial, há fatores como resistência à luz, calor, umidade, estética e sustentabilidade. Portanto, resolver um problema dessa área da engenharia é “uma tarefa multidisciplinar e muito complexa”, diz o professor.

Diferença do rebote em tabelas de vidro, acrílico e policarbonato, de cima para baixo [Imagem: Krista Guillot]

Ainda segundo o professor, o principal causador da quebra de tabelas era a fixação do aro diretamente na tabela. Ao perfurar o vidro com pregos para fixar o material, a área acabava fragilizada. A quebra ocorria porque o peso aplicado na vertical abaixava o aro, que em função da velocidade de rebote, acabava por expandir o vidro além do que sua elasticidade permitia, e então, o vidro quebrava.

Além das mudanças já citadas, a nova estrutura emprega um absorvente de choque, que permite que as vibrações do aro sejam minimizadas e faz com que ele possa se mover verticalmente de maneira mais livre, sempre voltando à posição horizontal após uma enterrada.

Dessa maneira, chegamos na cesta atual e assim como o desenvolvimento dos jogador de basquete, o caminho de evolução da estrutura não se deu em linha reta. Precisou de paradas. Curvas. Desvios. Crossovers. E, provavelmente, continuará evoluindo para que o jogo se torne cada vez mais emocionante. Assim, cada vez mais, se vibrará com a bola ultrapassando o aro no último segundo. Acaba o jogo e… finalmente, triunfo.

Arquibancada
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