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Os bastidores da crise
CINÉFILOS
26 fev 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Amanda Oliveira
foliveirafamanda@gmail.com

O glamour das produções cinematográficas atrai os olhares de muitas pessoas que veem o cinema como um universo paralelo a realidade. No entanto, por detrás desse mundo ficcional existem muitos vilões reais que assombram até mesmo os grandes estúdios. E o principal deles e o mais mortífero é a crise financeira. Hoje o Cinéfilos vai imergir nos bastidores das gigantes produtoras de Hollywood e descobrir como elas enfrentaram as difíceis turbulências que afetaram uma das indústrias mais rentáveis do mundo.

O universo dos quadrinhos na UTI

No ano passado, os super-heróis invadiram as salas de cinema e uma das responsáveis por esse acontecimento foi a produtora Marvel Studios. Mesmo ainda engatilhando na indústria cinematográfica, ela nos apresentou grandes sucessos do universo dos quadrinhos. Mas esses momentos de prosperidade, não foram tão frequentes na empresa. Para entender a Marvel Studios, precisamos saber que nos anos 80, por detrás dela estava a sua mãe a Marvel Entertainment Group (hoje Marvel Entertainment apenas).  Ela abrigava a divisão mais badalada da corporação: a Marvel Comics.

Assim tudo que refletia na indústria dos quadrinhos, consequentemente afetava toda a empresa. E essa repartição da Marvel não estava nada bem. O mercado de gibis estava saturado e as pessoas já não se interessavam tanto por eles. Além disso, devido à pouca valorização dos artistas e roteiristas, um dos grandes nomes da Marvel, Jack Kirby, deixou a editora. Ele participou da criação de importantes heróis dos quadrinhos como: Capitão América, Homem de Ferro, Quarteto Fantástico, Hulk, entre outros.

A crise começou a se acentuar quando a Marvel foi vendida para grandes corporações, que só estavam interessadas em aumentar rapidamente os seus lucros. Em 1988, ela foi vendida para o magnata dos cosméticos Ronald Perelman. Ele aos poucos foi afundando o grande império dos quadrinhos em uma situação ainda pior. Primeiramente abriu o capital da Marvel no feroz mercado das ações, depois fez algumas aquisições problemáticas como a compra da Fleer, uma fábrica de cards de esportes. Esse invetimento não deu certo e  aumento  os transtornos da empresa.

Novos caminhos com a Toy Biz

A Toy Biz tinha exclusividade para produzir os brinquedos da industria dos quadrinhos. Com o tempo a sua relação com a empresa foi se tornando ainda mais estreita. Perelman comprou 46% das ações da Toy Biz e seus prorietários, Arad e Perlmutter foram ganhando mais espaço na organização. Arad se tornou chefe da Marvel Films criada com o intuito de licenciar as franquias dos personagens para grandes produtoras de cinema.

Em 1996, Perelman vendeu os seus 46% de propriedade da Toy Biz para fundar a Marvel Studios. Arad e Stan Lee, principal artista da coorporação, iriam montar pacotes de pré-produção, assim cuidariam da contratação dos diretores, atores e entregariam os roteiros para os estúdios parceiros. Apesar dessas produções, as fissuras na Marvel iam se aprofundando. Depois de apresentar um relatório de prejuízo de US$ 1,2 milhão de dólares em títulos de alto risco, cerca de 50% a mais que o seu valor de mercado, a empresa via suas ações despencarem.

Em 1996, o gigante dos quadrinhos entrou em concordata, um acordo entre o falido e seus credores dispensando o da liquidação da dívida por um tempo determinado. Passou, assim,  a ser alvo de disputa entre Arad, Permutter, Perelman e Icahn, um executivo que tinha títulos dos débitos da coorporação e que queria assumi-la.

Aos poucos a Toy Biz foi se aproximando da posse da empresa e assim comprou parte de sua dívida dos bancos. Em 1998, a Toy Biz e a Marvel Entertainment Group se fundiram e viraram a Marvel Enterprises. Gradualmente, a companhia ia se erguendo do buraco. Logo após, filmes de alguns personagens foram licenciados. Em 2009, ela  foi comprada pelo grupo Walt Disney Company por 4 bilhões de dólares.

O pesadelo da depressão econômica

Os tempos de escuridão não se restringiram a Marvel. A grande produtora de sucessos como O Poderoso Chefão (The Gosfather, 1972), Titanic (1997) e Forrest Gump: O Contador de Histórias (Forrest Gump,1994) também viu seu império quase desmoronar.  A Paramount Pictures passou por momentos difíceis no período que a depressão econômica de 1929 assombrava o mundo.

O desejo acelerado de expansão acabou trazendo grandes dores de cabeça para a empresa. Em 1925, a Paramount fundiu com a cadeia de teatro Publix. O motivo era que, por incrível que pareça, nos anos 20 as produtoras compravam a suas próprias salas de cinema. Essa expansão fez com que a empresa ficasse muito endividada em plena crise de 29. De acordo com a Fortune, revista americana, alguns teatros eram adquiridos em troca de ações e com a promessa de recompra-las. No entanto, quando o tempo de resgate chegou, o valor para reobtê-las, estabelecido antes, era muito elevado, pois as ações da produtora despencaram. O resultado foi a redução de salários e a saída de centenas de funcionários.

Ressurgir das cinzas

Em 1933, a Paramount entrou em concordata, isso permitiu que o estúdio se reestruturasse. Mesmo sob administração judicial ele ainda produzia filmes. A produtora se reergueu graças a atriz Mae West, que fechou contrato com a Paramount antes da falência e participou de grandes sucessos de bilheteria como: Uma Loira para Três (She Done Him Wrong, 1933)  e Eu não sou um  anjo (I’m No Angel,1933). Depois de dois anos, a empresa superou a crise.

O tempo fechou na Universal Studios

A grande depressão também afetou o Universal Studios que tinha uma cadeia de cinema modesta. Ao contrário das grandes produtoras, ela não tinha teatros muito luxuosos, eles eram em pequenos bairros e casas rurais. A modernização desses lugares em plena crise de 1929 não era nada fácil, o que levou a Universal vende-los.

A falta de dinheiro era tão grande que para produzir o filme Show Boat (1936) a produtora teve que pedir emprestado US$ 750000 milhões de dólares à Standad Capital. Em troca, a empresa poderia comprar uma participação majoritária no estúdio. A Universal também contou com a ajuda de uma grande estrela para sair da falência. A atriz e cantora Deanna Durbin participou de filmes de grande sucesso, como Três Meninas Espertas (Three Smart Girls, 1936), sendo uma luz para a produtora em plena crise.

Anos difíceis para a Columbia Pictures

A lançadora da Homens de Preto (Men in Black,1997) também passou por tempos sombrios nos anos 60. Em 1966, a Colúmbia Pictures enfrentava uma intensa crise de bilheteria. Isso ocasionou a venda de um dos seus estúdios: o Sunset Gower. A crise financeira fez com que a produtora fizesse um acordo com a Warner Bros, em que ambas compartilhariam os estúdios em uma parceria chamada “The Burbnk Studios”.

Os bastidores da Colúmbia Pictures também foi alvo de um escândalo, envolvendo Begelman, um dos seus presidentes. Ele obteve ilegalmente US$ 40.000 de dólares forjando cheques destinados a despesas com atores. Apesar de estar envolvido nesse escândalo, ele produziu grandes sucessos, levantando a produtora da falência. Entre eles estão Tommy (1975),  Assassinato por Morte (Murder by Death, 1976) e Shampoo (1975). Em 1982, a Colúmbia foi comprada pela Coca Cola e depois pela Sony em 1989.

Um leão em crise

Em 2010, outro gigante do cinema também entrou em colapso. Mergulhada em dívidas e com alguns fracassos de bilheteria a então conhecida Metro-Goldwyn (MGM) declarou falência aos tribunais de Nova Iorque. A crise fez com que alguns de seus projetos mais rentáveis fossem suspensos como: 007- Operação Skyfall (Skyfall, 2012) e O Hobbit Uma Jornada Inesperada (An Unexpected Journey, 2012).

A proposta de reestruturação da empresa, que tinha uma dívida avaliada em mais ou menos US$ 4 bilhões foi baseada em um acordo feito com a produtora Spyglass Entertainmment. Ela comprou parte das ações da MGM e passou a dirigir a empresa para tirá-la da crise.

Uma crise faraônica

A ruína financeira também pode estar associada a produção fracassada de alguns filmes. Quem não se lembra do longa Cleópatra (1963), em que a rainha do Egito era interpretada pela grande diva do cinema, a atriz Elizabeth Taylor. Apesar do seu posterior sucesso, a 20th Century Fox Film não possui boas recordações dessa produção que quase a levou a falência.

Foi uma batalha épica gravar esse filme. Primeiramente, esse foi um dos longas mais caros do mundo com um orçamento de mais de US$ 40 milhões de dólares (equivalente a cerca de US$ 320 milhões de dólares hoje). A produtora também teve que lidar com diversos problemas. Um deles foi a doença de Elizabeth Taylor que atrasou as gravações em cerca de seis meses. O salário dela também era um valor bem salgado de US$ 1 milhão de dólares.

Além disso, a produtora teve que realocar suas gravações em Roma, para o estúdio de Pinewood, que ficava na Inglaterra. Para piorar a situação, o diretor Mamoulian foi demitido, deixando apenas 10 minutos de cena concluídos. Mankiewicz assumiu e tirou o filme da Inglaterra (que chovia muito e não se assemelhava ao Egito) e desconsiderou os 10 minutos gravados por Mamoulian. Foram, assim, cerca de 7 milhões de dólares pelo ralo. As últimas cenas foram gravadas no estúdio Cinecittá em Roma.

Com os sucessivos fracassos da produtora, Zanuck, fundador da Twentieth, convenceu os diretores da empresa que o atual presidente, Skouras, a administrou mal e assim ele conseguiu voltar a presidência novamente. Ao assumir tentou resolver o problema do filme Cleópatra.  O diretor tentou convencê-lo a dividir o longa em dois, mas ele não concordou. Finalmente em 1963 o filme foi lançado com um pouco mais de 4 horas e tendo aproximadamente 3 horas cortadas.

Viajando pelos bastidores das produtoras de filmes, percebemos que apesar do mundo do cinema se mostrar encantador e imponente, ele também possui seu calcanhar de Aquiles. A crise financeira é um vilão terrível, que pode tirar a chance de grandes produções desfilar pelo cobiçado tapete vermelho do universo cinematográfico.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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