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Os cinemas que acontecem no Nordeste
CINÉFILOS
23 jun 2014 | Por Jornalismo Júnior

Por Barbara Monfrinato ,
bmfmonfrinato@gmail.com

 

“Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto!”, escreveu o pernambucano Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A, em 1992. O apelo faz parte do “Caranguejos com cérebro”, manifesto do manguebeat, movimento cultural encabeçado por Fred, Chico Science e Renato L. Recife era na época a quarta pior cidade do mundo para se viver, e a resposta do manguebeat era simples: produzir ideias pop a partir da fertilidade do mangue. A imagem-símbolo dessa conexão: uma antena parabólica enfiada na lama.

Nessa onda de agitação cultural, o cinema ganhou gás e levou às telas Baile Perfumado (1996), o grande premiado do Festival de Brasília do ano. Conta a saga do libanês que conviveu com o bando de Lampião e registrou as únicas imagens que se tem do cangaceiro vivo. O filme é embalado por música manguebeat composta por gente das bandas Nação Zumbi, Mestre Ambrósio e Mundo Livre S/A.

Lampião Baile Perfumado cinema nordestino

Lampião (Luís Carlos Vasconcelos) em Baile Perfumado ao som de Chico Science

Já na equipe de Baile Perfumado é possível ver alguns dos nomes que têm feito o chamado “novo cinema pernambucano”: Paulo Caldas (Deserto Feliz) e Lírio Ferreira (Árido Movie) na direção, Hilton Lacerda (Tatuagem) no roteiro e na assistência de direção, Cláudio Assis (Amarelo Manga, Febre do Rato) e Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus, Era Uma Vez Eu, Verônica) na produção. A parceria entre Cláudio e Marcelo começou em 1993, quando fundaram com Adelina Pontual a produtora Parabólica Brasil (lembrou da parabólica enfiada na lama?), responsável pela realização dos três longas-metragens de Cláudio, todos com roteiro de Hilton.

Cláudio começou como ator e cineclubista em Caruaru (PE) e tornou-se conhecido por seu cinema de excessos, voltado à realidade social e à podridão humana. Desde o “amarelo velho, desbotado, doente” de Amarelo Manga (2003) até a exploração sexual de Baixio das Bestas (2007) e a poesia anárquica (ou vice-versa) no “Hellcife” de Febre do Rato (2012), tem um pé no mangue: “como dizia Chico Science, ‘de que lado você samba, de que lado você vai sambar?’. De que lado está seu cinema?”, diz ele. O manguebeat inclusive está em suas trilhas sonoras.

Marcelo é jornalista e estudou cinema na Inglaterra. Em 2005 lançou seu primeiro longa, Cinema, Aspirinas e Urubus, que retrata o sertão no contexto de 2ª Guerra Mundial e recrutamento de nordestinos para Soldados da Borracha. Foi destaque no mundo todo, participando do Festival de Cannes. Com o cearense Karim Aïnouz (O Céu de Suely, Praia do Futuro), fez mais dois filmes sertão adentro: Sertão de Acrílico Azul Piscina (2006) e o lindo Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009). Este último traz Irandhir Santos na pele (ou melhor, na voz) do geólogo José Renato, que, enquanto analisa a natureza local, também sente a dureza do sertão, do isolamento e do coração partido.

Kleber Mendonça Filho e o sucesso de O Som ao Redor

Prédios, classe média, relações familiares, afetivas, desigualdade, segurança; por entre tudo isso, o som. Em O Som ao Redor (2012), Kleber Mendonça Filho põe a cidade do Recife como cenário, lembrando outros como Gabriel Mascaro, Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro.

Som ao Redor

Irandhir Santos como Clodoaldo, segurança privado, em cena de “O Som ao Redor”

Fã de John Carpenter, Monty Python e De Sica, Kleber atuou como crítico antes de fazer cinema e conquistar mais de 100 prêmios. Seus curtas se destacaram nos anos 2000. As temáticas iam de relacionamento à distância (Noite de Sexta, Manhã de Sábado) até mudanças climáticas surreais (Recife Frio) e eletrodomésticos e donas de casa (Eletrodoméstica). O Som ao Redor foi seu primeiro longa de ficção. Aplausos internacionais e indicação do Ministério da Cultura para concorrer no Oscar de 2014 são algumas das conquistas que colocam a obra como a maior repercussão do cinema nacional nos últimos anos.

Kleber Mendonça Som ao Redor

O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho


Cinema, literatura, música e cultura popular

A literatura inspirou várias produções do cinema nordestino: Clandestina Felicidade (1998), adaptação do conto “Felicidade Clandestina” de Clarice Lispector, por Marcelo Gomes; Soneto do Desmantelo Blue (1993), de Cláudio Assis, sobre o poeta Carlos Pena Filho. A poesia de João Cabral de Melo Neto foi matéria-prima para o curta Recife de Dentro para Fora (1997), de Kátia Misel, que mostra o Capibaribe do poema “Cão sem Plumas”, e para Morte e Vida Severina em Desenho Animado (2010). O livro Big Jato (2013), do cearense Xico Sá, será filmado por Cláudio Assis.

A relação com a música vem lá do manguebeat. Segundo Kleber Mendonça, ambos têm em comum a crítica social e “essa coisa de falar de coisas universais sem nunca ter vergonha ou querer esconder o ambiente e a maneira regional de ver as coisas”.

Chico_Science e Nação_Zumbi

Chico Science & Nação Zumbi, expoente do manguebeat

O samba de Cartola está no documentário de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, Cartola – Música para os Olhos (2006). Maracatu, Maracatus (1995), curta de Marcelo Gomes, homenageia o estilo. Karina Buhr, artista baiana, participou da premiada trilha de Era Uma Vez Eu, Verônica (2012) e aparece no filme:

“Lendas urbanas” inspiraram A Menina do Algodão (2003), de Kleber Mendonça Filho e Daniel Bandeira, sobre a garotinha morta que aterrorizava banheiros de escolas, e A Perna Cabiluda (1997), de Marcelo Gomes, sobre a assombração das ruas do Recife.

O filme-documentário

Gabriel Mascaro possui obras consistentes como Um Lugar ao Sol (2007), com moradores de coberturas, e Doméstica (2012), que mostra o trabalho doméstico no ambiente familiar. Com Marcelo Pedroso, fez o documentário KFZ-1348 (2008), que vai atrás das histórias que viveu um fusca durante 40 anos. Outros importantes são O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas (2000), do paraibano Paulo Caldas, Rio Doce/CDU (2011), de Adelina Pontual, e Porta a Porta – A Política em Dois Tempos (2009).

Doméstica Gabriel Mascaro

Doméstica, de Gabriel Mascaro


Pernambucano, nordestino, brasileiro, universal?

Muito se fala em “novo cinema pernambucano”, que ainda tem os premiados Daniel Aragão e Marcelo Lordello. Hilton Lacerda não gosta do termo: “parece arrogância de estado”. O que esses filmes têm em comum, para alguns, são a visão periférica e a ousadia. Ou se fala em “novo cinema nordestino”, vide Cine Holliúdy (2013) e o “cearensês” de Halder Gomes. Ou dirão que, sendo o cinema arte, é universal. Nome que seja, é cinema que merece ser visto e discutido antes pelo Brasil que pelos estrangeiros.

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