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Os desafios das traduções literárias
Na Estante
05 mar 2014 | Por Jornalismo Júnior

“Nonada!”. É assim que começa “Grande sertão: veredas“, a obra prima de Guimarães Rosa. Se a leitura desse romance já é um desafio aos falantes de português, o tradutor tem um trabalho hercúleo para verter a obra, repleta de neologismos e simbolismos, para outro idioma que tem estruturas linguísticas completamente diferentes. O que definiria, então, uma boa tradução?

Para Vanessa Barbara, tradutora de títulos como “O Grande Gatsby” (F. Scott Fitzgerald, Cia. das Letras, 2011), a resposta é “um texto que seja o mais fiel possível ao estilo, ao ritmo, às ideias e às construções do original, mas sem ser literal demais, e que tente preservar o máximo possível”. Um bom profissional, portanto, precisa ter um amplo domínio das duas línguas com as quais trabalha, além de criatividade para conseguir reescrever o texto.

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“The Great Gatsby” já foi adaptado, pelo menos, oito vezes para o português. Fotos: Divulgação

Apesar disso, como boa parte das obras literárias explora as possibilidades linguísticas, com jogos de palavras, trocadilhos e ironias, o tradutor precisa fazer escolhas sobre priorizar sentido, ritmo ou estilo para manter a elegância e a coesão da obra. “Existe liberdade [de interferência no texto original] na medida em que é preciso adaptar muitas coisas que, do contrário, ficariam truncadas ou incompreensíveis. É preciso saber dosar a mão, e isso só se consegue com a prática e a leitura”, diz.

O trabalho do tradutor não se restringe à leitura do livro. Além do conhecimento das línguas, o profissional precisa buscar os livros de apoio já disponíveis sobre a obra. “O tradutor deve procurar o máximo de referências possíveis, e o Google está aí para isso”, afirma Vanessa. No caso da tradução de um clássico como “O Grande Gatsby“, por exemplo, a tradutora diz que a introdução e as notas da edição em inglês da Penguin serviram como um bom material de apoio para tirar dúvidas.

Desafios de tradução na prática

Versões em inglês e português, respectivamente, de “Grande Sertão: Veredas”. Foto: Divulgação

Mesmo com as diversas práticas de tradução, estudos e material para pesquisa disponível, algumas obras têm se mostrado um desafio aos profissionais ao longo de décadas. Os títulos de Guimarães Rosa ainda encontram dificuldade de serem reescritos em outra língua, principalmente devido aos neologismos e jogos linguísticos característicos da prosa rosiana. “The devil to pay in the backlands“, a única versão no inglês de “Grande sertão: veredas”, feita na década de 60 por James L. Taylor e Harriet de Onís, foi considerada um fracasso. Na edição, o “nonada”, por exemplo, virou “it’s nothing”.

Também repleto de neologismos, a literatura experimental (mas clássica) do irlandês James Joyce mostrou-se igualmente um caso particular de tradução. Joyce usou 65 línguas e dialetos – algumas inclusive distorcidas – na criação de Finnegans wake, criando um idioma praticamente próprio da obra. Em português, Finnicius Revém ganhou uma tradução parcial por Augusto e Haroldo de Campos e uma integral, após 40 anos de estudo, por Donaldo Schüler.

A frase de abertura da obra de Joyce – “riverrun, past Eve and Adam’s, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs” – destoa significativamente nas duas versões: “riocorrente, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía, devolve-nos por um commodius vicus de recirculação devolta a Howth Castle Ecercanias”, na dos irmãos Campos, e “rolarrioanna e passa por Nossenhora d”Ohmem’s, roçando a praia, beirando ABahia, reconduz-nos por cominhos recorrentes de Vico ao de Howth Castelo Earredores”, na de Schüler.

Por fim, a obra-prima de Lewis Carroll, “Alice no país das maravilhas“, originalmente escrita em inglês, já ganhou mais de dez traduções diferentes no português. A dificuldade do trabalho se dá pelo fato de que a obra, típico exemplar de literatura nonsense, tem poemas rimados, trocadilhos datados, incompreensíveis até para os falantes de inglês moderno.

Por Camila Berto Tescarollo
berto.camila@gmail.com

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