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Os dois lados de Durval Discos
CINÉFILOS
29 maio 2012 | Por Jornalismo Júnior

À primeira vista, Durval Discos (Brasil. 2002. 96 min.) é um filme nostálgico, dedicado às lembranças de uma época quase esquecida em que a MPB embalava a juventude e os discos de vinil eram a tecnologia mais avançada no comércio e coleção da produção musical. Todos os indícios apontam para uma humilde homenagem à música brasileira, aos moldes de Alta Fidelidade (High Fidelity. EUA. 2000. 107 min.), com diversas referências, uma divertida aparição da Rita Lee e uma seleção musical louvável, com Jorge Ben, Zé Rodrix, Tim Maia e os inesquecíveis versos “Eu ia lhe chamar enquanto corria a barca” dos Novos Baianos.

O filme já começa inovando na apresentação dos créditos, que aparecem incorporados a máquinas de fliperama, camisetas e placas à medida que a câmera passeia pela Rua Teodoro Sampaio, um dos redutos musicais da paulistanidade, durante uma cena inicial de quase 4 minutos sem cortes, que termina em frente à Durval Discos, pequena loja especializada no culto aos discos de vinil.

Seu dono, Durval (Ary França), é um sujeito preso ao passado glorioso dos long play’s. Seu cabelo grande e alguns trejeitos denunciam sua vontade de viver para sempre a juventude dos anos 60/70, enquanto ele alimenta a esperança de que seus amados discos não sejam totalmente suplantados pela crescente indústria dos CDs. Esse aspecto é bem representado através dos diálogos com alguns dos clientes de sua loja, que, apesar de soarem artificiais, pontuam bem a angústia do vendedor que vê clássicos serem esquecidos nas lojas poeirentas enquanto os novos consumidores buscam apenas os práticos CDs. “Você não quer levar esse do Jessé? Lembra do Jessé?” Pergunta ele a cada cliente que deixa sua loja, fazendo do cantor de sucessos como “Porto Solidão” e “Estrelas de Papel” o símbolo maior de sua nostalgia.

Durval divide a casa e a loja que dá nome ao filme com sua mãe, Dona Carmita (Etty Fraser), uma senhora cada vez menos capaz de dar conta dos assuntos domésticos, embora ainda muito apta a se meter na vida do filho. Incomodado com a forma decadente de sua mãe na cozinha, que já não faz o mesmo feijão de outrora e até mesmo se esqueceu da receita do doce de ovo queimado que ele tanto adora, Durval sugere que eles contratem uma empregada.
Aí começa a transformação do filme que passa de uma pretensa e suave comédia para um drama psicológico recheado de nonsense.

Por encantar Durval com sua beleza e aceitar trabalhar por preço risível, Célia (Letícia Sabatella) é contratada para ocupar o quartinho nos fundos da casa e substituir a mãe nas tarefas domésticas. Porém, seu trabalho não dura muito tempo e ela some sem dar explicações, deixando uma garota, a Kiki (Isabela Cuasco), encontrada dormindo no quarto da empregada.

Participação especial de Rita Lee no filme

O aparecimento de Kiki representa o ponto de ruptura da história, o momento em que as coisas deixam de fazer sentido e os personagens passam de leves caricaturas a sujeitos atormentados. Durval e Carmita, assim como o espectador, não fazem ideia de quem ela seja, nem de sua relação com a empregada desaparecida. Tudo o que sabem é que ela pensa estar na fazenda de uma certa Tia Clara e que ela é apaixonada por cavalos. O encanto por Kiki é tanto, que a casa, no meio de São Paulo, em que os únicos animais são os ratos (“Olha, o Mickey!”), é transformada numa fazenda imaginária apenas para agradá-la. No entanto, as ilusões começam a fugir do controle quando Durval e a mãe descobrem a verdade sobre a garota e escolhem levar as ilusões a sério demais.

É inevitável comparar a virada da narrativa com a virada do lado A para o lado B dos LPs. Talvez a mensagem fosse essa mesmo, mas o modo como o lado A da história, o das melhores composições, das melhores músicas, é solenemente insignificante para o seu lado B quebra a harmonia da obra como um todo. Faz com que ele não pareça um trabalho único, mas a demonstração de um repertório que não funciona como coletânea. Faz de Durval Discos uma antologia que une duas fases distintas de um compositor sem um transição entre elas. E deixa o espectador desavisado sem saber se dança o pop’n blues brasileiro ou se espera tenso por um final obscuro.

Fotos: Divulgação

Mateus Netzel
mateusnetzel@gmail.com

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