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Os mortos de Contestado ainda falam
CINÉFILOS
26 nov 2012 | Por Jornalismo Júnior

Em tempos de guarani-kaiowá, faz bem revisitar outra das numerosas manifestações de luta pela terra na história do Brasil. O Contestado – restos mortais (idem, 2012) busca reavivar um capítulo, ocorrido no início do século 20, dessa relação de conflitos e tragédias anunciadas – mas nunca antecipadas pelo poder público de modo a preveni-las – entre o povo e o chão pelo qual reclama posse.

O filme traz uma caracterização competente dos diversos elementos que compuseram o conflito, como seu caráter místico, messiânico, de lideranças ora espirituais, ora disciplinadoras, a presença do exército, já (após Canudos) experiente em sufocar insurreições que ameaçassem a ordem que a recém proclamada – e já tão desigual – República pretendia impor. Expõe ainda aspectos que acredito não serem senso comum sobre essa disputa, como a questão racial (era, afinal, essencialmente uma luta de caboclos contra coronéis) e a defesa de interesses insuspeitados pelos livros de história menos críticos, como os do capital estrangeiro, personificados na ferrovia e na serralheria construídas no sul.

Marcante na memória dos catarinenses e paranaenses, mas pintada em tons mais descorados na de brasileiros de outras regiões, é mais conhecida por sua comparação ao massacre imortalizado no imaginário nacional por Euclides da Cunha, ao arraial de Canudos. Na verdade, a Guerra do Contestado durou mais tempo (quatro anos) e matou mais gente (20 mil pessoas) do que o conflito que a precedeu – o documentário narra o episódio em toda sua força, relevância e tragicidade.

O que pode ser interpretado à primeira vista como feito nos moldes mais tradicionais logo se desconstrói quase por inteiro diante do espectador. A expectativa pela convencionalidade é engendrada nas primeiras cenas: estão presentes os depoimentos de historiadores, de descendentes de famílias que tomaram parte no combate e de jornalistas; todos posicionados em fundo preto,com tomada fechada nos rostos de quem fala.

A quebra na narrativa padrão dos documentários históricos acontece pela inclusão que Sylvio Back faz de cenas em que são apresentados 30 médiuns recebendo espíritos ao que tudo indica vitimados pela guerra. A interrupção da estrutura padrão tem um efeito desconcertante na montagem, que com isso ganha descontinuidade. São ainda depoimentos, mas de outro teor – dor e raiva, não contadas, mas expressas nas lágrimas e gemidos de quem supostamente esteve lá. Isso causa bastante incômodo e resulta num olhar inusitado (e arriscado): não é simples rastrear o propósito do diretor ao entrecortar a narrativa principal. Mas talvez seja essa mesma a intenção. A de trazer para a tela o retrato multifacetado de um episódio que, procura lembrar, não está pacificamente sepultado, não repousa estaticamente no passado, mas tem sequelas sociais, e ao que indica, espirituais.

Por Juliana Lima
juliana.domingosdelima@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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