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Os muros de “Os despossuídos”
SCI-FI
15 maio 2019 | Por Laboratório

Por Maria Eduarda Nogueira
mariaeduardanogueira@usp.br

Imagem: Yasmin Oliveira/ Audiovisual – Jornalismo Júnior

Ursula K. Le Guin foi considerada pelo The New York Times como a maior escritora de ficção científica enquanto estava viva. Em entrevista para o mesmo jornal, porém, ela diz não querer ser reduzida ao título de escritora de sci-fi (abreviação de “science fiction”). Le Guin faleceu no começo do ano, mas deixou para trás um legado incrível de livros que vão além de mundos imaginados e realidades paralelas. Um dos aspectos mais marcantes de sua obra é justamente a crítica social, aproximando o sci-fi da sociedade.

Em “Os despossuídos” (Aleph, 2017), dois mundos completamente diferentes mantêm uma relação um tanto quanto hostil dada à diferença de suas configurações socioeconômicas. Enquanto o planeta Urras coexiste com a desigualdade e as relações baseadas no capital, Anarres é uma ex-colônia anarquista baseada nos ideais comunitários de Odo (líder anarquista). Até mesmo o uso de pronomes possessivos e títulos como “doutor” e “senhor” são dispensáveis para aqueles que estão acostumados a partilhar tudo de forma igualitária.

É nesse contexto que o brilhante físico Shevek surge. Habitante de Anarres, extremamente reservado e ávido por conhecimento, o cientista é enviado a Urras com o objetivo de acabar com a hostilidade que permeia os dois planetas-irmãos. Shevek deseja quebrar os “muros ideológicos” que dividem os urrastis e os anarrestis, mas a realidade com a qual se depara é bem mais complexa do que aparenta. Afinal, as coisas de longe são sempre mais belas.

“— Quando se vê uma coisa por inteiro, a distância ‒ ele disse ‒, ela sempre parece bonita. Planetas, vidas… Mas, de perto, um mundo é feito todo de terra e pedras. E, dia após dia, a vida é um trabalho árduo, você se cansa, perde a perspectiva. Você precisa da distância, do intervalo. O jeito de ver como a terra é bela é vê-la como a lua. O jeito de ver como a vida é vê-la da perspectiva da morte.”

O entendimento do título é essencial para a compreensão da obra como um todo. Afinal, ele sintetiza a diferença primordial entre os dois planetas-irmãos. Embora o real conceito de “despossuídos” só possa ser compreendido com a leitura completa do livro, uma passagem é marcante nesse sentido ‒ e, como é característica dos clássicos, pode ser aplicada aos dias de hoje:

“Porque nossos homens e mulheres são livres… por não possuírem nada, são livres. E vocês, os possuidores, são possuídos. Vocês estão todos presos. Cada um sozinho, solitário, com o monte de coisas que possui. Vocês vivem na prisão, morrem na prisão. É tudo que consigo ver nos seus olhos… o muro, o muro!”

O livro tem uma divisão de capítulos interessante: os ímpares são dedicados à vivência de Shevek em Urras; os pares, em Anarres. Com isso, a autora consegue oferecer ao leitor um perfil extremamente detalhado da personalidade e formação de seu personagem principal. O físico vive um conflito existencial constante por não se sentir pertencente ao lugar onde vive. Mesmo em sua relação romântica com Takver ‒ bióloga marinha que torna-se sua parceira ‒, é como se ele estivesse constantemente deslocado.

A obra, contudo, peca por não conseguir criar empatia entre o leitor e o personagem principal. Embora a construção de Shevek tenha sido impecável, o físico não cativa. Em outros livros, tal característica pode ser dispensável. Em “Os despossuídos”, no entanto, um livro que trata de ideologia e condições sociais, é essencial que o público se identifique um protagonista. Seja para concordar com ele, ou não.

Quando o cientista chega em Urras, o choque de realidade é ainda maior. Não era um planeta horrendo. Muito pelo contrário. A tecnologia avançada, as árvores e os animais se diferenciavam muito das paisagens desérticas de Anarres, que infelizmente lidava com péssimas condições ambientais e reduzida fauna e flora.

O pensamento, porém, é extremamente diferente. Logo no primeiro contato de Shevek com os urrastis, Le Guin deixa clara sua intenção de crítica social. Os habitantes do outro planeta não reconheciam mulher e homem como seres iguais, o que pode ser observado na passagem a seguir:

“— Não há mesmo nenhuma distinção entre o trabalho do homem e o trabalho da mulher?

— Bem, não, isso parece uma base muito mecânica para a divisão do trabalho, não é? Uma pessoa escolhe o trabalho de acordo com seu interesse, seu talento, sua força… O que o sexo tem a ver com isso?

[…]

— Mas a perda de… de toda a feminilidade… de delicadeza… e a perda da dignidade masculina… Certamente o senhor não pode fingir, no seu trabalho, que as mulheres sejam iguais ao senhor? Em física, matemática, no intelecto? O senhor não pode fingir estar sempre se rebaixando ao nível delas!”

O encanto com Urras, no entanto, é inversamente proporcional ao tempo em que o físico passa no território. Onde estava a desigualdade social que tanto comentavam em Anarres? Onde estavam os pobres? Aos poucos, Shevek enxerga que foi inserido numa bolha. Por estar hospedado numa universidade e conviver apenas com intelectuais, não tinha contato com a maior parte da população, que tinha condições bem diferentes. Esse processo de percepção da realidade é construído de maneira brilhante, sendo o momento em que o leitor mais se aproxima do protagonista.

A primeira edição da obra foi publicada em 1974, durante a Guerra Fria, sendo profundamente influenciada por esse contexto geopolítico. Em analogia, Urras representa o capitalismo e Anarres, o comunismo ideal ‒ embora a sociedade se denomine anarquista, suas engrenagens baseadas na percepção de comunidade se aproximam muito mais daquele primeiro sistema.

Além disso, o livro também lida com duas noções opostas: a de individual e a de coletivo. Enquanto os anarrestis dependem do altruísmo e do ideal de coletivo para sobreviver, os urrastis se baseiam em seus interesses pessoais ‒ o que explica a extrema desigualdade.

“Tinha visto com frequência essa ansiedade nos rostos dos urrastis, e isso o intrigava. Seria porque, por mais dinheiro que tivessem, sempre se preocupavam em ganhar mais, a fim de não morrerem pobres? Seria culpa porque, por menos dinheiro que tivessem, sempre havia alguém mais pobre?”

A ideia do muro explorada em todo o livro se referia, literalmente, ao muro físico que dividia a cidade de Berlim. Trazendo para o contexto atual, essas barreiras não se apresentam de forma física. Em um momento que Shevek está na universidade e fica sabendo do sistema de admissão na instituição, pode-se perceber com clareza o intuito de Ursula ao criticar tais divisões, que se apresentam das mais variadas formas ‒ nos âmbitos sociais, econômicos, políticos…

“— Vocês colocam mais uma tranca na porta e chamam isso de democracia”

Embora seja fácil (e justo) criticar um mundo capitalista em que a desigualdade social é regra, a autora toma cuidado em não supervalorizar Anarres. A ex-colônia não é vista como um paraíso. Na verdade, a própria vontade de Shevek de ir à Urras representa uma das falhas de seu planeta natal, que não é capaz de produzir ciência e tecnologia o suficiente, dado os problemas de abastecimento e também ambientais que assolam os anarrestis.

Em certo momento, a própria concepção de “coletivo”, idealizado pela líder Odo, é criticada pelos habitantes de Anarres. Há, de certo modo, pressão social em se sacrificar em prol de outras pessoas. Isso é bem explícito no momento em que a parceira romântica de Shevek, Takver, vai para o outro lado do planeta a fim de ajudar no momento da crise causada pela seca.

Um aspecto decepcionante do livro é o final inconclusivo. O leitor pode apenas imaginar o que acontecerá em seguida, em ambos os mundos, mas não recebe nenhuma pista, pois tudo parece voltar ao que era antes. Talvez esse fosse o objetivo da autora ‒ expôr a ciclicidade dos acontecimentos ‒ mas certamente é decepcionante para o leitor que viveu a experiência de um livro com teor revolucionário.

Apesar de ter sido escrita na década de 1970, a obra de Ursula K. Le Guin é extremamente atual, principalmente no ponto em que tange às diferenças sociais e econômicas que parecem reger todas as relações contemporâneas. Ao compreender a dinâmica entre Urras e Anarres, é possível entender até que ponto os ideais de “individual” e “coletivo” podem mudar uma sociedade. Para melhor. Ou pior.

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