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Observatório | Arqueologia egípcia avança com a recente descoberta de 59 sarcófagos
História da Ciência
11 out 2020 | Por Por Sarah Lídice (sarahlidice@usp.br) e Theo Sales (theo.carvalho@usp.br)

*Imagem da capa: Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito/Divulgação

O Ministério de Turismo e Antiguidades do Egito revelou, em coletiva de imprensa no sábado (03), a descoberta de 59 sarcófagos praticamente selados. O país, sítio arqueológico mais importante do mundo, atraiu olhares de todos os cantos ao exibir os resultados do trabalho desenvolvido por pesquisadores e arqueólogos egípcios vinculados ao Serviço de Antiguidades do Ministério. Após o período de suspensão das escavações em função da pandemia de covid-19, esses achados marcam o retorno das atividades.

Em setembro, o governo egípcio já havia anunciado pelo Facebook a descoberta de 13 sarcófagos nessa área de escavação, número que foi crescendo até a divulgação dos 59. Esses artefatos são importantes para a compreensão dos rituais funerários no Egito Antigo e podem abrir espaço para descobertas futuras.

O sítio arqueológico onde ocorreram as escavações fica na necrópole de Saqqara, ao sul da capital Cairo, o cemitério da dinastia de Mênfis há cinco mil anos. Essa região é uma das áreas arqueológicas mais importantes do Egito e suas tumbas são consideradas algumas das mais bem preservadas do país.

Na necrópole de Saqqara, além das tumbas, está localizada aquela considerada a primeira pirâmide do mundo, a Pirâmide de Djoser [Imagem: Reprodução/Flickr]

Mas não foi só o grande número de sarcófagos encontrados, praticamente selados e de altíssima qualidade em termos de ornamentação, que chamou atenção nessa descoberta. A maneira escolhida pelo governo egípcio para divulgá-la também causou grande rebuliço na internet. Alguns desses sarcófagos, selados há aproximadamente 2.500 anos, foram abertos em coletiva de imprensa, o que rendeu muitas polêmicas e memes.

 

O trabalho dos arqueólogos

Agora, os 59 sarcófagos passarão por análises e estudos para que mais informações possam ser extraídas. “A escavação é o trabalho que aparece mais, que é mais evidente, mas esse achado aí vai dar anos de pesquisa e de testes, umas décadas para investigar”, comenta o egiptólogo Antônio Brancaglion, professor de Arqueologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Acontece que o processo de escavação e abertura dos sarcófagos corresponde apenas a uma parte do trabalho dos arqueólogos. Por trás das câmeras, o pesquisadores passam grande parte do tempo nos laboratórios e bibliotecas buscando mais informações que ajudem a entender os achados. Decifrar os hieróglifos, realizar tomografias e outros testes para descobrir a idade do corpo, apreender o processo de mumificação, entre tantos outros estudos.

A partir desses conhecimentos os pesquisadores podem chegar a várias conclusões sobre as descobertas. Brancaglion fala, por exemplo, que é possível identificar pelo formato e pela decoração dos caixões como sendo do Período Tardio, mais especificamente da 26ª Dinas, que marca o final dos tempos dos faraós. 

Fato importante a ser notado é que a equipe responsável por essa escavação era composta inteiramente por egípcios, algo que não é tão comum no próprio Egito. Desde o início da arqueologia no país, as pesquisas foram comandadas por estrangeiros. “Agora, nos últimos 10, 15 anos, tem aumentado o número de egípcios arqueólogos formados pelo Serviço de Antiguidades e que têm produzido bastante resultados. Essa descoberta é um exemplo”, comenta José Roberto Pellini, professor de arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador da primeira missão brasileira no Egito.

Sarcófagos expostos em coletiva de imprensa no sábado (03) [Imagem: Divulgação/Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito]

A cultura por trás das múmias e dos sarcófagos

O processo de mumificação era um procedimento caro no Antigo Egito e restrito para os membros da elite. Sacerdotes, príncipes, princesas, burocratas entre outros membros da classe alta eram quem recebia esse tratamento após a morte. As demais pessoas, raras exceções, tinham seus corpos enterrados na areia normal, sem o privilégio de serem mumificados. 

“Normalmente essas múmias que encontramos são da nobreza e das pessoas diretamente ligadas ao Faraó. Nós estamos falando de um trecho muito específico da sociedade egípcia”, afirma o arqueólogo José Roberto Pellini.

Eram vários procedimentos para realizar a mumificação, desde retirar os órgãos e secar o corpo, até perfumá-lo e fazer rezas. Além disso tudo, ainda tinha os sarcófagos, onde esses corpos seriam guardados. Os caixões eram talhados, decorados e continham informações sobre os mortos, como seus nomes, suas famílias e o trabalho que faziam.

Para compreender o porquê desse processo todo é preciso entender que a visão que os egípcios tinham da morte era muito diferente da ocidental dos dias de hoje. Na concepção religiosa deles, era necessário preservar o corpo para que a “alma” pudesse retornar a ele. Pellini explica: “A morte no Egito Antigo é o esquecimento. Então, a destruição do corpo significa a morte. Porque se você destrói o corpo, ou apaga o nome do cidadão da tumba, você esquece dessa pessoa. Isso significa realmente a morte”. 

Apesar de o cinema normalmente retratar as múmias como “amaldiçoadas”, essa ideia não tem respaldo. O arqueólogo Antonio Brancaglion comenta que, na verdade, as múmias não tinham a ideia de “acordar” e perseguir os invasores, até por isso elas eram seladas em caixões. Porém, há um certo fundo de verdade por trás dessas histórias de “maldição” com relação a alguns fungos que se encontram nos caixões e nas tumbas e podem fazer as pessoas adoecerem ou, até mesmo, morrer.

Sarcófagos no Egito

Secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades, Mustafa Waziri, observa de perto um dos sarcófagos [Imagem: Divulgação/Ministério do Turismo e Antiguidades]

Sarcófagos abertos em meio à multidão

O Egito é um país economicamente dependente do turismo. Cerca de 12% do PIB nacional advém dessas atividades, prejudicadas pelas restrições impostas pelas pandemia. Segundo Pellini, a maneira “atrativa” como esses sarcófagos foram expostos estaria atrelada, justamente, à necessidade atual de o governo egípcio atrair o turismo para a região.

Aquilo foi uma coisa meio show, que era muito típico do século XVIII. Os séculos XVIII e XIX se caracterizaram por grandes encenações públicas de aberturas de sarcófagos e de alguns egiptólogos desenfaixando múmias para um público de elite, normalmente. Me lembrou muito essa cena”, ao comentar sobre um sistema em cascata que envolve a ideia de descoberta, a atenção da mídia, a geração de turismo, desenvolvimento econômico e a necessidade de novas descobertas.

Do ponto de vista científico, existem hoje diversos recursos — como raio-X, scanners e tomografias — que permitem a análise não invasiva das múmias, sem a necessidade de se abrirem os sarcófagos. Ferramentas adotadas inclusive pelo governo egípcio. Com a viralização do vídeo da abertura na internet, em que circulavam pessoas sem máscaras e luvas, as críticas giraram em torno dos possíveis problemas causados por aqueles ares milenares armazenados no sarcófago.

Os internautas podem exagerar, mas existe um fundo de razão, pela segurança tanto do próprio artefato e das múmia, quanto dos pesquisadores e pessoas ali envolvidas. Sarcófagos enterrados há mais de mil anos podem ser danificados por uma diferença de temperatura muito grande. O que deve ser feito, então, é um processo de acondicionamento em que o objeto vai gradualmente entrando em contato com uma outra atmosfera. Além de riscos em relação a existência de microrganismos que podem ser tóxicos. 

Agora, o destino desses 59 sarcófagos, depois dos processos de restauração e consolidação, será o Grande Museu Egípcio (ainda em construção), onde serão mantidos em salas com temperatura controlada.

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