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Os super filhotes e o poder da produção cinematográfica para o público infantil
CINÉFILOS
09 jun 2019 | Por Naomi Tarumoto de Almeida (naomi.tarumotoalmeida@usp.br)

Após confundir a estação do metrô, cheguei às pressas ao cinema; ainda sim, recebi mimos de café da manhã. A sala pouco iluminada e cheia de críticos de cinema: experientes, mirins e principiantes. Diferente de outras cabines, essa reunia jornalistas e crianças, comunicadores e comunicadorezinhos, em uma sessão que resgatava na alma de todo bom adulto ー ou jovem adulto ー aquela magia viva da poltrona, da salinha escura, da imagem em tela grande.

Antes do filme começar, o público daquela manhã assistiu a uma apresentação sobre a trajetória da série televisiva infantil Patrulha Canina (Paw Patrol)  “às telonas”: traduzida para mais de 35 línguas, vencedora de mais de 20 prêmios internacionais (4 deles, brasileiros) e ranqueada em primeira posição em programas pré-escolares no mundo, a combinação de entretenimento e aprendizado alcançou sucesso digno de cinema. Com animação e curiosidade, espectadores de todas as faixas etárias aguardaram pelo início da programação composta pelo longa de 44min e por dois episódios inéditos do seriado.

Os artistas mirins Lorena Queiroz e Pedro Miranda tiveram participação especial no conteúdo ao intermediarem a exibição do filme e dos episódios de modo divertido e interativo. Perguntas e comentários aos fãs do desenho sobre o personagem preferido ou à respeito de determinado trecho do filme, por exemplo, instigaram a participação mais ativa na sessão, o que foi crucial para prender a atenção dos pequenos, muitos em sua primeira vez no cinema. Apesar do espaço para comentar aspectos mais educativos e gerar pequenas reflexões de maneira leve e acessível às crianças, a contribuição dos atores acabou se restringindo apenas ao campo lúdico, sem que a exaltada dupla ”diversão e aprendizado”, que garantiu tantas premiações ao desenho, fosse evocada.

Quem tem criança em casa ou possui parentes de pouca idade já conhece: Rubble (Gabriel Martins), Rocky (Felipe Volpato), Skye (Gabriela Milani), Marshall (Renato Cavalcanti), Zuma (Yago Contatori), Everest (Giulia de Brito) e Chase (Daniel Figueira). O desenho, de fato, é muito popular entre as crianças e transmite valores importante para o desenvolvimento delas. Tanto no longa Patrulha Canina: Super Filhotes (Paw Patrol: Mighty Pups, 2018) como nos episódios novos, a cidadania é introduzida tanto por meio da preocupação com os espaços públicos quanto através do zelo pelo bem-estar na vida em sociedade. Esse conceito, inclusive, seja talvez a base das aventuras do personagem humano Ryder (Ítalo Luiz) e a turma de filhotes, que sempre buscam ajudar cidadãos em apuros e impedir que os planos pretensiosos do Prefeito Humdinger (Faduli Costa) atrapalhem o desfrute de um bem pela sociedade e garantir que os espaços de convivência estejam bem cuidados.

Assim, em cada trabalho ー nenhum “tão grande” e “nenhum filhote” “tão pequeno”ー  os personagens precisam desenvolver juntos estratégias de resolução de problemas: o público infantil aprende sobre a importância da amizade, trabalho em equipe e modos de desenvolver o raciocínio e as habilidades sociais. É interessante notar, ainda, como a rotatividade de liderança nas missões demonstra como sempre há lugar de destaque para todos, de acordo com as especialidades de cada um.

Há também no filme uma breve reflexão ao alcance do público alvo sobre sentimentos: Chase (Daniel Figueira), cãozinho responsável pela grande tarefa do enredo, sente-se desapontado pelas dificuldades encontradas ao liderar o grupo. Observando a situação, seus amigos transmitem-lhe palavras de persistência e apoio e que, contudo, não apagam o sentimento do filhote. É por esse caminho que o desenho inova. É na sinceridade do que acontece no campo do real que consegue trabalhar questões como essa com os pequenos.Chase poderia ter se animado imediatamente e resolvido o problema com os conselhos dos companheiros como ocorreria de modo ideal; mas, em vez disso, perdeu a autoconfiança por diversas vezes ao longo do filme até conseguir tomar uma atitude. Esse aspecto contribui para a formação das ideias de liderança e de autoestima enquanto processos e não simplesmente atributos recebidos magicamente por palavras motivadoras.

Além disso, ao final, a maneira como os filhotes lidam com a perda dos poderes é curiosa, ficam felizes pelo dia divertido que tiveram ao usar os encantamentos no trabalho e aceitam bem a volta às habilidades costumeiras. A narrativa demonstra à criança que se deve aproveitar os momentos excepcionais, como uma ida ao parque ou uma viagem diferente, sem exigir que durem para sempre; que a alegria não depende do incrível, não está nos superpoderes, mas na amizade, no companheirismo e em todas as coisas boas que compõem o dia a dia.

A série, no geral, apresenta uma problemática um tanto aguda: dos oito cães, apenas dois são fêmeas. No atual contexto de discussão da importância sobre representatividade feminina e sua importância para maior empoderamento das meninas, há uma demanda por mais personagens que as representem como heroínas tão capazes quanto os heróis. Os filhotes são tratados sem diferenças, cada um é valorizado por suas habilidades únicas, porém essa discrepância entre a proporção de meninas e meninos limita uma visão mais igualitária. As personagens femininas continuam com pouco espaço no mundo dos heróis.

As luzes se acenderam, a sala foi se esvaziando, mas a programação se estendeu para além da sala de cinema. Membros da Patrulha esperavam pelos fãs que quisessem um abraço e uma foto. Momentos depois, Lorena Queiroz também apareceu para conversar e fazer parte da lembrança de um dia especial para os convidados.

Na saída, após deixar a manhã de cinema no universo dos pequenos, segui para um início de tarde com um pensamento sobre qual seria a função das produções cinematográficas infantis e o que o público deveria exigir delas. Rir, refletir, inspirar? Construir, ensinar, divertir? Pais, tios, tias, irmãs e irmãos mais velhos são os responsáveis por levar até os espectadores mirins e principiantes o gostinho por uma sétima arte que diverte, emociona, discute e inspira.

É essa multiplicidade de trabalhos nos conteúdos infantis que se deve cobrar. Aliás, é a variedade de vivências e caminhos que se espera na formação de um cidadão saudável e consciente.

O longa tem estreia prevista para o dia 6 de junho no Brasil. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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