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Osmosis: A série que não deu ‘match’
SCI-FI
11 set 2019 | Por Mariana Catacci de Oliveira (mariana.catacci@usp.br)

Conhecer o parceiro perfeito, formar uma conexão eterna, finalmente encontrar a sua alma gêmea e viver o tão idealizado amor verdadeiro, tudo por meio da tecnologia. Essa é a premissa da série francesa Osmosis, mais um “original Netflix”, adicionado ao catálogo em março deste ano. A produção de Andrey Fouché busca investigar as possíveis consequências da mistura entre tecnologia avançada e a falibilidade dos sentimentos humanos, mas a execução mediana faz com que a série toda se pareça muito com um episódio longo e inferior do sucesso Black Mirror.

Osmosis conta a história dos irmãos Esther e Paul Vanhove, criadores de uma nanotecnologia e fundadores de uma empresa homônima à série. A trama se passa na fase de testes do dispositivo, um implante cerebral que coleta informações sobre o testador e as combina para encontrar o parceiro ideal cujas características sejam mais compatíveis. Abrem-se, então, diversas narrativas paralelas, inclusive sobre os testadores Lucas, Niels e Ana. 

Em uma primeira impressão, a ideia é boa, aborda questões atuais e questionamentos relevantes sobre o rumo da tecnologia, tornando-se muito atrativa para o público jovem que deseja cativar. No entanto, não é preciso assistir mais de dois episódios para perceber como a série peca em sua realização: o ambiente é tenso, mas não gera impacto algum com seus semi-conflitos e visual cansativo, ficando rapidamente entediante.

As múltiplas narrativas poderiam ter funcionado muito bem se não houvesse tantos problemas de coerência e se dialogassem melhor entre si. Muitas questões são abertas, mas poucas chegam a uma conclusão, histórias interessantes parecem se fechar rapidamente para dar lugar a enredos que se arrastam por muitos e muitos episódios.

 As personagens são instigantes, o testador Lucas é um homem gay e Ana, uma mulher gorda*, o que poderia ter sido muito bem explorado em termos de representatividade, mas a série acaba por apenas reforçar estereótipos ultrapassados, como a promiscuidade do homossexual e a inferioridade da mulher gorda. Já Paul, o segundo personagem mais evidente na trama toda, depois de sua irmã, não mostra desenvolvimento algum ao longo dos episódios e funciona apenas como mecanismo de narrativa. Mesmo assim, a produção insiste em arrastá-lo por vários minutos de cena.

Um ponto importante, mas pouco explorado, é a oposição entre os pontos de vista de Esther e de Paul quanto aos objetivos do implante. Enquanto o CEO preocupa-se com o propósito romântico do dispositivo, baseando-se em sua própria experiência enquanto usuário, a neurocientista dedica-se a estudar os efeitos do implante no cérebro para tratar a doença degenerativa de sua família. Além disso, temos Martin, inteligência artificial (IA) também criada por Esther e responsável por coordenar o funcionamento de Osmosis. Aprofundar o paralelo entre a mente humana e uma IA frente a uma mesma situação teria sido um grande bônus para o público de ficção científica, mas Martin só se faz, de fato, relevante, nos últimos minutos da série.

Restam, então, apenas várias dúvidas não sanadas (lá vem SPOILER): Quais foram as repercussões reais do coma de Paul em sua vida? Como Esther passará a viver com a sua nova descoberta? Por que Ana decidiu se infiltrar no programa? E por último, mas não menos importante, como a tecnologia impactou os testadores cujos implantes não foram alterados?

Os últimos episódios sugerem uma futura segunda temporada, o que não seria nada surpreendente vindo de uma produção Netflix, mas mesmo que próximos episódios esclareçam alguns pontos, Osmosis teria que melhorar bastante para cativar o espectador frustrado.

 

 * A palavra “gorda”, neste contexto, não carrega conotação pejorativa. Trata-se, apenas, de uma descrição relevante para a história da personagem, como qualquer outra característica física. Neste texto, o uso do termo tem como objetivo eliminar o estigma em relação a essa palavra.

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