Home Corpo e Mente Para além da vida e antes da morte
Para além da vida e antes da morte
Corpo e Mente
17 fev 2021 | Por Jorge Fofano (jorgefofano95@gmail.com)

Entre o mundo dos vivos e o submundo dos mortos, dois rios e um barqueiro. A alma, recém-liberta do corpo físico, começava o percurso pelo rio Aqueronte, onde se despojava de todos sonhos, desejos e deveres não realizados em vida. Pelo rio Estige, a alma alcançava o destino de seu descanso eterno no reino de Hades. Apenas Caronte, o barqueiro do deus do submundo, desbravava tais águas fantasmagóricas e, segundo a tradição funerária da Grécia Antiga, a ele devia sempre ser paga uma moeda, colocada na boca do corpo falecido, para que o serviço fosse executado. Uma vez completada a travessia, como por lei natural, não havia volta: não se escapava da morte. No entanto, a regra foi por vezes violada, como no caso dos heróis Orfeu, Dionísio, Enéas, Psiquê e Héracles. Para estes, o mundo dos vivos pôde novamente se revelar. 

Orfeu, Dionísio e os demais heróis não foram os primeiros homens a passarem por experiências de quase morte (EQMs) na história da humanidade – ainda mais levando-se em consideração que os questionamentos sobre o que há além da vida não foram exclusividade da mitologia grega – e, categoricamente, não foram os últimos: as experiências de quase morte pertencem também aos dias de hoje. Ganharam, inclusive, essa nomenclatura em 1975 por ocasião do livro A vida depois da vida do psiquiatra e psicólogo norte-americano Raymond Moody Jr.

Por consequência de condições médicas críticas, milhares de pessoas por ano relatam vislumbrar a travessia entre a vida e a morte. Quando se trata de EQMs, “a luz no fim do túnel”, o sentimento de comunhão com o universo, “a vida que passa diante dos olhos”, ou a percepção de levitar sobre o próprio corpo inerte são algumas das formas escolhidas pelos pacientes para tentar descrever o fenômeno. A consistência e intensidade dos relatos, repleto de imagens vívidas que ficam marcadas na memória pessoal, intrigam profissionais de diferentes campos da ciência, da psicologia à neuromedicina, que se veem muito longe de desvendar o tema. 

Estudos sobre as EQMs são relativamente recentes: datam da década de 1970 com a obra pioneira de Raymond Moody. No livro que se tornou um best-seller, o psiquiatra compila mais de uma centena de relatos de EQMs oriundas de morte clínica (um estado, diferentemente da morte encefálica, ainda passível de ser reanimado), unidos por similaridades contundentes como as descritas no parágrafo anterior. Para Moody, este comportamento era evidência suficiente de que havia uma vida além da vida, daí o nome de seu livro, e de que seus pacientes chegaram lá. Criticado amplamente em vários aspectos, por possuir uma  “forte carga espiritual” e inclinar-se em demasia ao paranormalismo, o trabalho de Raymond Moody teve pouco espaço na comunidade científica, desencorajando novas incursões no tema por aproximadamente cinco anos.

Coube ao Bruce Greyson, em conjunto com uma nova leva de pesquisadores, a retomada dos estudos sobre as EQMs. O pesquisador começou sua jornada na compreensão do fenômeno ainda na década de 1980, tornou-se cofundador da Associação Internacional dos Estudos de Quase Morte.  Em março de 2021, Greyson compilará conhecimentos dos seus 45 anos de estudos sobre EQMs na obra After: a doctor explores what near-death experiences reveal about life and beyond. Atualmente, ele ocupa a cátedra de medicina psiquiátrica na  Universidade da Virgínia (EUA) e é considerado o pesquisador norte-americano mais influente sobre o tema das EQMs.

Em entrevista à Jornalismo Júnior,  Greyson comenta sobre o ‘estado da questão’ décadas após o início de suas pesquisas. Segundo ele, as EQMs progrediram em aceitação na comunidade científica, ao menos entre aqueles familiarizados com a literatura e a pesquisa produzidas nos últimos tempos: “ainda existem, claro, controversas sobre as causas das EQMs, mas não restam dúvidas sobre a existência, frequência e impacto delas na vida das pessoas”. 

 

Evidências conflitantes e dificuldades metodológicas são os principais desafios para os cientistas

Mas que tipo de mecanismos neuroquímicos ou fisiológicos estariam por trás das experiências de quase morte? A ciência ainda patina ao responder essa questão. As hipóteses mais convencionais que vem sendo aventadas no esforço de elucidar o fenômeno relacionam-se a “alterações nos níveis de oxigênio e gás carbônico no cérebro, atividade elétrica residual no lobo temporal (área responsável pelo gerenciamento de memórias) ou em outras áreas, persistência de atividade elétrica mesmo após a parada cardiorrespiratória, ou  mecanismos cerebrais análogos ao sonho” explica Greyson. O uso de medicamentos usados para reanimação cardíaca e subprodutos do metabolismo do cérebro em processo de morte encefálica poderiam também estar ligados ao fenômeno. 

A cautela também é compartilhada por Beatriz Carunchio, doutora pela Universidade de São Paulo (USP), neuropsicóloga e especialista em experiências de quase morte.  Beatriz menciona que EQMs foram relatadas também por pacientes que receberam oxigenação ou que não estavam sob efeitos de qualquer medicamento – evidências que contradizem as especulações mais convencionais. Beatriz salienta que as novas perspectivas de pesquisa se baseiam na atividade de neurotransmissores durante o momento das EQMs: “como uma intensa liberação de endorfina no momento que antecede a morte, ou mesmo a participação de neurotransmissores como a serotonina, glutamato e endopsicosinas”. De todo modo, ainda faltam evidências consistentes que comprovem as novas especulações.

Cientistas que lidam com as EQMs relatam dificuldades na proposição de metodologias que deem conta de investigar o que se passa no cérebro humano durante a experiência. Com o avanço da tecnologia, técnicas de imagem e mapeamento do cérebro (ressonância magnética, emissão de pósitrons, eletroencefalograma etc.) tornaram-se opções valiosas para pesquisadores e médicos na investigação de possíveis funcionamentos neurológicos anômalos; outra estratégia empregada refere-se à organização de experimentos controlados com pacientes em condições críticas de saúde para determinar se eles conseguem perceber eventos e objetos, ainda que não estejam acordados. 

Como não se sabe se o paciente está passando pela experiência, por via de regra, os estudos usam uma abordagem retrospectiva, isto é, “o fenômeno é investigado após ter ocorrido, através do relato do paciente e através da mensuração de aspectos físicos ou psicológicos”, salienta Beatriz Carunchio.

 

 

[Vídeo: PSI Drops 1: 10 fatos sobre EQM/Reprodução: YouTube]

 

Uma das formas utilizadas para mensuração  dos aspectos físicos ou psicológicos das EQMs é a escala de Bruce Greyson. Criada em 1983 pelo psiquiatra, a ferramenta é, até hoje, largamente referenciada na literatura científica para a identificação dos fenômenos de quase morte. 

A escala é composta de 16 questões, divididas em quatro categorias, cada uma delas com quatro questões associadas: cognitiva (Você sentiu o tempo passar mais rápido?), afetiva (Você tem um sentimento de paz/felicidade?), paranormal (Cenas do futuro chegaram até você?) e transcendental (Você acredita ter encontrado algum ente místico?). Para cada questão, o paciente pode responder entre valores de zero a dois, sendo zero a intensidade mínima/sensação inexistente e dois, máxima. Ao final do questionário, o profissional afere uma pontuação que indica não só se o paciente passou ou não pela experiência, mas também a vivacidade com que ela foi sentida. 

 

A psicologia no entendimento do místico

Mais do que uma condição clínica diagnosticável, as experiências de quase morte são um estado de consciência alterado, complexo, no qual dimensões da cognição e da afeição coexistem com características espirituais e místicas. O que chama atenção é o fato de que luzes poderosas e interações com entidades de outros planos povoam o relato de uma base consistente de pacientes, independentemente da religiosidade e crença dos mesmos. Para a psicologia, deidades, orixás e símbolos santos são, na realidade, chaves de interpretação dos fenômenos e não explicações destes. 

“Ateus, agnósticos e pessoas sem religião também passam por EQMs. Outro ponto curioso é o fato de crianças pequenas, sem maturidade cerebral para compreender a morte, crenças ou o imaginário quanto a ela, também relatam EQMs bem semelhantes às dos adultos” – Beatriz Carunchio, psicóloga especialista em EQMs.

Quando analisou pacientes de diferentes nacionalidades, Beatriz encontrou resultados não menos intrigantes: é possível que determinadas visões sejam mais frequentes em uma população do que outra. De acordo com ela, a visão do túnel e da luz forte estão mais presentes em amostras norte-americanas e europeias, enquanto que para amostras brasileiras, os relatos mais comuns são a experiência fora do corpo, transformações no tempo e visitas a outros planos. Apesar dos resultados acusarem diferenças, não há qualquer indício de que fatores genéticos, tampouco culturais, possam estar relacionados à forma como as pessoas experienciam o fenômeno pelo mundo.

As experiências de quase morte são fenômenos vívidos com capacidade de repercutir por anos na vida da pessoa que dela participou, evidenciando um impacto psicológico significativo. Esse impacto pode ser tanto positivo quanto negativo, salienta a neuropsicóloga. Sendo positivo, as EQMs levam à redução do medo da morte, o ganho de um propósito da vida, ganho de empatia, a coragem para mudanças de crenças e valores e também do estilo de vida; como impacto negativo, estão a angústia, sentimento de alienação e “senso de realidade alterada que pode durar por anos”. Beatriz avalia que transtornos psicológicos como depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e o intenso sentimento de culpa ou vergonha podem se suceder às EQMs, ainda que positivas. 

Entre as dificuldades mais comuns sentidas por pessoas que passaram por uma EQM está a falta de compreensão com que familiares e amigos recebem os relatos do fenômeno. Sem que tenha a quem recorrer, o isolamento dos pacientes pode suscitar temores e a desconfiança sobre a própria saúde mental, além de outras consequências. Por isso, “o acolhimento digno do relato e o tratamento precoce de possíveis consequências desagradáveis pode fazer toda a diferença no prognóstico do paciente”, completa Beatriz.

 

Experiências de quase morte (Comunicação Visual - Jornalismo Júnior)

 

Sobre psicoativos, estados de consciência alterados e novas pistas sobre as Experiência de Quase Morte

Bruce Greyson publicou em 2019, em conjunto com mais 11 autores, um artigo intitulado Modelos neuroquímicos de experiências de quase morte: um estudo de larga-escala baseado na similaridade semântica de relatórios escritos. O estudo faz a compilação de mais de 600 relatos de EQMs e o uso de 165 substâncias alucinógenas. Perguntado sobre a que conclusões os pesquisadores chegaram, Bruce comenta que o composto ativo dimetiltriptamina (DMT) foi uma das drogas capazes de mimetizar as experiências de quase morte, da mesma maneira que “assistir um programa televisivo sobre guerras imitam a experiência de estar em combate”.

A ação do DMT no organismo, da mesma forma que o psicoativo ácido lisérgico (LSD) , decorre de sua capacidade de interagir com diferentes receptores cerebrais. A semelhança em termos de estrutura química com a serotonina possibilita ao DMT ligar-se aos neuroreceptores da classe 5HT, provocando alterações de humor e efeitos ansiolíticos; o DMT pode ligar-se, simultaneamente, a receptores de glutamato – responsáveis pelas  cognição, memória, sensações etc. – desencadeando, então, seus efeitos psicodélicos. Outra interação que vem sendo investigada é com relação aos receptores sigma-1, possivelmente atrelados a modulações nos sintomas da depressão. Vale salientar que o DMT é uma substância endógena ao corpo humano e já foi detectada, em pequenas quantidades, em regiões do cérebro e no sangue.

“Eu estava em transe, daqueles que fazem desaparecer a noção de tempo e espaço, que nos revela uma existência muito maior do que percebemos em estados normais de consciência”. Assim diz Guilherme, 30, ao relembrar umas das experiências que teve ao tomar ayahuasca em trabalho xamânico realizado na comunidade Céu do Vale, no interior de São Paulo. Ayahuasca (“cipó dos espíritos”) é um termo quíchua, língua predominante no Império Inca, possuindo outras nomenclaturas a depender de cada região e povo – na Amazônia, o uso secular da substância é compartilhado por mais de 70 povos originários. A bebida é feita a partir de uma extração com água fervente do cipó Banisteriopsis caapi e da Psychotria viridis (popularmente conhecida por chacrona). Retira-se dos vegetais dois compostos ativos: o DMT da Psychotria e inibidores da enzima monoamina oxidase (IMAO) próprios do cipó. Esses inibidores garantem que o DMT não seja degradado no organismo.

Guilherme toma o chá desde os 19 anos em busca de tratar o vício em cocaína e, de acordo com vários pontos do seu relato, demonstrou ter encontrado o caminho para mudar seus hábitos de vida devido ao uso religioso e terapêutico da substância.  

As respostas para as suas aflições teriam vindo a partir das “mirações”, as visões e alterações de estado de consciência proporcionados pela ayahuasca. “Esses momentos são muito pessoais e subjetivos, e nossos sentidos estão tão aguçados durante as mirações, que se torna algo inefável”, comenta Guilherme sobre a dificuldade de descrever o que se passa no momento do transe. De toda forma, a sua evocação da consciência alterada remete à sensação de paz, alguma espécie de transcendência, nos quais percebe contato com algo, alguém, ou alguma voz fora do plano físico. Longe de ser uma exceção, o relato de Guilherme dialoga com o de muitas pessoas que fazem uso da ayahuasca. 

A investigação dos relatos sobre o uso da ayahuasca e a ação do DMT permite a abertura de paralelos instigantes com as EQMs. Em ambos os casos, ainda que remetam a contextos completamente diferentes, relatam-se estados de consciência aguçados, difíceis de serem descritos, caracterizados por sensações de dissociação do ego, comunhão, tranquilidade, entre outros. 

A outra droga psicoativa a que Greyson faz referência é a ketamina. Medicação geralmente utilizada para induzir e manter o estado de anestesia, começou a ter seu uso recreativo popularizado ainda na década de 1970, em razão de seus efeitos sedativos e dissociativos. Para ativar esses efeitos, a ketamina atua junto ao neuroreceptor NDMA, alvo bioquímico de drogas analgésicas. Em outro estudo sobre a droga, desempenhado na Universidade de Cambridge, pesquisadores analisaram a atividade cerebral de ovelhas quando submetidas a uma alta dose de ketamina e perceberam que o cérebro delas parou completamente de emitir sinais, recuperando a oscilação normal somente minutos depois. Essa brusca alteração pode explicar como ocorre a mímica da ketamina com relação às EQMs. 

Segundo Greyson, o comportamento da ketamina  pode se tornar um modelo experimental seguro e reversível sobre a fenomenologia da quase morte, suportando hipóteses de que substâncias capazes de se ligar a algum receptor, análogas à ketamina – e que, portanto, atuam junto ao receptor NDMA – possam ser liberadas em situações de proximidade com a morte.

 

Consciência sem atividade cerebral e a ressignificação do que é morte

Os eventos particulares das EQMs testam conhecimentos aceitos e difundidos dentro da ciência. Um deles, seria o de que a consciência/mente está completamente contida dentro do cérebro, uma relação que parece incontestável na vida cotidiana, mas que não explicaria os relatos de milhares de pacientes pelo mundo afora na beira da morte. Considerar a hipótese da independência da consciência em relação ao cérebro em situações extremas como as EQMs abre margem para a rediscussão do que seria, então, a consciência em si. 

O entendimento de que o cérebro produz a consciência é um aspecto do materialismo científico ocidental, que entende ser a matéria a substância fundamental na natureza. Consolidada no século 19 com as descobertas de Darwin, essa corrente filosófica dominou a produção do conhecimento científico no século 20 e permanece como o paradigma do século 21. Críticos desse paradigma, como o próprio Bruce Greyson, aventam uma contradição: segundo o materialismo, o cérebro seria a soma de milhões de neurônios e, portanto, cada neurônio deveria guardar as propriedades do cérebro; contudo, um neurônio não pode sentir frio, raiva ou fome e não se sabe quantos neurônios são necessários para se formar o primeiro estalo de consciência. Dessa forma, a hipótese nega que hajam processos físicos presentes dentro do cérebro que o habilitem a criar experiências, percepções ou memórias.

Uma outra consequência do estudo das EQMs seria a redefinição do que se entende por morte. “Muitos neurocientistas estão inclinados à ideia de que a morte não seria um evento do tipo tudo-ou-nada que ocorre em um tempo específico, mas sim um processo sequencial” afere Greyson, abrindo a possibilidade de se determinar em qual momento a consciência para de existir. 

Laboratório
O Laboratório é o portal de jornalismo científico da Jornalismo Júnior. Apaixonados por curiosidades, nosso objetivo é levar a informação científica o mais próximo possível do público leigo. Falamos sobre saúde, meio ambiente, tecnologia, ficção científica, história da ciência, escrevemos crônicas, resenhamos livros, cobrimos eventos e muito mais!
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*