Home Eu Fui Pela liberdade e 20 centavos! – Entenda sobre o movimento que parou São Paulo e promete mudar o Brasil
Pela liberdade e 20 centavos! – Entenda sobre o movimento que parou São Paulo e promete mudar o Brasil
Eu Fui
17 jun 2013 | Por Jornalismo Júnior

De repente está esse caos. Jogaram pedra na Geni, tacaram o pato pata aqui pata acolá e a polícia mandou gás lacrimogênio na cara de todo mundo. Mas o que aconteceu? Como começou? Estamos aqui pra responder, uma pequena luz. Só temos que ter em mente o seguinte: o estopim de algum evento histórico nunca é algo isolado, é a culminação daquilo e de muito mais. A culminação de um silêncio que termina num grito agudo que ecoa pelas ruas.

se a tarifa não baixar

Imagem de capa de Passe Livre São Paulo, organização responsável por mobilizar a maior parte dos manifestantes para a causa.

Durante os protestos realizados contra o aumento da passagem no começo do mês de junho foram utilizadas forças de repressão tão grandes que as pessoas começaram a perceber a falta de liberdade que estava latente no nosso dia a dia. O que era algo pequeno e pontual logo foi crescendo e agora toma forma. É possível de estarmos vivendo um momento histórico – que nossos filhos estudarão na escola. Segue abaixo um breve resumo de como tudo começou, desde o primeiro ato contra o aumento da passagem até agora.

Primeiro protesto contra o aumento da passagem

quinta-feira, 6 de junho.

O primeiro protesto teve a presença de 2 mil pessoas, segundo informações da Polícia Militar. Organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL), o ato teve início com uma concentração em frente ao Teatro Municipal. Durante o trajeto os manifestantes fecharam as avenidas 9 de Julho e 23 de Maio com o uso de pneus e lixo em chamas. Como resposta a polícia lançou bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e balas de borracha levando os manifestantes a se dispersarem. Alguns transeuntes que se dirigiam ao Terminal Bandeira também foram atingidos pelo efeito do gás.

Foto: Uol

Durante o trajeto os manifestantes fecharam as avenidas 9 de Julho e 23 de Maio com o uso de pneus e lixo em chamas. Foto Uol

Depois da dispersão inicial a manifestação se reuniu novamente, agora na Avenida Paulista, onde se deu mais um confronto com a polícia. A tropa de choque fechou a avenida após alguns manifestantes tentarem fechar a via (sim…) e atiraram bombas de gás e balas de borracha nas pessoas. Houve então depredação e a dispersão dos manifestante em direção ao Bairro do Paraíso.

Algumas pessoas tentaram se refugiar no shopping Pátio Paulista. Pedestres que passavam pelo local cobriam o rosto para se proteger das bombas de gás lacrimogênio. Um carro que estava em exposição no estabelecimento teve um vidro quebrado. Ao indagar para polícia se as pessoas poderiam sair do local sem que houvesse uso de força de repressão, um dos manifestantes foi detido. Ao todo, 15 pessoas foram detidas pela polícia.

Segundo protesto contra o aumento da passagem

sexta-feira, 7 de junho

Como resposta a repressão utilizada na quinta-feira, foi marcado um segundo ato contra o aumento da passagem na sexta, em que compareceram 5 mil pessoas, de acordo com informações da Polícia Militar. A concentração ocorreu no Largo da Batata, de onde os manifestantes seguiram para a Marginal Pinheiros. A manifestação seguiu pacífica e sem incidentes até que a tropa de choque entrou em ação quando as pessoas tentaram fechar vias da Marginal.

Foto: Moraes/Uol

Nesse dia a repressão foi mais pesada do que no primeiro protesto. A polícia alegou que o motivo para o início da repressão foi a tentativa de bloqueio da marginal. Foto Moraes/Uol

O movimento se dirigiu para a praça Panamericana onde foram dispersados pela polícia entre ruas menores até que se reuniram novamente no Largo da Batata. Após isso, muitas pessoas se dirigiram para a estação de metrô da Faria Lima, mas a polícia fechava as suas portas. Isso gerou um novo confronto: Vidros da estação foram quebrados.

Nesse dia a repressão foi mais pesada do que no primeiro protesto. A polícia alegou que o motivo para o início da repressão foi a tentativa de bloqueio da marginal. Um membro da imprensa chegou a ser ferido por estilhaços de bomba de efeito moral, de acordo com reportagem do Uol.

Terceiro protesto contra o aumento da passagem

terça-feira, 11 de junho

bomba de gás vencida

“Atenção, oferece perigo se utilizado após o prazo de validade”

O terceiro protesto começou na avenida Paulista. Com a presença de 12 mil pessoas ela saiu da Paulista, passou pela Liberdade, pela praça da Sé, foi para o terminal Pq Dom Pedro II e voltou para a Paulista.

O movimento saiu da Paulista seguindo a rua da Consolação de maneira tranquila. Até o terminal do Parque Dom Pedro II não houve grande tensão. Manifestantes ofereceram flores à tropa de choque durante o trajeto. Já no Parque Dom Pedro II o movimento ficou parado por alguns instantes até que alguns manifestantes tentaram invadir o terminal e colocaram fogo numa caçamba de lixo e em um ônibus. Pessoas da própria manifestação começaram a gritar “Desnecessário!” e “Não me representa”, mas não adiantou, a polícia novamente repreendeu a ação. A partir daí foi gás pra todo lado.

De repente, pessoas que estavam longe e nem sabiam a razão, receberam gás lacrimogênio em seus pés. Muita gente se dispersou.Um grupo se dirigiu para a praça da Sé, onde foi recebido novamente por tropas de choque: gás, balas de borracha e tudo mais. Outro grupo se dirigiu para a Paulista, onde houve novo confronto com a polícia.

O movimento começou a receber manifestações de apoio mundo afora, demonstrando que os paulistanos que se mobilizaram não estão sozinhos e contavam com o apoio de brasileiros no exterior.

Quarto protesto contra o aumento da passagem

quinta-feira, 13 de junho

Imagem que ocupou as capas da última edição da revista Istoé e da Folha de São Paulo.

Imagem que ocupou as capas da última edição da revista IstoÉ e da Folha de São Paulo de sexta-feira (14/06), um dia após o Quarto ato. Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

O quarto ato contra o aumento das passagens foi o mais violento e reprimido até agora. Há diversos relatos de abusos e de excessos por parte dos policiais. Entre os feridos havia, inclusive, jornalistas em pleno trabalho, crianças e transeuntes. Uma foto que circulou pelas redes sociais mostra uma bomba de gás lacrimogênio vencida e que foi utilizada – quando vencido, esse armamento não-letal produz risco à vida-. Há vídeos na internet de pessoas que foram alvo de tiro dentro de suas próprias casas, policiais quebrando vidro de suas próprias viaturas, de manifestantes desarmados e entoando “Sem Violência”, tendo como respostas gás pimenta e tiros. A polícia chegou a jogar uma bomba de gás lacrimogênio na estação de metrô Consolação – e entre todas as estações depredadas, há sempre relatos de excessos policiais e do uso deste tipo de armamento não-letal.

trianonmasp

Estações Trianon-Masp e Brigadeiro estavam fechadas. O gás se espalhou dentro de estações abertas, como no Metrô Paulista. Foto: Uol.

A manifestação teve 5 mil participantes, segundo a polícia, mas, segundo o MPL foram cerca de 20 mil manifestantes. Iniciado em frente ao Teatro Municipal, o movimento seguiu tranquilamente pela Avenida Ipiranga, Rua da Consolação até chegar na praça Roosevelt. Lá os manifestantes se depararam com um cordão da polícia. De repente começou a repressão. Pessoas para um lado, bombas todos os cantos. O caos. A multidão corria e agora se dirigia para a Avenida Paulista. Mas a polícia as cercava estrategicamente e lançava bombas e atirava balas de borracha. A repressão foi violenta a ponto de deixar mais de 100 feridos e ao menos 137 pessoas detidas. Quem esteve presente relata que era uma verdadeira briga de gato e rato.

Lá os manifestantes se depararam com um cordão da polícia. De repente começou a repressão. Pessoas para um lado, bombas todos os cantos. O caos. Foto: Uol.

Lá os manifestantes se depararam com um cordão da polícia. De repente começou a repressão. Pessoas para um lado, bombas todos os cantos. O caos. Foto Uol

E agora?

Cartaz na cidade paulista convidado as pessoas para o evento. Foto: Terra

Cartaz na cidade paulista convidado as pessoas para o Quinto Grande Ato contra o Aumento das passagens, que acontece hoje. Foto Terra

No fim, a repressão por parte da polícia resultou num efeito contrário ao esperado. As pessoas se deram conta do abuso vivido por cada um no nosso cotidiano – e que se passa silenciosamente nas periferias. O protesto repercutiu na mídia e o movimento tomou proporções não imaginadas. Os manifestantes agora falam em lutar pela educação, contra a corrupção, liberdade de expressão e de imprensa, contra a PEC-37, entre outras coisas. Já não são mais somente os 20 centavos: Agora é muito mais. É pela liberdade, pelo direito de viver bem, por um mundo melhor para nós e para nossos filhos.

passe livre

Imagem de capa do evento no Facebook do Quinto Grande Ato contra o aumento das passagens, que mobilizou até agora mais de 237 mil pessoas.

Agora estão acontecendo protestos nos estádios da Copa das Confederações. A própria presidente da República Dilma Rousseff e o presidente da Fifa, Joseph Blatter foram vaiados na abertura da Copa – por outros motivos, sim, mas houve a manifestação. Atos unificados e nacionais estão para acontecer. Até o fim desse texto, mais de 237 mil pessoas estavam confirmadas para o Quinto Protesto de segunda-feira. A Revolta da Salada veio para acabar com a pizza de todos os dias.

Por Arthur  Aleixo
arthurpaleixo@gmail.com

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COMENTÁRIOS
Entre as liberdades da imprensa
[...] As manifestações que tomaram conta de várias capitais trouxeram vários episódios nos quais a atuação da imprensa e sua presença foi questionada por muitos. Se as vozes destes jornalistas aqui mencionados são caladas, principalmente estas que há muito lutam por seu espaço dentro tantas outras, haveria garantia de que a liberdade de imprensa pudesse ser efetiva? Do caos mostrado na repressão da polícia contra manifestantes no dia 13, a icônica imagem da repórter da Folha de S. Paulo atingida por um disparo de bala de borracha poderia ser lida como alguma espécie de afronta ao trabalho do jornalista? [...]
20 jun 2013
 
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