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Perguntas às respostas
03 out 2012 | Por Jornalismo Júnior

Depois de um mês de faculdade, você vai enfrentar seu primeiro grande desafio. E que desafio! Mal sabe que talvez possa ser mais difícil até do que fazer centenas de milhares de exercícios de física ou do que esperar o resultado do vestibular. A interminável demora de alguns dias para receber a resposta de um e-mail ou a simples tarefa de fazer uma ligação para aquela fonte que nem sequer sabe falar português promete ser muito mais emocionante.

– Por favor, o senhor Gazhi Shahin – você diz, protojornalista ansioso por marcar a primeira entrevista de sua vida.
– Eu – responde uma voz acanhada, do outro lado da linha.
– Então… Senhor Gazhi, conversei com o Mauro sobre a possibilidade de nós nos encontrarmos para conversar sobre o tema da cultura mulçumana e ele me disse que o senhor estaria disponível no sábado, confere?
– Dois – responde o homem, convicto de que não restam dúvidas sobre sua resposta.
– Dois?
– Sim, dois horas.
– Ah, entendi. Claro, combinado. Duas horas no sábado então?
– Dois! – diz ele mais uma vez e em seguida desliga.

Você tinha combinado, não da maneira mais convencional, mas tinha. Sairia de casa e viajaria por cerca de uma hora sem tem certeza de que aquela ligação tinha sido de fato real, mas estava… tudo bem, tudo combinado! Nada será fácil demais nessa primeira entrevista jornalística e não tem porque ser.

No sábado, com algumas ideias na cabeça e um bloquinho na mão você vai sair de casa pensando que no final da tarde escreverá um texto sobre os costumes árabes, e nada mais. No entanto, logo na sua chegada a Mogi das Cruzes, os seus cinco mil toques talvez precisarão ir além daquele tema que você escolheu como diretriz. Por medo ou por insegurança de se aprofundar em um assunto que é complicado demais, você decidirá não mudar de ideia tão cedo. Mas enfim, o fará.

Correndo para lá e para cá, preocupado em comprar remédios, dar de comer para as famílias e levar crianças e idosos ao médico, ficará frente a frente com você ninguém mais ninguém menos do que o líder do Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino. Uma pessoa como poucas, que inspira admiração, tamanha a grandiosidade de seu empenho em ajudar aqueles que do dia para a noite passaram a fazer parte da vida dele. Sim, o Mauro, ele mesmo, essa pessoa incrível, que apesar ter esperanças nos outros, não espera sentado por ajuda. (E pensar que foi com a ajuda dele que um dia você tomou coragem para fazer aquele primeiro telefonema e que agora está chegando à casa de Gazhi).

Na entrada da sala, uma bandeira da Palestina e outra do Iraque enfeitam o ambiente e cobrem de orgulho a fala daquele senhor que ainda não aprendeu a se comunicar em português, mas que a seu modo, na melodia da própria fala, é capaz de transmitir a emoção que lhe causa narrar um pouco da sua história.

Premiado com a sensibilidade dessas pessoas que a cada gesto e a cada olhar deixam transparecer a sua cultura, aos poucos você deixa seu antigo roteiro de lado e cria um novo rumo para as perguntas que não têm resposta na simples observação.

Com tristeza, vê Gazhi se ater a alguns detalhes de sua carreira no mundo da música e sente nas pausas dele como fora difícil ter que deixar para trás uma vida e uma carreira. Sem dinheiro, no Brasil, ele fora levado até a vender seu instrumento.

Diante do antigo cardápio do negócio que a família tentara levar adiante, resta ainda saudade. Saudade dos temperos, saudade do dia a dia de trabalho. Gazhi está desempregado desde essa última empreitada e já faz algum tempo que ele depende apenas de benefícios sociais para compor a renda da família.

Hospitaleiro, o palestino que viveu grande parte de sua vida no Iraque, não deixa ainda que que você vá embora sem provar um arroz marroquino, acompanhado do tradicional feijão brasileiro, que ele mesmo preparara naquela tarde.

Diante de todas essas perguntas desfeitas em olhares vão surgindo das respostas de um povo destinado a começar sua vida do zero, perguntas que até hoje eles tentam responder. O porquê do abandono? O porquê de tantas promessas? Seria possível voltar para sua terra de origem? E como andava o futuro de quem ficou para trás?

Com muito mais problemas do que perpetuar sua cultura, uma vez que ela está ali e não os deixa por um segundo sequer, eles precisam de uma ajuda diferente. De uma mão estendida para tentar continuar suas vidas, que sem propósito pararam no tempo e esperam uma oportunidade para seguir em frente.

Obrigado a sair de casa após sofrer ameaças, Gazhi Shahin foi viver com sua família em um acampamento de refugiados palestinos no deserto da Jordânia, até que em 2007 chegou ao Brasil. Diretor de Teatro e Cinema em Bagdá, o grande músico de Saddam Hussein, conheceu desde muito cedo a realidade de ser um refugiado. Nascido na Palestina, foi morar no Iraque quando tinha apenas dois anos de idade, tinha início ali a discussão sobre se criar o Estado de Israel. Hoje, com 65 anos, ele vive com a família em Mogi das Cruzes, separado de suas origens e destinado a recomeçar… nascer de novo em um país estranho que o acolheu e parou por aí, como se ele pudesse esperar!

E foi assim, você conheceu a casa dessa família palestina, seus costumes, um pouco da sua tradição e também aquilo que um dia você teve medo de discutir: suas aflições.

A matéria ganha uma nova cara durante a conversa, mas nem por isso você sabe menos sobre a cultura desse povo. Dessa primeira história da sua carreira vão restar saudades e muito orgulho, orgulho de si mesmo, de ter podido ir em frente quando o seu desejo de dar um passo para trás.

O “ser jornalista” vai ganhando significado na sua cabeça e agora a cada nova reportagem você sabe menos como proceder, sendo essa justamente a graça da profissão: que nunca te ensina tudo nunca e não impõe limites para que você cresça. Cresça e se descubra, descubra novas histórias e faça delas boas perguntas às suas respostas.

 

Por Marina Salles
marina.salles.jor@gmail.com

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