Home Antroposofia A psicologia por trás da polarização política
A psicologia por trás da polarização política

Entenda o que política, futebol e internet têm a ver com os discursos extremistas e a polarização política no Brasil e no mundo.

Antroposofia
24 nov 2021 | Por Mateus Cerqueira (mateus.cerqueira@usp.br)

Em meio a um cenário de tensão social e econômica, a polarização política se tornou parte do dia a dia dos cidadãos brasileiros. Seja nas ruas ou nas redes sociais, sempre é possível observar algum tipo de atitude extremista, como xingamentos e agressões físicas, entre indivíduos de campos opostos do espectro político. Conforme levantamento realizado pela Ipsos, entre 2020 e 2021, 8 em cada 10 brasileiros avaliam que o país vive uma forte polarização política.

A psicologia, atenta a esse fenômeno, tem buscado explicações para os comportamentos dos grupos polarizados e sobre como o fechamento do indivíduo em suas próprias convicções ideológicas interfere na racionalização do debate em sociedade. Trata-se de uma investigação que parte das relações interpessoais e dos mecanismos cognitivos, atrelados às crenças de cada cidadão.

O Laboratório, nesta matéria, conversa com duas especialistas para entender quais os fatores psicológicos envolvidos na polarização política e como os discursos desse cenário penetram no imaginário dos indivíduos e limitam o diálogo na sociedade.

 

Política: entre o debate real e a polarização

O período eleitoral é um dos momentos em que fica mais clara a segmentação política em um País. Discursos de todos os tipos inflamam a opinião pública a seu favor. Tanto a esquerda quanto a direita usam de artifícios propagandísticos para atacar os seus opositores e construir, no imaginário dos eleitores, a imagem de um inimigo em comum. Soluções aos reais problemas do país costumam dar espaço à manipulação dos sentimentos das massas.

O resultado? Estresse constante, com diferentes intensidades, que condiciona a ativação de vias do sistema nervoso central, como em um momento de ameaça no ambiente. Isto significa que, ao captar alguma informação que vá contra as suas crenças, o cérebro de um indivíduo em cenário polarizado entra em estado de alerta. 

Na prática, é como se grupos antagônicos tivessem uma compreensão prévia de atos, ideologias e aspectos que representam os seus opositores. É como se, ao avistar alguém com a camiseta vermelha ou verde e amarela, ali estivesse presente um progressista ou conservador, respectivamente. O indivíduo constrói para si a ideia de perigo, mas de maneira irracional, em que até uma simples cor configura a representação da suposta ameaça aos seus princípios – como se verifica no slogan “nossa bandeira jamais será vermelha”.

Neste clima, o País segue sob um impasse. É aí que entra a polarização: o não diálogo, a separação da sociedade em polos políticos divergentes e irreconciliáveis, que são pretextos para a escalada da violência. 

A explicação para esse clima de intolerância, sobretudo em períodos eleitorais, reside na mobilização de mecanismos cognitivos e afetivos dos indivíduos, como aponta Clarice Pimentel Paulon, do Instituto de Psicologia (IP) da Universidade de São Paulo (USP). 

Foto da pesquisadora Clarice Pimentel

[Imagem: Reprodução/Clarice Pimentel]

“O campo da política não é mobilizado somente pela lógica argumentativa e técnica, mas também pelos afetos primitivos, como o ódio, o ressentimento e a sensação de insegurança, que afetam diretamente o cérebro humano. Então, quanto mais aspectos primitivos determinado partido ou candidato mobilizam, mais isso produz uma raiz firme e segura em relação às convicções políticas dos eleitores”, aponta a professora. 

Ela também analisa que a lógica maniqueísta – dualismo entre o bem e o mal – produz ideias preconcebidas quanto aos candidatos e suas propostas. Com isso pautas importantes são suprimidas com base no enviesamento do indivíduo e sua repulsa ao autor. 

A explicação para esse clima de intolerância, sobretudo em períodos eleitorais, reside na mobilização dos mecanismos cognitivos e afetivos dos indivíduos.

 

O resultado é a construção da imagem das pessoas com as quais se deve compactuar e daquelas com quem se deve rivalizar. Segundo Pimentel, no meio político, esse tipo de estereótipo aumenta o fanatismo e cria a rigidez psicológica: uma rejeição àquilo que é diferente ou devoção extrema a um determinado candidato ou partido. Ambos fenômenos dificultam as relações sociais, visto que os indivíduos se sentem na obrigação de impor as suas ideias e corrigir o outro, segundo os seus valores morais e paixões.

 

O que o futebol pode explicar sobre a polarização na política?

Aumento da frequência cardíaca, da transpiração e dilatação das pupilas. Estas podem ser algumas das reações ligadas à adrenalina e ao cortisol, hormônios liberados em nossa corrente sanguínea em momentos de estresse físico ou mental. Entre uma partida do time do coração e um debate político entre candidatos, há muita semelhança: torcedores vão ao êxtase com o gol do seu time, enquanto os eleitores vibram com a argumentação elaborada de seus partidários. 

Esse paralelo entre torcedores e eleitores ganha maior proximidade quando submetido à lógica da polarização, já que, em campos opostos, cada indivíduo tem a tendência de se apegar tanto ao discurso dos afetos quanto a determinado personagem, seja ele um jogador ou político. Ou seja, a lógica da polarização política é uma divisão do eleitorado em torcidas organizadas, em que a competitividade entre partidos e a vitória na eleição de determinado candidato dita as regras, como afirma Pimentel.

“O funcionamento dos partidos, como em uma torcida organizada, em que estamos trabalhando com certo tipo de competitividade e rivalidade – que não são as mesmas na política – produz um efeito em relação ao eleitorado. É como se eles estivessem organizados em grandes torcidas. Isso não é bom, porque, nessa lógica, há a despolitização dos movimentos sociais, uma vez que estamos trabalhando com grandes torcidas e não com cidadãos que exercem os seus direitos políticos”, conclui a professora.

 

Redes sociais e a intolerância política 

Para a psicóloga Marília de Lourdes Araújo, da Universidade Paranaense (Unipar), o uso indiscriminado das redes sociais e a difusão de informações falsas são as principais causadoras da polarização política dentro e fora do mundo virtual. Ela explica que os algoritmos e as notícias mentirosas são mecanismos que favorecem a exposição dos usuários a uma gama de informações que confirmam o seu ponto de vista, o que pode ser entendido pela psicologia como “viés de confirmação”.

Foto da pesquisadora Marília de Lourdes Araújo

[Imagem: Reprodução/Marília de Lourdes Araújo]

“O viés de confirmação é quando as pessoas tendem a acreditar somente naquilo que tenha relação com as suas crenças. E as redes sociais têm esse potencial de mostrar somente aquilo que os indivíduos querem ver e ouvir, mesmo que seja algo atrelado a extremismos ou de caráter duvidoso, como as fake news“, exemplifica a psicóloga.

No Brasil, segundo relatório do Comitê Gestor da Internet (CGI.br), 152 milhões de pessoas têm acesso ao mundo digital e, deste total, 78% das pessoas usam as redes sociais para se informar. Mas, da forma como essas plataformas funcionam, o problema do uso das redes sociais com esse fim é a tendência de reforço dos gostos e valores dos usuários, visto que os algoritmos trabalham selecionando – entre as milhares de informações da internet – aquilo que mais se aproxima do perfil do internauta.

Araújo ainda chama atenção para o maior tempo que os usuários dedicaram às redes sociais na pandemia – isoladas fisicamente, as pessoas tiveram menos contato com ideias opostas às suas. “A consequência foi o fechamento do indivíduo em si, como em bolhas sociais, e o aumento da polarização política do País”, conclui.

Isso mostra o poder que as plataformas interativas têm sobre os indivíduos. Ligadas à produção de dopamina – neurotransmissor do cérebro que atua no humor, prazer e motivação –, as redes sociais viciam pelos estímulos que emitem, isto é, pela gama de informações que selecionam e disponibilizam aos usuários conforme suas preferências.

“A internet pode ser uma aliada, porém é necessário que as gigantes de tecnologia revejam as suas políticas de distribuição de informação e aperfeiçoem os algoritmos com o intuito de colocar o usuário [em contato] com o que é diferente”, diz Marília. 

Laboratório
O Laboratório é o portal de jornalismo científico da Jornalismo Júnior. Apaixonados por curiosidades, nosso objetivo é levar a informação científica o mais próximo possível do público leigo. Falamos sobre saúde, meio ambiente, tecnologia, ficção científica, história da ciência, escrevemos crônicas, resenhamos livros, cobrimos eventos e muito mais!
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*