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Poluição luminosa: a letalidade das luzes artificiais
Matéria Escura
06 mar 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Karina Merli (karina.merli@gmail.com)

 

Imagem: Hugo Vaz/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Em 1879, Thomas Edison criou a lâmpada elétrica incandescente, um dos maiores e mais presentes legados que temos até os dias atuais, aliás. O advento das luzes artificiais permitiu que pudéssemos enxergar melhor à noite e, assim, executar tarefas que antes pareciam impossíveis de serem realizadas com o escurecer. Hoje, as luzes ofertam segurança, sinalização, visão, são até usadas para tratamentos alternativos — cromoterapia — e podem ajudar na concentração de estudos. Mas por trás de todas essas benfeitorias há um lado obscuro: a poluição luminosa.

 

Poluição luminosa? O que tenho a ver?

A fotopoluição consiste no excesso ou no uso inadequado de luz, fugindo do seu objetivo inicial, que seria iluminar um ponto específico para baixo. A forma como ela se manifesta, muitas vezes, não é muito evidente, mas está mais presente no nosso dia a dia do que imaginamos. Alguns exemplos dessa problemática são: céu com brilho alaranjado; dificuldade em ver estrelas nos centros urbanos; luminosidade no quarto, mesmo com tudo apagado; perda de visão devido ao excesso de luz; dentre muitos outros.

“Identificar é muito simples: caso seja possível ver uma luz artificial de um lugar onde ela não devia estar iluminando, esta luz está poluindo. Por exemplo, se de um prédio é possível ver diretamente a luz dos postes da rua ou da praça, elas estão incorretas, pois deveriam estar iluminando para baixo e não para cima. Se a luz do quintal ou do corredor lateral ilumina a casa do vizinho quando se acende, ela também está incorreta”, explica o diretor do Laboratório Nacional de Astrofísica, Bruno Castilho. A causa dessa poluição está vinculada à falta de planejamento nos sistemas de iluminação, gerando o desperdício de energia e desequilíbrio ambiental.

Ilustração de luz intrusa na janela do vizinho. (Ilustração: RAB Electric MFG., Inc.)

Estudos da revista Science Advances relataram que entre 2012 e 2016, a poluição luminosa cresceu 2,2% por ano. Porém, apesar do seu avanço perigoso, o conhecimento sobre ela é ainda bastante restrito. Na concepção do diretor do LNA, isso se deve ao fato de que a poluição luminosa é uma descoberta recente e de difícil notabilidade, ao contrário das poluições da água e do ar, por exemplo. “As entidades científicas e ambientais têm a missão de divulgar este problema e de apontar a solução, seja através da imprensa ou de ações diretas junto à sociedade, às escolas e ao poder público, algo que o LNA tem feito”, aponta.

 

Classificação

A poluição luminosa tem aumentado tanto nos últimos anos que, hoje, é classificada pelos especialistas em cinco modalidades: brilho do céu (sky glow, em inglês), ofuscamento (glare), luz intrusa (light trespass), desordem (clutter) e a luz esbanjada (over illumination).

O  brilho do céu é aquele aspecto alaranjado ou esbranquiçado que notamos nos céus de grandes centros urbanos. Esse efeito é causado quando muitas iluminações estão direcionadas para cima, ao invés do local que elas deveriam iluminar. Somada à poluição atmosférica, seu efeito se intensifica.

Já o ofuscamento é uma luz excessiva e direcionada nos olhos, o que causa uma cegueira momentânea. Ele é bastante recorrente nas estradas com o uso de farol alto pelos automóveis que vêm em sentido contrário. O glare também pode ocorrer na iluminação pública e até nas áreas externas das casas. Em todos os casos, é um fenômeno perigoso, pois atrapalha visão e torna o indivíduo vulnerável a acidentes ou crimes.

Exemplo de ofuscamento. Ao olhar com atenção na abertura do portão, é possível ver uma pessoa ali. (Foto: George Fleenor)

A luz que adentra as nossas janelas é chamada de luz intrusa. Postes de iluminação ou a iluminação do vizinho posicionadas de forma incorreta são exemplos típicos, mas também é possível que a luz parta do interior da casa e adentre a rua.

Exemplo de luz intrusa. (Foto: Ian Cheney)

A desordem é recorrente em grandes cidades, onde há diversos tipos de luz, que acabam causando distração. Por fim, a luz esbanjada é aquela usada de forma exagerada, como os holofotes.

 

As consequências e os riscos

Os danos ao meio ambiente e aos humanos são significativos, já que o ciclo circadiano — também conhecido como relógio biológico — das espécies é afetado. Ele é responsável por coordenar o funcionamento do corpo ao longo de 24 horas e seu norte é fundamentalmente baseado na variação de luz. É a partir da ausência de luz que o organismo produz a melatonina, hormônio do sono.

Nos animais, os ciclos migratório, reprodutivo, alimentar e metabólico são significativamente abalados, gerando desequilíbrio ambiental. Animais noturnos acabam sendo os mais prejudicados, como algumas aves, que chegam a colidir em prédios ou voam em torno da iluminação até chegarem à morte por exaustão. Mesmo aquelas que têm hábitos diurnos acabam sendo despertadas pelas luzes. Além delas, os filhotes de tartarugas são desorientados com a presença nociva de luz nas costas litorâneas. Eles se orientam pela claridade refletida no mar, porém, com a iluminação próxima às praias, acabam seguindo em direção ao continente, resultando em sua morte.

No Brasil, a situação tornou-se tão alarmante que o Projeto Tamar, juntamente com o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais (IBAMA), criaram diretrizes para regular a iluminação de hotéis, casas e da rede pública próximos aos locais de desova ou de alimentação das tartarugas.

Os invertebrados também são afetados, como as mariposas e os vagalumes. As fêmeas desta espécie usam sua bioluminescência para atraírem os machos, no entanto, a luz excessiva impede o processo de comunicação e de reprodução. Muitos insetos acabam tornando-se presas fáceis para aranhas, que fazem suas teias próximas às lâmpadas, ou morrem por exaustão, ao sobrevoarem em volta da luz.

Com isso, o número de polinizadores noturnos tem diminuído e ameaça a flora. A fotopoluição, inclusive, pode acelerar ou diminuir o processo de florescimento, crescimento e de perda de folhas das plantas. “No ser humano, pode causar sérios danos, como o distúrbio do sono, problemas psicológicos e, inclusive, alguns tipos de câncer”, afirma o professor Enos Picazzio do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade São Paulo (USP). Alguns estudos também relacionam o excesso de luz  com a diabetes. No dia a dia, ele pode resultar no cansaço, estresse, sonolência e em dores de cabeça.

A poluição luminosa não só compromete o ecossistema, mas traz prejuízos econômicos, pois a iluminação direcionada para o horizonte ou para cima representa desperdício de energia. De acordo com o Laboratório Nacional de Astrofísica, cerca de 30% do que é gasto com iluminação externa é desperdiçado por conta disso. O excesso de luz tem chegado a um patamar tão elevado que é cada vez mais difícil ver as estrelas, mesmo em cidades mais afastadas dos grandes centros urbanos, já que a luz é refletida por gotículas de umidade ou partículas de pó da atmosfera.

Os estudos astronômicos também estão sendo prejudicados. “Quando apontamos um telescópio para uma região do céu poluída, a luz das cidades refletida se superpõe à luz das estrelas e galáxias e atrapalha as observações. No caso das que são mais fracas, até pode impedir que sejam estudadas”, afirma Castilho.

No país, observatórios astronômicos têm fechado as portas por conta da mazela. No caso do Observatório do Pico dos Dias (OPD), administrado pelo LNA, em Minas Gerais, que abriga o maior telescópio do território nacional, a iluminação nas cidades próximas — Itajubá, Brazópolis, Campos do Jordão, Piranguçu e Piranguinho — já compromete os estudos.

Para o professor da USP, a poluição luminosa implica na deterioração da ciência: “Quando se tem observatórios caríssimos, como os que estão no Chile, Estados Unidos, Havaí, Austrália e, ao mesmo tempo, se analisa a iluminação desnecessária no céu, nota-se que estamos matando uma linha de pesquisa importantíssima. A astronomia não é apenas estudar os astros. Toda a física e todas as leis naturais que se tem conhecimento foram buscadas no universo. Afinal, a Terra é um dos planetas do sistema solar, que é um dos sistemas planetários da Via Láctea, que é uma das galáxias que se tem no universo”.

“Então, preservar as condições de trabalho é muito importante, porque não trata-se apenas do interesse dos astrônomos, mas do conhecimento da ciência. Ameaçar tudo isso por excesso de luz, que vem da ignorância, tira a imagem de que o ser humano é inteligente”, adverte. Além de comprometer o âmbito científico, o excesso de luminosidade também implica em prejuízo para a área, já que o custo dos equipamentos utilizados chegam na casa dos milhões.

“No fundo, quando se analisa essa poluição, verifica-se que os seus impactos são violentos e de longo prazo, sendo a solução deles complexa. Com exceção da segurança e da economia, em que a melhora já é no ato da troca da luz. Já na saúde, por exemplo, acaba sendo um problema de longo prazo e caro. Na fauna e na flora, os reflexos disso serão notados apenas depois de muito tempo, portanto, não será um fenômeno local, mas global. A correção para essa problemática, porém, custa muito dinheiro, quando ela é possível”, alerta Picazzio, caso a situação continue em ascensão.

 

E no Brasil?

De acordo com Castilho, “há poucos estudos quantitativos, mas os efeitos são claros e não precisam de muita pesquisa para mostrar que os moradores de cidades grandes e médias sofrem seus efeitos. Existem iniciativas de pesquisadores nacionais e de grupos internacionais para estenderem as pesquisas sobre a poluição luminosa ao Brasil. Mas o que falta mesmo são mais ações para a conscientização e combate a este problema, as quais não dependem de números precisos no país para serem iniciadas”.

Para Picazzio, o que torna dramática a situação no Brasil é a ausência de uma legislação sobre a fotopoluição. “Uma coisa importante nesse tema é que quando se fala das demais poluições — sonora, visual, nuclear, da água, do ar, do solo — todas elas são caracterizadas como poluição, então, têm a lei que regulamenta, estabelece regras e impõe punições. Mas, por incrível que pareça, a poluição luminosa sequer é caracterizada. E quando se compara o nosso país com outros, vemos que estamos ainda muito atrasados em relação a isso (…)”.

“O Brasil praticamente não tem nada (…). Ele tem uma norma do IBAMA, uma na cidade de Campinas e outra na cidade de Caeté. Essas duas últimas estão em desuso, ou seja, temos um território enorme, produzimos muita luz, sobretudo na costa leste, e, no entanto, não se normatiza nada. O mal que isso causa é terrível, o que mais conhecemos é o risco de extinção de espécies de aves e tartarugas”, acrescenta Enos.

O professor foi orientador de mestrado de José Laercio Araújo. Na tese, foram avaliadas iniciativas de combate à fotopoluição ao redor do mundo e adaptadas à realidade brasileira. O estudo foi tão completo que acabou se tornando um projeto de lei, englobando a parte legislativa e educacional. Entretanto, com as eleições deste ano (2018), o projeto perdeu os representantes que tinha na Câmara de São Paulo e na Câmara dos Deputados. Apesar disso, de acordo com Picazzio, a luta continuará para que o projeto seja discutido e, por fim, aprovado.

Os observatórios também têm buscado reverter o problema. No caso do Laboratório Nacional de Astrofísica, por exemplo, houve uma parceria com a prefeitura de Itajubá para uma reunião com as cidades vizinhas ao OPD. A sugestão era de que as cidades se comprometeriam em passar a utilizar luzes de baixo impacto ambiental na iluminação pública. Porém, o protocolo nunca foi assinado. Para o diretor do LNA, conscientizar as autoridades e a população “é um trabalho lento de convencimento”.

Observatório do Pico dos Dias e a iluminação das cidades próximas em tons alaranjados. (Foto: Cleber Gonçalves/BBC News Brasil)

Há também um certo entrave em se estabelecer comunicação com as autoridades governamentais. De acordo com Bruno Castilho, “o canal mais imediato seria o Ministério do Meio Ambiente. Precisamos nos esforçar mais e conscientizar a população que isto afeta o seu dia a dia também. Só assim poderemos atingir melhores resultados e começar a reverter este tipo de poluição, que embora seja muito ‘clara’ e esteja iluminada aos olhos de todos, ainda é muito pouco conhecida e percebida”.

Apesar do cenário parecer desanimador, ele destaca que alguns grupos têm buscado trabalhar melhor a questão e reforça a importância da união: “Há vários pesquisadores e instituições trabalhando nisto, como o Laboratório Nacional de Astrofísica, o Museu de Astronomia e Ciências Afins, o IAG/USP, o Observatório Municipal de Campinas, além de outros grupos e astrônomos amadores. Se nos unirmos, podemos fazer um trabalho que atinja um público bem maior”.

 

Soluções para um problema luminoso

Existem diversos projetos internacionais que têm como intuito revelar o que o excesso de luz nos esconde, no céu. O Globe at Night e o Great World Star Count, por exemplo, recebem de cidadãos do mundo todo, relatos que revelam o grau da poluição luminosa de suas cidades e regiões. Em épocas determinadas, os colaboradores dos projetos contam quantas estrelas de uma constelação são visíveis.

Somando-se a eles, há outros marcos importantes para a discussão do assunto, como a criação da Associação Internacional do Céu Escuro (IDA), em 1988, além dos estudos cada vez mais aprofundados sobre a questão, a exemplo do Atlas Mundial do Brilho Noturno Artificial do Céu, no ano de 2002, e de conferências internacionais.

Apesar de muitas pessoas acreditarem que usar as iluminações de forma consciente pode diminuir a segurança, o efeito, de acordo com os especialistas, é exatamente o contrário. O mal direcionamento, especialmente da iluminação pública, resulta em pontos cegos para quem passa por ela, seja pelo excesso de escuridão ou de luz.

“Quando se fala em excesso de luz, a primeira coisa que deve vir em mente é: ‘você está usando esse excesso? Não. Então, você está gastando energia’. (…) Há também erros que cometemos e que podem ser corrigidos com muita facilidade. Primeiro: não há necessidade, por exemplo, de se manter prédios acesos a noite inteira. É muito bonitinho se ver de longe, mas para que serve aquela luz, se ninguém está utilizando? Segundo: os refletores têm um papel muito importante, eles direcionam a luz para onde se necessita”, explica o professor.

Diferentemente das outras poluições, a luminosa é facilmente reversível. Uma das saídas para diminuir o seu impacto é analisar a luminária e a lâmpada que está sendo utilizada. Está, de fato, iluminando o local certo? É realmente necessária uma luz tão forte ou ela ofusca? Feito isso, é o momento de decidir se vale a troca ou não. Ademais, os cuidados na instalação também podem contribuir para a sua diminuição. O ponto chave é sempre deixar a luz direcionada para baixo e optar por lâmpadas de melhor desempenho, como as de LED ou as de vapor de sódio de alta e baixa pressão.

Ilustração adaptada pelo LNA. Nela, é possível ver o quanto a iluminação bem posicionada, pode nos permitir ver mais estrelas. (Adaptado de CAS)

Outra questão importante é refletir sobre o tempo que deixamos as lâmpadas acesas. Elas devem ser utilizadas somente quando necessário. No que tange às lâmpadas utilizadas em eventos, o seu funcionamento deve ser restringido, já que elas são altamente prejudiciais. Se atentar às iluminações por onde se passa e usar a cortina para evitar que a luz usada dentro de casa invada o ambiente externo são alternativas simples, que podem ser feitas por qualquer pessoa.

Alguns locais no mundo já estão adotando alternativas simples, mas que são fundamentais para que o quadro se reverta de fato, como Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Chile e República Tcheca. Porém, a falta de fiscalização e de punição revela-se ainda um entrave para que os resultados das nova leis se consolidem positivamente.

É importante destacar que substituir as lâmpadas incandescentes não é uma medida boa o bastante, já que no caso do LED, por exemplo, ele tem um poder maior de iluminação e a substituição indiscriminada pode só piorar a problemática. Portanto, o planejamento dos sistemas de iluminação é algo que deve ser também repensado.

Para o professor Enos Picazzio, duas frentes são fundamentais para mudar o cenário de fotopoluição no Brasil. “A mais eficiente, e isso sempre funciona nos países mais evoluídos, é a educação. Quando se educa, torna-se possível reverter o problema. A educação é de baixo para cima, ensinando o povo nas escolas. Esse seria o caminho mais seguro, porém é demorado, sobretudo no Brasil, onde a educação é um problema muito sério. Não resolvemos problemas básicos”.

“Enquanto isso, é preciso agir de cima para baixo, através de ato governamental, criar uma legislação, definir o que é poluição luminosa, tal como são definidos os demais tipos de poluição, criar regras e, ao mesmo tempo, estabelecer punições para quem desobedecer”, complementa o professor. Para ele, todo o processo precisa contar com o diálogo entre sociedade, setores técnicos, econômico e ambiental, além da participação do governo.

De forma complementar, Castilho acredita que o quadro é reversível. “Com certeza pode ser revertido, não só no Brasil, mas em todo mundo e, ainda mais, com medidas efetivas simples e de baixo custo. Na maioria dos casos, as prefeituras e os cidadãos vão até economizar em suas contas de luz. A poluição luminosa é o único tipo de poluição que pode ser revertido quase sem sequelas e ainda com economia de dinheiro”. Ele cita projetos que o LNA e o OPD desenvolveram em parceria com as prefeituras locais, como as de Itajubá e de Brazópolis, que têm tudo para dar certo.

Para aqueles que se interessaram pelo tema ou já trabalham com ele e desejam entrar em contato com o Laboratório Nacional de Astrofísica, Castilho deixou os e-mails dele e do coordenador do Observatório do Pico dos Dias, Saulo Gargaglioni: bruno@lna.br ou saulo@lna.br.

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