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Pondo as cartas na mesa

Uma crônica sobre o tarô, sua simbologia e alguns relatos

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11 fev 2020 | Por Iasmin Rodrigues (iasmincrodrigues@gmail.com)

[Imagem: Luana Franzão]

O cartaz na porta da tenda diz “leio a sorte nas cartas”. Quando entramos, encontramos uma senhora de meia idade usando um véu azul escuro com medalhinhas douradas nas pontas. Sentamos na frente e ela vira algumas cartas do baralho de tarô. Há um certo ar místico e misterioso ao redor do baralho e nas interpretações das cartas. Porém, realidade é mais rica que a ficção, com o tarô refletindo não forças além da nossa compreensão, mas sim um pouco de nós mesmos.

Eu já tinha um grande interesse no tarô antes de escrever esta reportagem.  Sei ler o tarô em partes (ainda tenho de aprender bastante coisa). Gosto da estética e dos significados das cartas. Por exemplo A Morte. Há um ar dramático em virar essa carta, mas, ao contrário do que se poderia imaginar, essa carta não necessariamente quer dizer que alguém vai morrer em breve. Seus significados positivos são o de final de um ciclo e o começo de outro, uma mudança ou uma metamorfose (transformação profunda e interna). Já os negativos incluem o medo de mudanças, estagnação e apego a algo que já deveria ter acabado. Usei o aplicativo Golden Thread Tarot para encontrar esses significados, mas isso é só o resumo da ópera que é essa carta. O livro A vida pelo tarot de Adriana Kastrup, por exemplo, tem cinco páginas dedicadas só a ela. Cinco páginas para apenas uma carta, de 78. Há livros que têm ainda mais. 

Diferentes cartas do Arcano XIII “A Morte” [Foto: Iasmin Rodrigues]

Com significados tão ricos, a interpretação do tarô fica em aberto: dependente de quem faz a leitura. Os símbolos são os mesmos, as interpretações que passam pela subjetividade. Não é má-fé de quem lê, mas um vislumbre de como processamos símbolos. Minha curiosidade e interesse está nessa subjetividade.

Conversei primeiro com alguém que sabe ler as cartas, e que tem um domínio maior no assunto que o meu, Marcus de Rosa. Para ele, o tarô busca entender uma situação usando um instrumento simbólico. Seu conhecimento sobre o assunto passa por uma base teórica o mais sólida e distante do esoterismo que ele consegue. Por isso, Marcus fala um pouco da psicologia de Carl Jung. “O tarô é você falando com seu inconsciente”. Segundo ele, Jung olhou para as cartas de tarô e viu representações dos arquétipos (conjunto de imagens e símbolos que dão a base e sentido para as narrativas humanas e que todo mundo reconhece) que montam o chamado inconsciente coletivo. Neste conceito, o importante é a simbologia, podendo haver variações tanto na representação quanto na interpretação. “Cada baralho tem uma maneira de transmitir a mensagem”. É essa flexibilidade que permite que as cartas se adaptem às mudanças de cultura que ocorrem com o tempo.

Diferentes cartas do Arcano III “A Imperatriz” [Foto: Iasmin Rodrigues]

Sobre essa variação, “não importa o quanto você leia e estude, a interpretação das cartas vai ser sempre sua”. Há alguns direcionamentos, mas no final das contas depende de quem interpreta. E para transmitir esse conhecimento, é preciso entender a simbologia e interpretações das cartas. 

Segundo Marcus, o tarô dialoga com o inconsciente, trazendo à tona informações que já sabíamos ou já tínhamos alguma noção. Não vem de forças cósmicas mandando um alô, mas uma reflexão de nós mesmos. Se bem interpretado, o tarô provavelmente vai falar o óbvio, algo que você já sabia ou imaginava de algum modo.

Com a ideia de que o tarô é mais um diálogo com o inconsciente, conversei com o psicólogo Leonardo Brendo Martins que tem o foco de estudo em crenças. Ele fez algumas ressalvas. “Mesmo se a gente assumir que haja algum tipo de inconsciente coletivo, [parte importante da teoria de Jung e base para os arquétipos], isso seria responsável só por uma parte do fenômeno.” Durante nossa conversa, ele detalhou mais o que seria a outra parte. 

Psiquiatra Carl Gustav Jung [Imagem: Reprodução Wikipédia]

Falamos inicialmente sobre seu objeto de estudo, as crenças. Ele comentou algo que julguei interessante: tendemos a acreditar nas coisas primeiro (por razões emocionais ligadas a necessidades, expectativas e vieses cognitivos), e só depois que a crença já está instalada em nível inconsciente procuramos motivos racionais para validá-la e corroborá-la. Segundo Leonardo, crenças têm várias funções em nosso inconsciente, como tentar controlar nossa realidade e contribuir para nossa identidade. 

Eu mesma senti influência das crenças inconscientes enquanto escrevia essa reportagem. Foi difícil porque em vários momentos pensava “Ah, o tarô funciona! Eu não tenho de ficar me explicando sobre o assunto”. O pensamento gerou vários aborrecimentos com o texto até que eu percebi que era esse o problema. Eu sei que a matéria fala bastante sobre o baralho, mas a terapia ainda é fundamental para vários insights como o que eu tive.

Leonardo reconhece a eficácia simbólica de artes oraculares, nesse caso mais especificamente o tarô, mas reitera que há formas mais especializadas e preparadas para trazer verdades do inconsciente à tona, em especial a psicoterapia. “Eu não recomendaria o método do tarô, mas eu entendo a eficácia simbólica que ele tem.”

As ideias do inconsciente coletivo e dos arquétipos universais propostas por Jung podem ser levadas em consideração, segundo Leonardo, já que nossa arquitetura cerebral é a mesma dentro da espécie humana e, portanto, nossos cérebros funcionam de maneira semelhante. Ele reconhece que a simbologia pode reverberar com algumas pessoas, mas também faz as considerações sobre os processos mentais que estão ligados às cartas. Alguns deles são:

  • Efeito Forer – uma descrição geral e genérica que a pessoa encaixa de maneira bastante específica na própria vida; 
  • Leitura a frio – interpretação das expressões e micro expressões de uma pessoa, além de buscar informações específicas com perguntas abrangentes;
  • Leitura quente – usar informações que a pessoa já forneceu para formular interpretações e assunções.

Muitas vezes, esses não são processos maliciosos, mas que ocorrem naturalmente durante uma consulta às cartas de tarô. “Você tem de pensar as duas coisas acontecendo ao mesmo tempo, tanto questões inconscientes podendo vir a tona, quanto esses vieses, permitindo que coisas de fora entrem e pareçam ser subjetivamente impactantes e importantes.”

Diferentes cartas do Arcano XIX “O Sol” [Imagem: Iasmin Rodrigues]

Leonardo completa a conversa mencionando o antropólogo Lévis-Strauss ao falar dessa eficácia simbólica. “A discussão acaba não tendo tanta relação com a verdade objetiva, sobre tarô funcionar ou não, mas sim com a verdade subjetiva. É ela que orienta as pessoas no dia a dia e permite que os fenômenos psicológicos aconteçam.”

Essa crença prévia ou não parece se refletir nas reações das pessoas que já tiveram o tarô lido para elas. Eu sou (obviamente) enviesada nesse ponto, mas conversei com outras três pessoas que passaram por essa experiência: Mariana Alboccino, Natasha Teixeira e Caroline Aragaki. 

Mariana é como eu e já acreditava. “Eu sempre gostei dessas coisas de tarô e eu sempre fui muito curiosa de saber sobre o futuro.” Através de conversas de trabalho, ela conheceu uma moça que lê as cartas. “Há pessoas confiáveis para ler tarô e comigo deu muito certo.” As cartas interpretaram tanto problemas familiares quanto mudanças nos estudos de Mariana, interpretações que se mostraram corretas. Foram realmente casos em que a leitura se conectou com Mariana, permitindo talvez trazer à tona detalhes que antes passavam despercebidos, mas que agora foram interpretados de uma perspectiva diferente. 

Natasha já é mais cética. “Na verdade, eu não acreditava muito, nunca levei muito a sério.” Em uma época em que ela estava mais interessada com assuntos de espiritualidade, ela se consultou com uma moça. “Eu não entendo muito sobre o tarô. Nunca pesquisei nada sobre o assunto. Eu fui porque uma amiga me recomendou.” Ela foi cética e um pouco na defensiva, preocupada que a moça que leu suas cartas fosse apenas aplicar a técnica de leitura fria para enganá-la. “Não foi o que eu achava que era. Eu achava que ela ia descobrir minha vida toda pelas cartas e não foi bem isso”. A leitura disse que ela iria terminar com o namorado em breve e que iria encontrar o amor de sua vida. Não aconteceu. Na verdade, Natasha e o namorado ainda estão junto hoje, dois anos depois, e a relação vai muito bem, obrigado. “Por isso que eu tenho a impressão de que quem lê fala a opinião deles, o que eles acham”. A experiência não foi satisfatória, porém a própria Natasha faz uma ressalva: “Não foi de todo ruim. Eu gostei da energia que ela passa, e eu acho que as cartas fazem sentido, talvez não muito para mim”.

Caroline fica no meio termo. “Eu nunca parei para pensar no assunto antes e até hoje eu sou bastante leiga.” Ela descobriu durante uma conversa que um amigo de trabalho lia o tarô. Primeiro ela falou brincando sobre ele ler as cartas para ela, mas ele topou. “Eu achei uma experiência bem completa porque analisou meu passado, presente e futuro.” As cartas mostraram um ano de mudanças extremas e de transformações difíceis, mas que viriam para o benefício dela. Algumas semanas passaram e de fato ocorreu uma mudança, mas algo que ela não esperava. Caroline sofreu assédio e foi alvo de atitudes machistas. No entanto, ao invés de ficar quieta como mandaria a timidez, ela foi em frente e denunciou. “A mudança que o tarô indicou veio em um sentido que eu não teria imaginado antes. Eu nunca iria pensar que seria adquirir uma voz ativa”. Mesmo a transformação sendo dolorosa, ela guarda uma lembrança boa da leitura de tarô. “Eu acho que deu certo comigo, alinhou muito.”

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