Home Lançamentos Netflix: ‘Por lugares incríveis’ é mais um clichê meia-boca
Netflix: ‘Por lugares incríveis’ é mais um clichê meia-boca
CINÉFILOS
03 dez 2020 | Por Gabriella Ramus (gabriellaramus@usp.br)

Por lugares incríveis (All the Bright Places, 2020) é um drama adolescente original da Netflix,  o qual veio como adaptação do livro de mesmo nome escrito por Jennifer Niven. O enredo segue a trajetória de Violet Markey (Elle Fanning) e Theodore Finch (Justice Smith) que, unidos por uma redação da escola sobre as maravilhas do estado de Indiana, lutam para se encontrarem e encontrarem felicidade em meio aos traumas do passado. 

A partir dessa sinopse, já dá para prever 99% do filme, como grande parte das comédias românticas. E para a infelicidade do público, as previsões estão certas. Porém, mesmo que a narrativa de dois adolescentes mentalmente transtornados entrando numa aventura e se apaixonando seja clichê, os personagens poderiam não o ser. Mas para a segunda infelicidade do público, esse não é o caso.

Por um lado, Violet está num estado de profunda depressão por conta da trágica morte de sua irmã em um acidente de carro. Ela não liga mais para a escola e renuncia à alegria, vivendo todos os dias inundada de lágrimas, remorso e medo. Por outro lado, Finch resiste aos rótulos de “aberração” ao mesmo tempo que combate a sombra de seu pai abusivo refletida em seus problemas de raiva. 

 

Violet Markey (Elle Fanning) e Theodore Finch (Justice Smith) de Por Lugares Incríveis. Na imagem, os jovens estão em pé, andando e conversando, segurando suas bicicletas. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Violet Markey (Elle Fanning) e Theodore Finch (Justice Smith) em meio a mais um diálogo fraco. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Além do par menina triste-menino bravo já ter sido feito milhões de vezes, esse não é o único problema com a construção dos personagens em Por lugares incríveis. Finch é “diferente” dos outros garotos, ele escuta músicas indie, faz referências a autores “cultos” como Virginia Woolf e come porcaria. Espera-se que Violet também seja retratada como “diferente” das outras garotas, mas, na verdade, os roteiristas só esqueceram de dar-lhe personalidade.

Uma das únicas falas boas do filme é quando Finch diz à Violet: “Você é todas as cores em uma só. No brilho máximo”. Era para ser uma cena sentimental em que o público percebe que Finch está pronto para ultrapassar a amizade com Violet e levar a relação ao próximo nível. Mas como que o espectador deve acreditar nisso se Violet é a pessoa mais entediante do longa? Se Violet fosse uma cor, ela seria, no máximo, bege. Até sua amiga Amanda (Virginia Gardner), que tem mais ou menos cinco minutos de tempo na tela, parece ser muito mais interessante. 

Não satisfeitos, os roteiristas continuam a tentar nos convencer de que Violet é “extraordinária”, uma vez que ela afirma que seu maior medo é “ser comum”. Mas o que é incomum em Violet? A única coisa que vem à mente é que ela está triste o tempo todo. 

Contudo, isso não é só culpa dos roteiristas. Elle Fanning também fez um trabalho medíocre nesse papel. Não se pode afirmar que sua atuação foi ruim, mas não foi suficientemente boa para fazer com que simpatizassem com sua personagem ou com que fosse marcante em algum aspecto que não o incômodo que o público sente, porque seu cabelo está sempre na frente da cara. 

 

Os protagonistas de Por Lugares Incríveis  estão em um momento de felicidade, com as testas  coladas. [Imagem: Divulgação/Netflix]

[Imagem: Divulgação/Netflix]

 

Com tal carência na descrição de uma das partes do casal, isso desestabiliza o todo. É sempre o Finch que vai atrás de Violet e é algo tão artificial e mal explicado que nem faz sentido. Por que Finch insiste em fazer o trabalho com Violet? Ele queria alguém que não o julgaria? Ele queria uma chance de ser ele mesmo? Porque ele achava ela bonita? Porque ele é legal demais e só queria ajudar?

Houve uma clara intenção de criar personagens mais realistas com problemas mentais realistas, mas essa intenção ficou bem longe do que nos trouxeram na bandeja de prata de Hollywood. Os produtores têm que entender que contratar atores ligeiramente menos atraentes e pessoas não-brancas não faz do filme verossímil ou mesmo menos clichê.

Por fim, cabe adicionar que a cinematografia é entediante, o diálogo é entediante e as transições e movimento de câmera são entediantes, para o caso de que não esteja convencido ainda.

Por lugares incríveis já está disponível para todos os assinantes da Netflix. Confira o trailer

 

*Imagem de capa: Divulgação/Netflix

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*