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Por que o basquete e o rap andam juntos?
ARQUIBANCADA
14 ago 2019 | Por Catarina Barbosa (catarinavbarbosa@usp.br)

Quando se pensa em basquete, qual é a primeira imagem que vem a sua cabeça? Talvez sejam os jogadores altos, negros, cheios de tatuagens e usando grandes correntes, roupas largas e headphones. Agora pense em um rapper… acredito que uma imagem semelhante virá a sua mente, certo? E não é estranho relacionar as duas percepções, principalmente se pensarmos na formação da cultura que as une: o hip hop.

O basquete surge nos Estados Unidos em meados de 1890, e, como a maioria dos esportes, sua prática limitava-se às classes mais elitizadas. Como forma de resistência, as classes marginalizadas passaram a praticar um tipo informal do esporte, o streetball, que contava com jogadas mais lúdicas e acrobáticas que o esporte original. Além disso, os jogos eram coordenados pelos mestres de cerimônia, os MCs, que agitavam a torcida com rimas e músicas de rap. Logo, a nova prática foi incorporada à cultura hip hop, servindo como ponte para a união entre o esporte e a música. 

Com o passar do tempo e com a democratização do basquete, o streetball, praticado majoritariamente por jovens negros e latinos em quadras de ruas, passou a ser um evento vitrine para os futuros jogadores e rappers profissionais, sendo a primeira forma de contato desses com essa cultura.

Márcio Santos, ex-assessor da Secretaria de Cultura de São Paulo e ex-organizador do Encontro Paulista de Hip Hop, afirma que: “O rap se relaciona com o basquete no momento em que trata, na maioria das vezes, da realidade do jogares, da identidade destes de surgirem muitas vezes do mesmo local e passarem pelas mesmas dificuldades [que os rappers]”.

Streetball [Imagem: PRNewsFoto / Harlem Globetrotters]

Dessa forma, tanto a carreira no basquete quanto a musical, mostram-se como meio de ascensão para os jovens marginalizados – principalmente nos Estados Unidos – que enxergam nessas duas vertentes maneiras de serem reconhecidos pelo mundo. Caio César, professor formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador, aponta que: “Dentro de um sistema meritocrático e segregador, rap e basquete são instrumentos de inclusão e ascensão social menos difíceis para esses jovens”. 

No entanto, mesmo servindo como agentes transformadores, engana-se quem pensa que por puro mérito pode-se ascender nesses meios. “Mesmo sendo esportes que prezam mais pela habilidade, questões sociais, econômicas, psicológicas e familiares contam muito, fazendo com que ainda haja algum tipo de peneira ou funil também nesses segmentos”, afirmou o pesquisador.

Ainda assim, a ligação cultural entre o esporte e a música mostra-se tão forte ao ponto que, tanto jogadores famosos da NBA quanto rappers populares têm inspirado-se uns nos outros e trabalhado juntos em prol de suas comunidades: seja na maneira de vestir, de se comportar ou ainda de protestar contra problemas estruturais e raciais.

Em 2004, após um caso de violência entre jogadores do Indiana Pacers e do Detroit Pistons que se alastrou até as torcidas, o então comissário da NBA criou um código de conduta para a liga, que podava desde o comportamento dos jogadores até sua maneira de vestir, proibindo roupas e acessórios ligados à cultura do gueto, de maneira que nada ligado a “bandidagem” estivesse relacionado a NBA. No entanto, com o passar do tempo e, principalmente, com a ação do jogador Allen Iverson, que tratou de mostrar cada vez mais seu lado do gueto para o público, a liga entendeu ser mais fácil incorporar a cultura das ruas ao esporte do que se afastar dela. 

Por isso, hoje o estilo é um dos mais rentáveis para a NBA, tendo diversos rappers como estrelas de campanha dos times e glamourizando esse estilo de vida. Márcio Santos enxerga essa mudança como benéfica:“pois apresenta a variedade de talentos que esta cultura[do hip hop] possui com um grande poder de influenciar na economia, possibilitando a realização de muitos negócios dentro de um tipo de entretenimento hoje chamado basquete, que gera muito lucro.” Já Caio César acredita que ainda assim, a estrutura da NBA só reforça o estereótipo racista sobres seus jogadores: “Ao meu ver, é mais uma fetichização que reforça um estereótipo ruins sobre pessoas negras. Sem contar o viés econômico, já que os grandes donos desses clubes ainda são pessoas brancas, que estão lucrando com essa estética.”

O rapper Drake no NBA Awards [Imagem: Nathaniel S. Butler]

De qualquer maneira, tem sido através do encontro entre o esporte e a música que diversos temas importantes têm ganhado destaque: jogadores têm colocado os movimentos Black Lives Matter e LGBT sob os holofotes, além de protestarem contra o presidente Donald Trump; o programa filantrópico “NBA Cares” já investiu mais de 200 milhões de dólares em hospitais e ações de caridade com a participação de jogadores. Vale ressaltar também, a parceria entre Chance, the rapper, e Jimmy Butler, do Chicago Bulls, que se juntaram para trabalhar pela comunidade de Chicago, marcada pela violência e descaso das autoridades. 

Este último caso retrata um compromisso pessoal que alguns dos atletas têm de retornarem algo para às comunidades, como afirma Caio César: “Acredito que seja válido ter uma formação social e racial para esses meninos, aliada às suas carreiras. É isso que faz a diferença quando vemos essas ações do Jimmy Buttler e do Chance. Se houver consciência racial e de classe, o retorno para a comunidade virá”.

Camisa em referência a morte de Eric Garner, jovem negro morto pela polícia norte-americana {Imagem: Robert Deutsch / USA TODAY Sports]

E para selar a união vinda do hip hop, não são poucos os casos de jogadores que têm participado de clipes de rap e até feito suas próprias músicas: a participação de Larry Hughes no clipe de Dilemma do Nelly e Arron Afflalo sendo citado por Kendrick Lamar em Black Boy Fly são bons exemplos disso, além, é claro, dos jogadores Damian Lillard, Iman Shumpert, Lonzo Ball, Kyrie Irving e o próprio Allen Iverson, que lançaram seus próprios singles e álbuns. Há casos até mesmo de rappers que tentaram a carreira no basquete antes da música, como é o caso do 2 Chainz, Jay Cole e Master P.

Confira abaixo algumas dessas participações e músicas:

HaNdel Bars – Iman.

Dilemma – Nelly

Bigger than Us – Damian Lillard

Black Boy Fly – Kendrick Lamar

O esporte e a música mostram que a cultura de rua do hip hop é capaz de transformar vidas: consegue reunir sonhos e expectativas daqueles que não tem muito, e – com um pouco de sorte- os fazem ascender e obter sucesso.

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