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“Por que você não nasceu sérvia?”
CINÉFILOS
18 maio 2013 | Por Jornalismo Júnior

na terra do amor e ódio
Bósnia-Herzegovina, 1992. Um casal dança em meio a beijos, suspiros e charmes. A música de fundo e o clima apaixonado dos personagens principais bem que remetem a uma comédia romântica tradicional, adoçada com quatro colheres de açúcar. No entanto, uma bomba explode.

Esse ataque das forças armadas sérvias no território bósnio sinaliza o início de uma história que pede um repertório cultural que não é esclarecido de forma eficiente ao longo do filme Na terra do amor e ódio (In the Land of Blood and Honey, 2011). Dirigido pela atriz Angelina Jolie, o longa-metragem aponta uma questão crucial para o genocídio ocorrido no Leste Europeu entre 1992 a 1995: o uso do estupro como método de guerra e conquista do inimigo.

Para criar um parâmetro histórico, o embrião do conflito entre sérvios e bósnios encontra-se século XII. Na realidade ocorre por este segundo povo ter sofrido influência da cultura árabe-muçulmana. A expansão do Império Otomano na região balcânica, península a qual se localizava o Reino da Sérvia, implicou nos grandes conflitos que envolveram esses dois povos na Idade Média. Apesar da grande resistência, os muçulmanos ocuparam os Bálcãs durante muito tempo, desenvolvendo um revanchismo por parte dos sérvios.

Os anos se passaram, e os países presentes na região se tornaram heterogêneos com relação à população constituinte. Após a Queda do Muro de Berlim, em 1989, os países da antiga Iugoslávia – formada por sérvios, bósnios, croatas, macedônios – começaram a articular movimentos separatistas. Porém os sérvios não gostaram nada dessa história uma vez que, desde antes da invasão no século XII, existia um ideal de criar um território único, intitulado a Grande Sérvia, o qual englobava os vizinhos que almejavam essa independência. E como a fome não estava de acordo com a vontade de comer, a humanidade presenciou um dos maiores genocídios da Era Contemporânea.

na terra do amor e ódio

Assim, bósnios e sérvios que eram amigos de infância se viram no meio de um confronto, em que as próprias ideologias pessoais se confundiam com os discursos nacionalistas de limpeza étnica que os sérvios propagavam. A ONU falhou na sua diplomacia, tal como também falhara em Ruanda, e o mundo teve de assistir sentado às insanidades que praticavam sem nenhuma restrição.

Essa lacuna histórica não é preenchida pelo roteiro do Na terra do amor e ódio, que busca se focar nos abusos que as mulheres sofriam pelo Exército sérvio, e, além disso, na relação amorosa entre Danijel e Ajla. Ele, militar sérvio. Ela, bósnia muçulmana. E frases como “lembre-se de como as coisas eram antes da guerra” marcam um espetáculo meio Romeu e Julieta da desgraça moderna.

O melodrama não desmerece a visão de Angelina sobre o filme, que realmente destaca um ponto que poucas vezes é lembrado pelo público. O estupro é sim uma forma de conquistar o inimigo. É uma tentativa de afirmação de uma superioridade através do controle de descendência, “limpando” o fruto daquelas que têm “sangue ruim”, termos utilizados pelos próprios personagens do filme. Pelo menos, depois de tanta irracionalidade, o estupro passou a ser considerado Crime Contra a Humanidade, e se enquadra nos direitos humanos defendidos pela ONU.

No geral, Na terra do amor e ódio é bom mediante a contextualização dos fatos históricos, os quais são indispensáveis para o entendimento dos porquês da narrativa. Entretanto, peca um pouco por certa superficialidade, que em conjunto a um clichê shakespeariano, rouba uma atenção maior do que a denúncia feita pela obra.

“Here she comes, heads turn around
Here she comes, to take her crown”
Miss Sarajevo, U2
Música feita em homenagem às vítimas
do genocídio da Bósnia.

por Júlia Pellizon
juliapellizon@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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