Home Cultura Por trás da indústria dos talent shows
Por trás da indústria dos talent shows

A esperança por conquistar uma carreira submetida aos moldes da Indústria Cultural

JPRESS
27 nov 2020 | Por Lucas Zacari (lucas.zacari@usp.br)

“Você já pensou em ser o novo astro brasileiro?”. É assim que muitos dos programas caracterizados como talent shows atraem candidatos rumo a um estrelato prometido a partir das habilidades as quais julgam possuir. Cantar, dançar, cozinhar, desenhar, praticamente toda ação que envolva um talento possui um programa de competição, e provavelmente você mesmo já tenha assistido a algum (ou alguns) desses.

Salvo raríssimas exceções, existem duas fórmulas que são massivamente aplicadas nesses programas: os candidatos se apresentam para uma bancada, demonstrando suas capacidades e, uma a uma, é dito se a pessoa segue na competição; ou o próprio júri propõe uma determinada atividade a que o grupo de competidores deverá realizar e aquele que tiver o pior desempenho é eliminado do programa. No fim, além de uma quantia alta de dinheiro, costuma existir um prêmio que irá alavancar a carreira do vencedor, como um curso gastronômico ou a gravação de um disco. 

Segundo Cleber Rohrer, produtor audiovisual e professor na área, esse é um traço da  programação atual das emissoras, não só desse modelo em específico: “A gente tem a televisão hoje, ela é norma-padrão. É tudo igualzinho, tudo a mesma coisa, não tem nada de diferente”. Essa homogeneização foi observada na década de 1940, pelos filósofos alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer, sendo um dos vários tópicos dentro do amplo conceito de Indústria Cultural.

A Indústria Cultural é um conceito que visa evidenciar o quanto a cultura se torna uma mercadoria na sociedade capitalista. Para funcionar, as pessoas precisam aderir a essa lógica, por meio de processos sociais, econômicos e, também, de elementos psíquicos. 

Mesmo sendo uma teoria formulada em meados do século XX, tendo a programação radialística da época como sua base de estudos majoritária, é possível ainda traçar alguns paralelos na mídia dos dias atuais. Os shows de talentos, tanto pela via psicológica, quanto pela via econômica, são representações do conceito em questão.

 

O boom do formato

Também conhecidos como shows de calouros, esses programas tornaram-se consolidados durante a era de ouro do rádio, nas décadas de 20 e 30. E, assim como os teóricos explicitaram, havia uma forma de se reciclar os formatos, sem nenhuma novidade. Foi seguindo isso que, no ano de 1948, estreava na televisão dos Estados Unidos o Original Amateur Hour, seguindo os preceitos do programa homônimo que fazia sucesso nos rádios estadunidenses, o qual revelou o músico Frank Sinatra. 

Uma das primeiras edições do Original Amateur Hour, em 1948

 

Regido por Ted Mack, o formato foi sempre o mesmo: as pessoas se apresentavam e, por meio de cartas e telefonemas, o público de casa decidia quem ganharia o título daquela semana. E a audiência era tão grande que conseguiu a façanha de manter-se 22 anos na grade de programação. Foi a partir dele que o modelo se popularizou entre as emissoras e entre a população, sempre disposta a conhecer um possível novo astro, como Beyoncé e Justin Timberlake, que surgiram anos depois no estadunidense “Star Search” (1983-1995).

Aqui no Brasil, o formato foi muito aplicado, geralmente nos famosos programas de auditório. Chacrinha, Raul Gil, Silvio Santos, Fausto Silva, entre inúmeros outros apresentadores renomados tiveram (e ainda têm, no caso dos três últimos) quadros em que desconhecidos se apresentavam para o público em geral, almejando a uma fama que aquela aparição poderia render. 

Só que esse modelo, em que cada um se apresentava de forma independente, foi substituído por outro, que revolucionou o entretenimento. Em 1999, o programa Popstars, da Nova Zelândia, inovou a categoria ao promover, durante nove semanas, uma competição entre 500 participantes que, no final, os 5 melhores formariam uma boy/girl band. Até então, era inimaginável pensar que um programa de TV impulsionaria uma carreira a esse nível. As vencedoras da primeira edição criaram a banda TrueBliss e conquistaram, antes de caírem no esquecimento, um álbum de platina nacional.

Rapidamente, o formato atravessou os continentes e chegou à Inglaterra, com a criação do Pop Idol, em 2001, e logo transferiu-se para os Estados Unidos, com o American Idol. A partir daí, além de ter se tornado uma franquia, com edições ao redor do mundo, inclusive no Brasil, com o famoso Ídolos, o programa propiciou a criação de inúmeros semelhantes, todos eles com a premissa neozelandesa: a oportunidade de uma carreira no mundo da música.

Com isso, houve uma explosão no número de shows de talentos, com uma popularização massiva da área musical, principalmente com a participação de Simon Cowell. O executivo participou das cinco principais competições musicais como jurado: além das versões do Idol, The X Factor UK e USA e Britain’s Got Talent. Apesar de ter sido um dos responsáveis pelo ascensão de bandas que passaram por esses programas, como o One Direction, sua atuação sempre foi considerada polêmica e abusiva, tanto durante as gravações quanto agindo no gerenciamento dessas carreiras.

As outras áreas, percebendo tamanho sucesso, também adequaram-se ao formato, promovendo suas aptidões de maneira competitiva. Talvez os de maior sucesso sejam os talent shows culinários, representados sobretudo pelo Masterchef que, assim como a maioria desses programas, expediu licenças e gerou cópias de seu formato por todo o mundo.

Aqui no Brasil, o sucesso desse novo formato aconteceu sobretudo nos anos 2000, com a vinda do programa musical The Voice Brasil, e do culinário Masterchef Brasil. Rohrer, no entanto, reforça que esse modelo já existia no país, mas nunca foi dado o devido valor: “Aí vem um programa como o The Voice, que é exatamente a mesma coisa, com pessoas desconhecidas, que se apresentam para uma banca e as pessoas vão dar conselhos. Mas por trás tem o glamour, tem outra roupagem, é um programa de fora”.

A reconhecida audição às cegas do The Voice Brasil

A reconhecida audição às cegas do The Voice Brasil [Imagem: Reprodução/TV Globo]

De acordo com Maysa Ciarlariello Cunha Rodrigues, doutoranda em Sociologia pela USP e docente no Instituto Federal de São Paulo, o fenômeno da expansão do modelo cultural norte americano, próprio do capitalismo, é um dos aspectos que o conceito de indústria cultural se remete. “Adorno e Horkheimer migraram para os Estados Unidos em razão da perseguição sofrida na Alemanha nazista e lá se depararam com uma cultura muito diferente daquela que vivenciavam na Europa”, contextualiza a pesquisadora. Ela continua explicando que “o fato de vermos remakes dos mesmos programas norte-americanos tem a ver com o próprio movimento do capital de se expandir”.

A seleção acima do talento

“Sempre foi aquele sonho de adolescente participar de um programa desse. A gente vê o sonho internacional, aquele doce ‘sonho americano.’” É assim que o videomaker Caio César relembra a vontade de participar do The X Factor Brasil, que teve sua estreia no ano de 2016, pela TV Bandeirantes. Porém, o que era um sonho, em questão de horas, se tornou um pesadelo não só para ele, mas para milhares de candidatos.

Caio, que na época fazia parte de uma banda cover do One Direction, o quinteto que explodiu ao mundo justamente através da versão britânica do programa, relembra com decepção do dia 10 de julho de 2016. Assim como muitos interessados em participar, ele conta que chegou à Arena Corinthians, na Zona Leste de São Paulo, local em que ocorreram as audições, por volta das duas horas da manhã, com os termômetros marcando cerca de seis graus. No dia, ainda, uma grande amplitude térmica aconteceu na cidade, fazendo com que, durante a espera, o calor viesse, podendo prejudicar a voz das pessoas, instrumento primordial do trabalho do músico.

Caio César no dia da audição, um sonho que se tornaria pesadelo

Caio César no dia da audição, um sonho que se tornaria pesadelo [Imagem: Caio César Sousa/Arquivo Pessoal]

Porém, o grande problema estava por vir. Após mais de 12 horas de espera a céu aberto, com dificuldades para ir ao banheiro (havia 6 banheiros químicos para 10 mil pessoas), passando fome e frio, finalmente chegou a hora de cantar. A princípio, as audições aconteceriam em salas reservadas, somente com jurados que, analisando a voz, aprovariam ou não a pessoa. Só que não foi isso que aconteceu

A superlotação de candidatos fez com que fossem chamados de três em três, em tendas finas e nada separadas. Além disso, quem ia se apresentar possuía a plateia de concorrentes, o que poderia afetar no seu desempenho, junto das condições a que foi submetido anteriormente. 

Após se apresentar, Caio recebeu o não. Diferente dos dois outros candidatos, que simplesmente foram negados, ele ainda teve uma justificativa. Justificativa essa que, ao contrário do que se esperava, não estava relacionada com sua voz. “É Caio, né? A sua voz é muito bonita, você tem um estilo muito bacana, dentro de um nicho que a gente estava procurando. Mas pena que você chegou agora, porque a gente acabou de aprovar uns meninos que tem esse mesmo tipinho que você”, ele relata a sua negativa, explicitando que havia coisas mais determinantes para a entrada do que o talento.

Essa situação de selecionar por critérios distintos não é única e exclusiva do programa em questão. A professora de dança Dani Machado, finalista do talent show Me Deixa Dançar, do GNT, afirma categoricamente que essa situação aconteceu durante a seleção dos integrantes do programa. “Vamos dizer o português correto: tem que ter a cota negra, tem que ter a cota preta; tem que ter aquele que tem uma história triste, tem que ter a menina do interior, que não tem nada na cidade e aí de repente ela conseguiu vir para a cidade grande dançar. Sempre tem”, aponta.

Rohrer aponta que a venda justamente desse sonho, de tirar alguém do anonimato e alçar à fama, é o que gera uma facilidade na escolha pelos participantes, sempre tendo os estereótipos a que os responsáveis buscam apresentar. “Eu pego um monte de gente que é anônimo, às vezes eu nem pago o salário para elas, porque se ela não quiser participar, tem milhares que querem participar, isso é muito mais fácil”, ressalta.

Os produtores desses programas sabem que um potencial de audiência como o show de talentos tende a gerar influência sobre o público, assim como ser a vitrine da sua emissora. Por conta disso, os valores a que as empresas buscam disseminar devem ser presentes desde a fase de seleção dos participantes, tendo na habilidade, que deveria ser o essencial do programa, apenas um algo a mais.

Rodrigues explica que o público assiste ao show e se sente identificado com os personagens: “Fazendo uma reflexão a partir da teoria da indústria cultural, podemos dizer que, de um lado, esses candidatos têm que ser minimamente interessantes, dar movimentos ao programa e, do outro lado, eles têm que parecer ser como a gente. Ou melhor, tem que parecer com uma versão que a própria indústria cultural criou sobre como nós somos”.

Com isso, é possível perceber que aquela pessoa que está em cima do palco nem sempre tem seus fãs por ser quem ela é, mas sim por aquilo que pareça ser e que seja atraente tanto à Indústria quanto aos moldados por ela.

 

O direcionamento das emoções

Passada a fase de seleção dos candidatos, passa-se para o programa em si. E é nesse momento em que as emoções, já elevadas após passar por todo o estresse da fase anterior, chegam ao ápice e se afloram. Por conta disso, é extremamente comum surgirem cenas de brigas ou choros entre os participantes da trama.

Em muitos desses programas, junto das atividades em prática, é comum surgirem depoimentos dos participantes, gravados posteriormente, em que eles comentam o que estava acontecendo naquele momento. Cenas de conflito, de superação ou de decepção costumam viralizar muito mais do que a competição em si, porém nem sempre o que está sendo dito pelos participantes é o que realmente aconteceu.

“Os roteiristas viam alguma situação, algum olhar, e perguntavam o que achava de determinado momento. E aí cabe a nós, ou você inflamava aquilo ou tentava segurar a onda”, explica Machado. Ela ainda comenta que, quando foi assistir ao programa, algumas partes alteraram a forma como ela havia compreendido: “a gente percebe que algo tinha uma segunda intenção”. 

Um dos depoimentos dado por Daniela durante o Me Deixa Dançar

Um dos depoimentos dado por Daniela durante o Me Deixa Dançar [Imagem: Reprodução/GNT]

Dessa forma, se quem estava dentro do talent show costuma ter uma percepção diferente entre o acontecimento original e a edição veiculada, já com todo um formato voltado para o entretenimento, as pessoas que atuam como espectadores tendem a tirar conclusões sobre os participantes somente por aquelas transmissões. Ao observar as redes sociais durante a exibição dos programas, é comum existirem críticas ou elogios pautados única e exclusivamente por uma atitude de certo participante, mesmo que ela tenha sido explicitada pela fala de outro.

Para Rohrer, no entanto, é nesse momento de intrigas e da disputa latente no jogador em que esse formato costuma fazer mais sucesso. “As pessoas nem ligam para quem está participando, elas ligam para a competição”, ressalta. Ele ainda complementa apresentando que o final do programa, em que, a princípio, estão os melhores selecionados, não é o momento de maior impulsionamento: “Porque as pessoas querem ver quem acha que canta bem, quer ver as pessoas brigando para ver quem vai passar para a próxima fase”.

Apesar de parecer um pouco contraditório e fora do senso comum, já que normalmente espera-se que o ápice de um programa de televisão seja o último episódio, os números trazem confirmação a fala do produtor. Segundo dados da Kantar Ibope, a edição de 2019 do The Voice Brasil, transmitido pela TV Globo, teve sua maior audiência no episódio três (25,3 pontos), enquanto as três últimas exibições tiveram os piores índices da temporada (respectivamente 21,0, 21,7 e 23,3 pontos), justamente nos momentos mais decisivos.

Essa situação pode apresentar uma espécie de sadismo do público em geral, na medida em que a audiência do programa não está voltada para a descoberta de quem será a nova estrela ou quem tem mais talento, mas sim os momentos de dificuldade. Rodrigues ressalta que essa sensação pode ser, inclusive, uma forma a que a Indústria Cultural procura em aliviar a tensão da vida das pessoas, justamente pelo fato de identificar-se com o participante, de sentir as mesmas sensações que o espectador. “Ao ver alguém chorando, isso pode dar prazer e entreter. Há um alívio, principalmente, porque é um momento em que não se pensa sobre a própria vida, não se sente as próprias angústias. Nos sentimentos menos sozinhos porque aquela pessoa que está lá na TV chora tanto quanto você, sofre tanto quanto você.”

Também fica clara tal atitude em relação ao público na edição atual do Masterchef Brasil. Por conta da pandemia de COVID-19, a produção resolveu alterar o formato de disputa, em que toda semana novos participantes disputavam para concorrer pelo prêmio daquele episódio, semelhante aos mais antigos talent shows. A opinião geral, todavia, reclamou, e muito, do formato, tendo como uma das principais justificativas a falta de identificação com o retratado. 

Exemplo de como a edição do talent show culinário está sendo rechaçada. Mesmo que contrariado, a força do programa é tamanha que a audiência segue

Exemplo de como a edição do talent show culinário está sendo rechaçada. Mesmo que contrariado, a força do programa é tamanha que a audiência segue [Imagem: Reprodução/TV Time Series]

O sistema no backstage da televisão

Sobem os créditos, apagam-se as luzes. Engana-se quem pensa que os shows de talentos terminam nesse momento. A partir daqui, ocorre a substituição da parte subjetiva da Indústria Cultural pela parte mercadológica do conceito. Agora, basicamente tudo a que os programas se propõem a apresentar é, de alguma forma, explicitado para a população em formato de vendas. 

Ao analisar um talent show culinário, por exemplo, é possível apontar para uma série de vertentes que são exploradas na comercialização. Os prêmios, por exemplo, serão propiciados por marcas que desejam vincular o seu nome aos valores a que a programação busca disseminar. Existem ainda produtos e serviços associados aos participantes e jurados que estimulam o consumidor a sentir-se seduzido e tendo necessidade por consumir tais bens.

Mesmo algo inimaginável, como um jogo de videogame, os talent shows conseguem emplacar para a criação de uma necessidade

Mesmo algo inimaginável, como um jogo de videogame, os talent shows conseguem emplacar para a criação de uma necessidade [Imagem: Reprodução]

Até mesmo o próprio processo da competição torna-se uma mercadoria, ao pensar que a disputa em um mercado de trabalho está sendo monetizada pela emissora responsável. “A indústria cultural e o capitalismo vão tomando vários espaços, inclusive da nossa subjetividade, e tudo isso implica em muito lucro”, aponta Rodrigues. Ela ainda apresenta  como esses dois fatores acabam por trabalhar na construção das necessidades pessoais: “Cada elemento da cultura vai ter a propaganda de todo o sistema. Vai se formando uma rede muito ampla, em que produtos de universos muito distintos estão relacionados e trabalhando juntos para promover o lucro”.

Outro ponto a se destacar é o de que esses programas dialogam com uma necessidade específica do capitalismo: a de transformar o tempo livre em tempo de consumo. “O tempo de lazer faz par com o tempo de trabalho. A indústria e o capitalismo ganham duas vezes, estamos movimentando o capital ao trabalhar e gerar valor e depois ao consumir produtos, inclusive produtos culturais”, afirma a doutoranda. Rodrigues ainda explica que o sistema “incentiva o consumo a partir de necessidades criadas e esse consumo é o que repõe as energias para que no dia seguinte as pessoas voltem aos seus empregos, fazendo com que a produção se mantenha”.

Os talent shows vendem-se como uma forma de sucesso fácil em atividades prestigiadas, tanto dentro quanto fora do mundo do entretenimento. Porém, o que está por trás deles parece ir na contramão da premissa de se encontrar um verdadeiro talento, mas sim uma forma de vender a imagem que a Indústria Cultural busca promover. Próximo episódio?

 

J.Press
A J.Press é uma agência de grandes reportagens que procura novas perspectivas de mundo. Com forma e conteúdo plurais, quer explorar assuntos a fundo, mesmo sabendo não ser possível esgotá-los. Em nossa agência, questões de interesse público ganham novos ares. Todos os textos da J.Press começam com uma pergunta, mas não pretendem chegar a uma única resposta.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*