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Por trás dos dibres femininos – Quem são as Dibradoras
ARQUIBANCADA
02 out 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por Karina Merli

O Projeto Dribladoras atrai cada vez mais o público feminino para o futebol. (Imagem: Youtube/Reprodução)

Antes de contar a história do projeto Dibradoras, é importante salientar que sim, o “dibre” existe. O dibre é uma adaptação popular do drible, justamente pela sua facilidade de pronúncia, ao invés do drible. Essa adaptação é algo recorrente em nosso dia a dia, especialmente para quem acompanha o futebol, e tornou-se mais um termo do “futebolês” (como as próprias “dibradoras” intitularam o vocabulário em seu blog, no UOL), após o bruxo e grande “dibrador”, Ronaldinho Gaúcho, oficializar o termo em sua conta no Twitter, no ano de 2015.

Tweet de Ronaldinho Gaúcho, respondendo uma usuária. (Imagem: Twitter/Reprodução)

 

Foi aí que surgiu o projeto Dibradoras, inspirado pelos dibres para contornar o preconceito e dar voz à mulher no esporte. Renata Mendonça, uma das fundadoras do projeto, detalhou a criação: “A gente começou em 2015, um mês antes, mais ou menos, da Copa do Mundo de futebol feminino, com um grupo no Facebook, que chamava-se Dibradoras. A ideia do grupo era ter só mulheres para falar sobre futebol. A gente achava que os outros grupos de futebol, no Facebook, sempre acabavam tendo uma maioria de homens e poucas mulheres. Portanto, elas acabavam se manifestando pouco por não se sentirem confortáveis ali ou achavam que iam ser julgadas pelo que falassem. A gente criou esse grupo para ser um espaço confortável  para as mulheres poderem falar sobre futebol”.

Atualmente, o projeto tem canal no YouTube, um programa na Central 3 – um canal de podcasts – além da mais recente conquista: um blog no UOL. Por trás de tudo isso, estão três sócias que, com exceção da jornalista e são-paulina, Renata Mendonça, dividem a jornada de trabalho com o Dibradoras: Angélica Souza (publicitária/palmeirense) e Roberta Nina Cardoso (jornalista/são-paulina). Mas para chegar até aqui, elas tiveram que “dibrar” bastante e lidar com o recente desfalque da corinthiana Nayara Perone.

Da esquerda para a direita: Renata Mendonça, Angélica Souza, Roberta Nina Cardoso. (Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal/Women’s Health)

O apito inicial de uma nova jornada

Pouco tempo depois do grupo de Facebook ser formado, uma oportunidade importantíssima surgiu: a Central 3, conversou com Renata acerca da viabilidade em fazer um programa que cobrisse a Copa do Mundo de futebol feminino, com o intuito de ter mais mulheres atuando no canal. Logo, a jornalista partiu à procura de amigas que se interessassem pelo projeto. Foram, então, escaladas Roberta Nina Cardoso e Júlia Vergueiro (ex-dibradora, que hoje é sócia do Pelado Real Futebol Clube, projeto que ensina mulheres a jogarem futebol).

A internet foi ferramenta fundamental para formar essa equipe, como explicou Renata: “A gente se conheceu na internet, basicamente. Na verdade, a Júlia, que estava nesse início, conhecia a Angélica e a Nayara pessoalmente, porque jogavam futebol juntas. A Nina conhecia a Júlia da internet, por serem são-paulinas, por isso, eu conheci as duas, pois faziam parte de um grupo de são-paulinos do qual faço parte também, no Facebook. Aí, a gente foi se conectando. Nós meio que nos conhecemos por causa do futebol, mas virtualmente primeiro, depois pessoalmente”.

Com o final do torneio de futebol feminino, o canal de podcasts solicitou a permanência das “dibradoras”, que identificaram a possibilidade de expandir o programa além do universo futebolístico. “A partir daí a gente quis ampliar a ideia do Dibradoras para falar não só sobre futebol feminino, não só sobre futebol, mas sobre mulheres no esporte em geral. A gente percebeu que o problema que a mulher sofria no futebol era o mesmo que ela sofria em todos os outros esportes, uns mais e outros menos, mas porque o esporte não é considerado uma coisa para mulher”, relatou Renata.

Além disso, naquele ano, o futebol feminino não tinha, ainda, a repercussão atual. Portanto, era um obstáculo para elas comentar sobre algo que não se tinha as informações necessárias, mesmo na internet.

De cada “dibre” um aprendizado e uma conquista

O projeto foi iniciado em um período cuja demanda feminina estava em uma crescente. Naquele ano (2015), movimentos feministas ascenderam nas ruas e nas redes sociais, reivindicando direitos e voz na sociedade. Renata analisou esse momento como crucial para uma das principais conquistas do Dibradoras: “Hoje, a gente, inclusive, tem sido mais valorizada, o que a gente faz é mais valorizado, porque a gente está nesse momento mais favorável”.

Além dessa conquista, existem outros feitos que são, ao mesmo tempo, grandes desafios para o grupo. O fato de seu surgimento ter sido algo despretensioso e ter se tornado profissional se enquadra nisso. Na concepção de Mendonça, o projeto tornou-se uma referência de conteúdo esportivo feminino, logo, é fundamental manter a seriedade do trabalho.

A jornalista também apontou como grandes responsabilidades o blog no UOL e as participações no Redação SporTV: “Entre os blogueiros do UOL, acho que, sei lá, tem um blog de vôlei que é de uma mulher e o resto são, basicamente, homens, né? Então, isso representa uma conquista enorme para a gente e para as mulheres. Eu acho que, ao mesmo tempo que é uma conquista, é um desafio para a gente ser essa voz e representar bem as mulheres tanto ali, quanto no espaço que a gente tem tido no SporTV também”.

No caso do UOL, o contato inicial foi semelhante ao da Central 3. Inicialmente, o projeto seria responsável por conteúdos relacionados à Olimpíada de 2016, no Brasil. Posteriormente, com o fim das competições, a coluna também acabou. Em 2017, porém, o contato foi retomado e textos de freelancer eram requisitados. Em fevereiro deste ano, as Dibradoras receberam uma proposta para ficarem, definitivamente. Além disso, o portal apresentou uma proposta de mudança cultural, visando modificar o ambiente machista que se instaura em redações esportivas.

Mas nem tudo é tão simples quanto parece. Em um dos seus programas na Central 3, cuja convidada era a Sheila (vôlei), as Dibradoras receberam muitas críticas. A falta de conhecimento e de pesquisa sobre a questão da transexualidade, fez com que o grupo recebesse diversos comentários desaprovando a abordagem sobre a jogadora Tiffany, do Vôlei Bauru. O episódio, no entanto, serviu de lição. “Eu acho que a gente acabou se saindo bem. Porque, depois, a gente se corrigiu, realmente identificou o nosso erro e falou: ‘Não, a gente precisa fazer uma correção aqui.’ E foi o que a gente fez. Fizemos um texto que o título era: ‘O que aprendemos com Tiffany’, que falava um pouco desse lado pessoal do nosso aprendizado. Isso foi muito importante para mostrar às pessoas que estávamos dispostas a aprender e que a gente reconhecia o nosso erro”.

Os lances inesquecíveis das “dibradoras”

Para os amantes do esporte, sempre há aquelas lembranças históricas, que carregamos por toda nossa vida. Com as meninas do Dibradoras, isso não é diferente. A são-paulina Renata, apontou, em especial, o próprio reconhecimento que o projeto tem ganhado, desde elogios até virar tema de trabalho de faculdade. “Isso é um orgulho muito grande, porque acho que diz muito para a gente qual é a nossa função no mundo, que estamos cumprindo essa missão, que o nosso trabalho é realmente necessário, então, é muito gratificante”.

Dois eventos, em especial, também ocupam parte do enorme coração de cada uma delas. Um deles foi deflagrado logo no início do projeto, em 2015, na Conferência Nacional da Juventude, em Brasília. Após comentarem sobre o Dibradoras, uma adolescente afirmou: “Olha, eu não acompanhava esporte nenhum, não via futebol, mas ouvindo tudo o que vocês falaram aqui, eu entendo a importância disso e, agora, vou começar a acompanhar. Porque eu acho que como mulher, isso me foi privado, no passado e entendo isso como uma causa de resistência.” Esse momento é tido como algo maravilhoso para elas.

O outro se deu em 8 de março de 2018. A temática do evento organizado pelas próprias componentes era “As conquistas delas”, tendo como convidadas: Aline Pellegrino (futebol), Fofão (vôlei) e Magic Paula (basquete). O intuito era não só falar das dificuldades, mas reconhecer e valorizar as conquistas da mulher no esporte. Para as convidadas e para o próprio grupo foi algo muito gratificante e motivador.

A conexão esporte-mulher

As jornadas duplas e, por vezes, triplas acabam afastando as mulheres da prática esportiva. No Brasil, por exemplo, de acordo com o IBGE (2017), duas em cada três mulheres não se exercitam. Para Renata, a cultura machista é uma das responsáveis. Enquanto para os homens a prática esportiva – vide o futebol – é tratado como “sagrado”, para as mulheres, isso não ocorre, já que, na maioria dos casos, elas são as responsáveis por cuidar dos afazeres domésticos e dos filhos. “Assim, a prática esportiva nunca vai ser prioridade na vida da mulher. É outra coisa que a gente também tem que trabalhar, porque a mulher também precisa estabelecer essa rotina, uma vez que ela começar a praticar”.

Outro ponto que dificulta esse processo é a ausência de espaços e de outras mulheres.  “Uma mulher, hoje, que quer praticar um esporte na vida adulta, por exemplo, tem muita, muita dificuldade. Porque se for um esporte coletivo, por exemplo, em que espaço ela vai praticar? Com quem ela vai praticar? Onde ela vai aprender? Você não tem escolinha para adulto de qualquer modalidade. Acho até que, hoje em dia, tem uns lugares de futebol feminino que ensinam a prática, mas é muito pouco”.

Para reverter isso, o projeto Dibradoras tenta fazer a sua parte. Com seus podcasts e textos, elas tentam mostrar que as mulheres foram afastadas dos esportes por questões machistas. Dado o momento em que isso é conscientizado, de acordo com Mendonça, o público feminino tende a aderir à alguma atividade física, percebendo, rapidamente, os benefícios dela.

Por fim, para aquelas que querem fazer cobertura esportiva, a jornalista enfatizou: “É importante não desistir nunca. Saiba que você vai enfrentar algumas dificuldades, que você vai ter que “dibrar” muito preconceito, mas é importante não desistir”.

O futebol feminino entrou em campo (para ficar)

A principal bandeira do Dibradoras sempre foi o futebol feminino. “A gente costuma dizer que o futebol feminino é a maior invasão que a mulher pode fazer no universo masculino, né? Porque não é só querer gostar de futebol, querer entender de futebol, mas é também querer jogar futebol e isso é interpretado como: meu Deus! A maior invasão possível ao mundo dos homens!”, comentou a jornalista.

No Brasil, o futebol feminino foi proibido durante quase 40 anos. Somente nos anos 80, a prática foi legalizada, o que implicou, obviamente, em atrasos. Hoj,e a infraestrutura dos campeonatos e até mesmo de muitos clubes é ainda precária. No início do projeto, o grupo de amigas também identificou outra falha grave: a imprensa pouco comentava sobre a Copa do Mundo de futebol feminino. Ao comentar, muitas vezes, cometia erros crassos. “Quando saía uma notinha minúscula no jornal, sobre a Copa, falava: ‘Pô, tal fulaninha que é artilheira.’ Sendo que o nome da menina estava errado, ela nem era a artilheira, sabe?”, desabafou Renata Mendonça.

Aos poucos, o esporte vem ganhando notoriedade e espaço, ainda que seja pequeno. Para ela, esse reconhecimento é responsabilizado, em grande parte, ao feminismo. “Eu acho que isso tem feito com que as pessoas prestem mais atenção na luta das mulheres no futebol”.

Cartão vermelho para o machismo

O machismo ainda é um grande impedimento para as mulheres que desejam atuar ou falar sobre esporte. No âmbito familiar, por exemplo, Mendonça comenta o episódio em que o seu pai levou somente o seu irmão e não perguntou se ela queria ir ao estádio. Para ela, que tinha apenas 12 anos, na época, aquilo foi extremamente revoltante. No entanto, em seu caso e no de Roberta Nina, a resistência familiar praticamente não existiu.

A problemática também é pauta constante do projeto. Inclusive,  foi o que determinou os novos rumos do Dibradoras, com a continuação do podcast na Central 3. Às vésperas do Panamericano de 2015, o caso da saltadora ornamental, Ingrid de Oliveira, ganhou uma notoriedade e tanto. Na época, a atleta havia postado uma foto de costas, no entanto, a mídia enfatizava que ela exibia o bumbum. “Isso foi nos ajudando a entender a causa que a gente realmente queria trabalhar, que era isso, né? Do machismo no esporte, do que afasta as mulheres do esporte, e aí a gente foi entendendo que seria interessante ser uma plataforma de conteúdo que fizesse algo que as outras mídias esportivas não fazem”, relatou a jornalista.

Mesmo no jornalismo esportivo, é notória a participação feminina ainda ser algo tímido. Ademais, o assédio na área é relatado, constantemente. Por essas razões, o grupo permanece com o ideal de empregar somente mulheres, conforme Renata apontou: “Quem está precisando de um espaço para trabalhar no jornalismo esportivo são as mulheres, então, a gente acredita que devemos ser a voz e o espaço para essas mulheres que querem trabalhar com isso”.

O grupo também recebe comentários machistas (tratados de forma irrisória) nas suas plataformas de conteúdo. Apesar disso, procuram contornar essas situações com “dibres” e elegância. Por vezes, quando são abordadas com a devida educação, as meninas tentam dialogar, do contrário, ignoram ou deletam comentários, quando ofensivos. Um caso recente pipocou logo quando elas estrearam no UOL: “A gente fez um texto que era ‘A saga da mulher que ousa gostar de futebol’. Aí, cara, esse texto tem perto de 100 comentários, 90% desses comentários, que são feitos por homens, falam assim: ‘Gente, que absurdo! O nome Dibradoras está errado, o correto é Dribladoras’”.

A repercussão e a repetição desses episódios de mansplaining (quando um homem tenta explicar algo óbvio ou sobre um assunto que a mulher já domina) foi tão grande, que a solução foi fazer uma matéria sobre “De onde vem o dibre”, em que não só se relata a origem do termo, como também a sua influência no nome do projeto.

Os projetos e o legado do Dibradoras

Graças ao espaço conquistado e ao fato de que Renata poderá, agora, dedicar-se 100% ao Dibradoras, os projetos crescerão e vão expandir  as fronteiras brasileiras. Um check-in será feito em 2019, na Copa do Mundo de futebol feminino, na França e em 2020, na Olimpíada de Tóquio (Japão). Ademais, elas pretendem fornecer mais conteúdo em seu canal no YouTube e realizar lives em intervalos de jogo do Brasileirão.

Quando perguntada sobre o legado que elas pretendem deixar, a jornalista afirmou: “O legado é inspirar mais meninas a conhecerem e vivenciarem o esporte desde cedo, passar para elas a mensagem de que elas podem, sim, ser o que quiserem e que podem ocupar todos os espaços que desejarem. Além disso, queremos despertar as mulheres para o interesse no esporte, que elas percebam o quanto foram excluídas disso por causa de um preconceito enraizado e o quanto estão perdendo longe dele. E por último, mas não menos importante, o legado seria a mudança da cultura esportiva como um todo, tanto por parte das organizações que regem o esporte, quanto por parte da mídia que cobre esporte, para que eles enxerguem a importância de investirem e acolherem as mulheres na área”.

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