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‘Proibido Nascer no Paraíso’- Uma luta pelo direito de parir
CINÉFILOS
18 mar 2021 | Por Mariana Marques (m4rimarques@usp.br)

Proibido Nascer no Paraíso (2021), documentário dirigido por Joana Nin, é uma daquelas obras capazes de nos fazer questionar o nosso pressuposto progresso enquanto sociedade. Ambientado em Recife e Fernando de Noronha, o filme aborda uma temática que nem sempre ganha a atenção entre as pautas que envolvem os direitos femininos: o direito de parir. 

Logo nas primeiras cenas o que vemos são algumas das cenas deslumbrantes tão facilmente associadas com o arquipélago pernambucano.  Mas não demora muito para que Fernando de Noronha perca um pouco de seu ar paradisíaco em Proibido Nascer no Paraíso. Conforme os minutos passam, é possível entender cada vez mais sobre as dimensões concretas das decisões políticas que vêm sendo tomadas há mais de uma década e que raramente geram indignação. 

Cena do filme Proibido Nascer no Paraíso, na qula crianças residentes do Arquipélago de Fernando de Noronha brincando na praia

Crianças residentes do Arquipélago de Fernando de Noronha cujas mães deram à luz fora da ilha. [Imagem: Reprodução/Sambaqui Cultural]

Isso porque desde 2004, ser mãe em Fernando de Noronha se tornou uma tarefa verdadeiramente desafiadora. Com o desmonte da única maternidade local, supostamente devido ao alto valor que a instituição custava anualmente, todas as gestantes da ilha ficaram sem suporte adequado para terem seus bebês com segurança. 

A solução encontrada? Deslocar todas as mulheres grávidas para a capital do estado a partir da 34ª semana de gestação. Apesar da assistência dada pelo poder público durante  o período em que residem em Recife, a experiência é traumática. Obrigadas a deixar a maior parte da família, seu ambiente de conforto e suporte por no mínimo 3 meses, no longa Proibido Nascer no Paraíso, as mulheres grávidas e no puerpério não exitam em expressar o desconforto que sentem e a vontade de voltar para seus lares.

 

Cena do filme Proibido Nascer no Paraíso. Harlene, Ione e Babalu; moradoras de Fernando de Noronha com seus filhos no colo.

Harlene, Ione e Babalu; moradoras de Fernando de Noronha com seus filhos no colo. [Imagem: Reprodução/Sambaqui Cultural]

No documentário, acompanhamos Ana Carolina (Babalu), Ione e Harlene durante o duro processo de se tornar mãe. Nascidas e criadas no arquipélago, ter que ir ao continente em um momento tão único e delicado quanto esse gera sentimentos conflituosos. Ao mesmo tempo que algumas relatam a insatisfação com a longa viagem e com a impossibilidade de terem seus filhos no lugar onde construíram suas identidades e no qual se sentem seguras, o medo parece ser o sentimento mais presente. 

Durante Proibido Nascer no Paraíso, fica evidente que o medo atravessa a vida das futuras mães não apenas devido aos motivos tidos como comuns, mas porque é através dele que os profissionais encarregados de orientar e acompanhar o processo gestacional, as convencem que realizar o parto fora da ilha é, não só a melhor escolha, como a única. Sem UTI neonatal, nem estruturas necessárias para realizar um parto de emergência, aquelas que vivenciam o final da gestação são constantemente alertadas sobre os perigos que o feto corre. 

Cena do filme Proibido Nascer no Paraíso. Babalu durante um ensaio fotográfico  [Imagem: Reprodução/Sambaqui Cultural]

Babalu durante um ensaio fotográfico. [Imagem: Reprodução/Sambaqui Cultural]

Babalu, que tentou ter seu bebê em Fernando de Noronha, revela que em diversas conversas com profissionais da saúde e assistentes sociais, há a tentativa de responsabilizar as mulheres por qualquer problema que as crianças venham a correr durante os primeiros dias e meses de vida. Em mais de uma cena, é explícito a forma insensível com a qual essa questão é tratada, e uma profissional chega a citar o Conselho Tutelar quando uma das mulheres expressa sua vontade de realizar o parto na ilha. 

Proibido Nascer no Paraíso também chama atenção para outras dificuldades que fazem parte do cotidiano dos noronhenses, como o difícil acesso à terra e a moradia, uma vez que para utilizar um terreno, mesmo aqueles localizados em áreas residenciais, é preciso de uma concessão específica dada pela administração do Distrito. A restrição, pensada para preservar o patrimônio ambiental, acaba gerando grandes processos burocráticos para as famílias que há décadas vivem em Noronha em situações cotidianas, desde sair da casa dos pais para construir a própria família, até a troca de parte do encanamento. Mas não só isso, como as crianças nascidas fora da ilha (praticamente todas desde 2004) precisam adquirir permissão para habitá-la permanentemente existem aquelas que, por algum motivo, tiveram esse direito negado. 

Uma das mais chocantes cenas é uma filmagem, gravada a partir de uma câmera de segurança em que um homem desce uma rua correndo com um bebê recém nascido em seus braços. A cena, do modo que é apresentada, lembra as imagens que flagram suspeitos de cometerem crimes que o brasileiro está acostumado a assistir nos jornais. A mensagem é clara: nascer em Fernando de Noronha está se tornando, pouco a pouco, proibido.  

 

Proibido Nascer no Paraíso estreou em 11 de março no Brasil. Confira o trailer: 

*Imagem de capa: Reprodução/Sambaqui Cultura

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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