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Quadro-a-quadro do feminismo com Trina Robbins, cartunista da Mulher Maravilha
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09 nov 2015 | Por Jornalismo Júnior

Uma das mídias mais consumidas da contemporaneidade, as histórias em quadrinhos consagraram a popularização de identidades massificadoras e, simultaneamente, foram um suporte para a expressão da contracultura. A partir dos anos 60, cartunistas independentes puderam delinear e imprimir as marcas de suas próprias minorias nas páginas dos papeis formatinhos, ampliando o espectro de leitores de HQs. Todavia, uma vez que o oligopólio do ramo ainda não tenha integrado esses consumidores da forma que merecem, com originalidade e protagonismo, a atuação da vanguarda de quadrinistas continua sendo essencial para abranger e respeitar esses grupos.

Para conhecer um pouco mais sobre a influência do feminismo na cultura, o Sala 33 relembra a carreira da cartunista norte-americana Trina Robbins, a primeira mulher a desenhar a Mulher Maravilha e a escrever uma comic lésbica não-erótica. Conversamos com ela sobre a representatividade feminina nesse mercado editorial. “Costumava ser terrível antigamente, quando os editores sempre me diziam que garotas não liam quadrinhos”, recorda a cartunista, “mas está tranquilo agora, porque não é mais tão dominado por homens e há mais mulheres criando quadrinhos do que nunca antes”.

HQ - 2 versão

Vida e obra

Trina sempre teve uma personalidade marcante e proativa. No inverno novaiorquino de 68, a cartunista viajou à L.A. e deixou seus gatos aos cuidados de um roqueiro e um amigo dormindo em sua butique. Lá, a cartunista foi surpreendida pela homenagem de uma das melhores guitarristas da história, Joni Mitchell, que compôs essa música sobre sua estada:
https://www.youtube.com/watch?v=51m5UnZcWYc
No ano seguinte, Trina criou o visual da heroína de terror Vampirella, uma das personagens mais sexies das HQs, o que caracterizava o início de seus trabalhos. “Eu não fiz nada erótico desde meus dias de quadrinhos underground, há 30 anos”, avisa Robbins, “não tenho nada contra quadrinhos eróticos, contanto que não explorem as mulheres; mas não é do meu interesse”.

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Primeira HQ da Vampirella, heroína de horror vinda de um planeta com rios de sangue. Foto: Reprodução.

A década de 70 começou com o lançamento da primeira revista de quadrinhos concebida exclusivamente por mulheres, It Ain’t Me, Babe: Women’s Liberation (Editora Last Gasp, 1970), uma proposta de Robbins em parceria com o jornal feminista de mesmo nome. Além disso, Trina e outras quadrinistas publicaram a Wimmen’s Comix (Last Gasp, 1972 – Rip of Press, 1992), HQ underground cuja edição de estreia trouxe a primeira história lésbica sem caráter erótico ou pejorativo, Sandy Comes Out.

Em 1986, Trina se tornou a primeira mulher a desenhar a Mulher Maravilha nas revistas solo da personagem. “A Mulher Maravilha que eu desenhei era baseada na personagem original da Era de Ouro dos quadrinhos, a que irei sempre considerar como a verdadeira Mulher Maravilha”, nos conta. Na década de 90, Trina foi pressionada pela hostilidade das grandes editoras e voltou a trabalhar independentemente.

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Historiadora de HQs

Enquanto exerce sua profissão, Trina também arquiva a história de outras mulheres que contribuíram para o boom da nona arte. Em 2013, ela lançou o livro Pretty In Ink (Editora Fantagraphics, 2013), que traça a trajetória dessas artistas desde 1896 até o ano de publicação. Neste ano, escreveu Babes in Arms: Women in Comics During the Second World War (Hermes Press, 2015), obra que reconstitui a memória de quatro artistas. Trina, aliás, disponibilizou em seu site um edição das aventuras da Señorita Rio, espiã latina de Lily Renée, uma das cartunistas homenageadas.

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Señorita Rio editada por Trina Robbins. Foto: Reprodução.

Trina veio ao Brasil

Em seu 77° aniversário, Trina desembarcou em São Paulo para participar da terceira edição das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, uma conferência bienal organizada pelo núcleo de pesquisas de HQs da ECA-USP. Em sua passagem, a cartunista encorajou dezenas de mulheres a persistirem no mercado dos quadrinhos. Dias mais tarde, ao notar a ausência de representatividade feminina na Comic Con do Havaí, Trina manifestou seu afeto pelas jovens quadrinistas que encontrou aqui. “Vamos lá, garotas [havaianas]! Pensem naquelas maravilhosas mulheres brasileiras e suas lindas comics, vocês podem fazer isso também!”, escreveu em seu blog.

Aproveitamos a visita da cartunista ao Brasil para batermos um papo sobre a participação feminina neste mercado. Confira abaixo a entrevista exclusiva.

trina e laerte

Na capital paulista, Trina conheceu nossa cartunista Laerte. Foto: Trina’s Blog.

Sala 33: Apesar de ser a primeira mulher a desenhar a Mulher Maravilha, sabemos que a senhora não se interessa muito por histórias de super-heróis.
TR: Rá! Eu odeio super-heróis! Além do fato de se vestirem muito mal, que tipo de mensagem eles transmitem às crianças quando a reação imediata que têm para tudo é responder com os punhos?

Sala 33: Que histórias você indicaria para quem têm esse mesmo gosto?
TR: Eu estava há pouco em uma convenção onde vi homens, grandes fãs de quadrinhos mainstream, acompanhados de esposas e namoradas que não estavam nem um pouco interessadas em estar lá. Uma delas até perguntou ao namorado: “podemos ir agora?”. Eu disse a ela “Eu tenho a impressão que você não gosta de quadrinhos” e ela respondeu “não é que não gosto, mas não me interesso. Prefiro histórias de mistério escritas por mulheres”. Eu sugeri: “Você não está lendo os quadrinhos certos”. Vendi a ela uma cópia da minha graphic novel Lily Renée, Escape Artist (Editora Graphic Universe, 2011), prometendo que ela gostaria, e no dia seguinte ela voltou, contou que havia amado e comprou uma cópia do meu livro sobre a história de mulheres cartunistas, Pretty in Ink. O namorado dela simplesmente vinha lhe mostrando suas horríveis histórias de super-heróis, e ela não sabia que existiam tantos outros tipos de quadrinhos!

lily renee, escape artist

Lily Renée, Escape Artist conta a fuga de uma garota judia vienense que é obrigada a se separar dos pais para sobreviver ao antissemitismo. Foto: Divulgação.

Sala 33: O que a senhora pensa sobre a nova abordagem que têm atacado o padrão da sexualização de heroínas e vilãs, como o título Harley Quinn dos Novos 52 (Editora DC Comics, 2013 – 2015), que foca em outros aspectos da personalidade da personagem?
TR: Fico muito feliz em ver tantas mulheres na internet criticando a hipersexualização nas HQs, porque suas vozes estão sendo ouvidas e os editores estão prestando atenção.

Sala 33: Você acredita ser válida a reciclagem de personagens conhecidos para incluir minorias, como a mudança de sexo de Thor (Editora Marvel Comics, 2014 – 2015), ou há outras alternativas?
TR: Eu questiono por que têm de ser personagens conhecidos. Por que não as heroínas menores em todas aquelas maravilhosas graphic novels feitas por mulheres E homens que estão por aí?

Sala 33: O mercado de quadrinhos tem alguma peculiaridade comparado a outros ramos que também foram socialmente construídos como inapropriados para mulheres?
TR: Quando falamos de mulheres ou de machismo em quadrinhos, poderíamos facilmente substituir a palavra “quadrinhos” por “games” ou “filmes”, ou outro número qualquer de profissões. A tendência é a mesma em todas essas profissões e, quando mulheres realmente conseguem uma vantagem, frequentemente os homens reclamam que as mulheres estão tomando o controle!

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Jane Foster, que recentemente virou a versão feminina de Thor, já havia se transformado no super-herói em Earth-788, de 1978. Foto: Reprodução.

Sala 33: O mercado se tornou mais receptivo a mulheres, tanto leitoras como profissionais, nas últimas décadas? O que mudou?
TR: Sim!!! O que mudou foi o surgimento da graphic novel! Todas essas incríveis graphic novels e mangas shoujo provaram que é claro que garotas e mulheres leem quadrinhos, contanto que você faça o tipo de quadrinhos que garotas e mulheres querem ler.

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Foto: Reprodução.

Sala 33: Algum conselho para as mulheres que estão tentando entrar nesse mercado?
TR: Só vá em frente, e não pare! Não deixe ninguém te dizer que mulheres não desenham nem escrevem quadrinhos. As pessoas ainda sequer dizem isso?

Sala 33: Marvel ou DC?
TR: Nenhum dos dois! Boas graphic novels publicadas por mulheres E homens.

Por Larissa Lopes e Laís Ribeiro
larissaflopesjor@gmail.com e la.ribeiro97@gmail.com

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
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