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“Quanto Vale ou é por Quilo?” promove debate e critica a sociedade brasileira
CINÉFILOS
27 out 2013 | Por Jornalismo Júnior

por Arthur Pinto da Silva
arthurp.dasilva@gmail.com

Num formato metalinguístico e com elementos pitorescos, o diretor Sérgio Bianchi consegue em Quanto Vale ou é por quilo? (idem, 2005) construir um paralelo interessante entre a sociedade brasileira contemporânea e a escravocrata dos séculos 16, 17 e 18.

Focando suas críticas no assistencialismo, o diretor cria diversas pequenas tramas no passado e no presente que acabam por se relacionar eventualmente. Nesses diferentes núcleos, a sátira social parte da hipocrisia em torno da solidariedade para outras direções ao longo da narrativa propositalmente fragmentada.

Quanto vale ou é por quilo

Temas como a deficiência do sistema penitenciário, corrupção, lavagem de dinheiro, exploração da pobreza pelas elites e criminalidade gerada pelo abismo social são abordados de maneira, vezes ácida, vezes simplificada, ao longo do filme.

Apesar de alguns deslizes técnicos, especialmente relacionado ao aproveitamento do elenco “global” (com nomes de peso como Herson Capri, Caio Blat, Ana Carbatti) é certo afirmar que o filme desencadeia reflexões muito importantes. Não é que vivemos em uma sociedade explicitamente oligárquica e baseada no trabalho escravo, mas mais que uma herança, notamos aspectos de tempos passados que se mantiveram vivos na sociedade brasileira até hoje, como falsas amizades criadas em torno de interesses econômicos, o preconceito com o negro, o machismo e o descaso da justiça com os mais pobres.

Importante notar o quanto a falta de escrúpulos pauta as relações entre os indivíduos tanto hoje quanto outrora. Por um lado, todos tem boas intenções e vontade de fazer o melhor, pelo outro as atitudes sempre se pautam pelo ganho individual. O egoísmo prepondera e cria-se um ciclo hipócrita que assola grande parte dos países do chamado “terceiro mundo” até os dias de hoje.

Quanto vale ou é por quilo I

Em um mundo em que a aparência conta muito e que ajudar os pobres está na moda, a pobreza é elemento necessário e sua manutenção se dá justamente por aqueles que posam como os grandes bem-feitores da sociedade. No filme, estrangeiros e brasileiros de uma elite que visa auxiliar e amenizar os problemas da pobreza, são donos de empresas e compactuam com esquemas lícitos e ilícitos muito danosos para a população em geral. Esses são responsáveis pela consolidação do abismo social que os separa e que gera inúmeros outros problemas. O que no passado se colocava nas contas dos coronéis e seus interesses comerciais voltados para a exportação e a manutenção da mão de obra escrava, o filme coloca nos dias de hoje a responsabilidade no papel martirizador que a pobreza tem para a elite que depende de camadas sociais mais baixas não só como mão de obra, mas principalmente como ferramenta de propaganda e promoção, puramente hipócrita, de uma boa imagem.

De maneira geral, o filme falha na criação de um panorama mais aprofundado, fazendo muitas críticas, mas de maneira mais superficial. O argumento, para alguns, mais estudiosos dos problemas sociais brasileiros, pode parecer frágil, mas não deixa de fazer pensar. Como obra de cinema, “Quanto vale ou é por quilo?” pode deixar a desejar, mas como instrumento de conscientização e aquecimento do debate público, o filme choca e suscita discussões necessárias em um país que cresce muito, mas que os frutos desse crescimento só são aproveitados por alguns.

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